15.10.08
Pedro Cardoso e a nudez no cinema
Leio na Folha que Pedro Cardoso fez um longo discurso, no Festival do Rio, contra a nudez na produção cinematográfica e televisiva brasileira. Aponta pornografia no recurso ao nu, diz que, despido de suas vestes, o ator perde o personagem para ser ele mesmo, o ator: “Diante da irredutível realidade da nudez de seu corpo, o ator não consegue produzir a ilusão do personagem”. Pedro ainda vê excesso de “roupas sensuais, ou diálogos maliciosos, ou beijos intermináveis” na TV e no cinema. Tudo serviria para alimentar o marketing “das empresas que exploram a comunicação em massa” e atender ao “voyeurismo e disfunção sexual de diretores e roteiristas”.
Após o discurso de Pedro, a atriz Cláudia Abreu foi ao microfone para endossar tudo o que havia sido dito. “Passei por uma situação recentemente. Ele está completamente certo”.
Ora, a situação recente (a única?) em que Cláudia expôs sua nudez foi no filme Os Desafinados, de Walter Lima Jr. Seria o diretor um dos tarados apontados por Pedro Cardoso?
Não creio. Embora Os Desafinados não seja o momento mais inspirado de Lima Jr. (autor do belíssimo A Ostra e O Vento), a nudez de Cláudia não tem nada de gratuita e se impõe como um momento capital do filme. É quando sua personagem se afirma como mulher moderna e independente, antes que a liberdade sexual dos anos 60 fosse uma realidade, e é também uma resposta provocativa a seu par romântico, interpretado por Rodrigo Santoro, que a poderia ter tomado por uma amante (ele é casado com outra) obediente e sem riscos. A mulher dos anos 60 surge em contraponto com a puritana dos 50.
Estranho que uma atriz de carreira consolidada na TV, uma das mais populares do Brasil, pudesse se sentir constrangida ao que quer que fosse, pela chance de um papel num filme.
Há nudez gratuita em filmes? Claro que há, como também há piadas sem graça, diálogos gratuitos, violência gratuita, drama gratuito... Mas não se pode generalizar.
A nudez predominante em Nome Próprio, de Murilo Salles, é toda a transparência da personagem Camila, aspirante a escritora que sente o mundo à flor da pele, com todos os seus defeitos, do mundo e dela. O fato de estar nua não encolhe a personagem; ao contrário, reforça suas idiossincrasias.
Em seu discurso, Pedro Cardoso citou dois filmes de François Truffaut, O Último Metrô e A Mulher do Lado, como exemplos de “narrativa da intimidade de personagens sem haver exposição da intimidade dos atores”. Talvez Pedro não tenha assistido aos seios nus de Catherine Deneuve em A Sereia do Mississipi, do mesmo diretor. Que eu saiba, Deneuve não se revoltou contra a situação; pelo contrário, foi amiga (e musa) de Truffaut até o fim da vida do cineasta. E, por maior que seja minha capacidade de fantasiar, não consigo aproximar Truffaut da idéia de um pornógrafo disfarçado.
Um filme tem a intenção, embora nem sempre, de representar a realidade. Pois bem, o universo adulto de que tratam muitas tramas envolve amor, paixão (entre os temas mais explorados do cinema), sexo, e é natural que a representação de pessoas que se amam, se apaixonam e fazem sexo (afinal, é o que adultos que se querem fazem) inclua beijos intermináveis, diálogos maliciosos, roupas sensuais e personagens que estão nus; o que, dependendo da estética proposta por cada obra, pode ser apresentado de forma mais ou menos explícita.
O Amante de Lady Chatterley, da diretora Pascale Ferran (tarada também?), tem nudez à beça, e a forma natural e delicada como se dá a abordagem da relação entre os amantes é dos momentos mais belos do cinema recente. Basta lembrarmos a cena em que o guarda-caças Parkin coloca flores no corpo de Constance, interpretada por Marina Hands. Considero improvável que Marina tenha se sentido violentada pela nudez exposta no filme.
No também recente Senhores do Crime, de David Cronenberg, foi o próprio ator Viggo Mortensen quem sugeriu que seu personagem estivesse nu em uma cena de luta corporal numa sauna. Poucas vezes, uma luta foi tão física e realista no cinema. Se Viggo tem algum passado vinculado à pornografia, eu desconheço.
Seria ingenuidade imaginar que não existe pressão de produtores e diretores, ávidos por bilheteria ou audiência, principalmente sobre atores e atrizes iniciantes, que têm pouco poder de argumentação e se colocam dispostos a tudo por um lugar ao sol. Em outros casos, cabe ao ator aceitar ou recusar um roteiro em que haja cenas de nudez, dependendo do quanto consegue ou quer se expor em um trabalho, e do que espera das intenções da produção. Natalie Portman, que já negociou a não exposição de sua nudez em Closer, mudou de idéia em outra ocasião, quando apareceu nua no curta Hotel Chevalier, de Wes Anderson. E Natalie Portman é atriz de primeira grandeza no cinema internacional, certamente não foi pressionada a nada. Muito menos por Wes Anderson.
Engraçado que nenhum ator se revolte contra segurar um revólver num filme ou contra a falta de inteligência, aparentemente proposital, predominante na TV aberta do Brasil. Afinal, a garantia da carteira assinada por uma “empresa que explora a comunicação em massa”, como é o caso da emissora de TV em que Pedro Cardoso trabalha, não recomenda que se aponte o dedo contra o baixo nível da dramaturgia rasa e distante da realidade que se vê em horários que já não são nobres.
Mais fácil bater nos cineastas, esses tarados.
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Comentários:
concordo com muita coisa do que você falou, mas o Pedro Cardoso é bem claro quando diz que existem momentos em que a nudez é necessária para a narrativa, tem uma função. O problema, pra ele, é quando ela se torna pornografia disfarçada de arte ou entretenimento. E ele critica a TV também, inclusive (implicitamente, é claro) a Globo.
A entrevista dele no Globo esclarece alguns pontos que tinham ficado um pouco obscuros pra mim também. Não sei se é o seu caso, mas muita gente tem lido apenas as reportagens que fizeram a partir do manifesto (esse termo é ridículo, né?). Vale a pena ler o texto inteiro, no blog, inclusive os trechos que ele deixou de fora.
Acho que ele exagerou, sim, e acabou soando moralista demais. Mas é uma reflexão interessante, não acha?
Um abraço!
Li o texto do "manifesto" na íntegra, e ali vi que o artigo inteiro é contra a nudez no cinema e na TV, chama cineastas de pornógrafos e, de maneira geral, coloca todo mundo no mesmo saco. Ele só comenta de passagem sobre a eventual necessidade da nudez, deixa sempre claro que é contra de maneira generalizada.
Na entrevista, ele pegou mais leve, o que é compreensível diante da repercussão negativa, que incluiu gente como Carlos Reichenbach, Zé Celso, Lucélia Santos, Inácio Araujo... além do próprio Walter Lima Jr.
Acho que, sim, existe exagero e exploração comercial da nudez, como existe da violência, dos melodramas... Porque o cinema depende de bilheteria, e a TV depende de audiência. E isto, sim, merece uma reflexão. Mas daí chamar toda nudez de pornografia... Só as Senhoras de Santana.
Sds.,
Júlio B.G. Santos
Mas equilíbrio é sempre bom. :]
Imagina uma garota de 20 anos de idade com vontade de trabalhar e surge uma proposta. Ela acaba sendo engolida por essa maquina.
Pedro fala que os atores que já tem experiencia, como é o seu caso, devia levantar a bandeira defendendo esses tipos de casos.
Qual são as chances dessa garota de 20 anos falar que não e a cena de sexo ser cortada? Ou no minimo ser feita de uma forma menos "agressiva" e respeitando a vontade da atriz.
Na questão da cena, eu não acho necessário certos tipos de nu. Exemplo: Céu de Sueli.
Existe uma cena em que ela vai fazer sexo com moto taxista. Mostra ela se despindo e as partes genitais(coloque genital no estilo da Revista Sexy e não da Playboy que ai acho que você vai entender em que ponto eu quero chegar). A cena ficaria muito mais bonita se o diretor tivesse fixado a camera depois dela se dispir e tivesse ficado filmando o ventilador. Apenas escutando o barulho do ventilador e dos dois.
A imaginação se encarrega do resto.
O que eu entendi do manifesto do Pedro é o uso desnecessário e apelativo do uso do nu. E como o mercado esta usando isso, e como as pessoas estão aceitando.
Falam que existe uso exagerado de palavrões e outras coisas. Tambem concordo em partes. Uso exagerado acaba estragando o filme
Como tem varias outras coisas desnecessárias como por exemplo o final do filme Good bye dragon inn do Tsai Ming Liang onde a câmera fica parada quase dois minutos sem aparecer absolutamente nada.
Em trinta segundos já dava para entender o que ele estava querendo passar com essa imagem estática.
Acho que devia ser ponderado o que foi escrito pelo Pedro.
Más experiências profissionais de jovens atrizes em começo de carreira, que supostamente são tão ingenuas que tiram a roupa prá conseguir um trabalho ou digamos até se deitariam com roteiristas e diretores para isso...Acho que isso acontece e muito na emissora que o Pedro trabalha, tal o cabedal de atrizes canastronas porém belíssimas que se tornam simplesmente protagonistas do dia para a noite! E algumas coincidentemente foram ou são casadas com diretores de novelas... é só olhar as esposas dos papa-anjos que tem por lá...
Muito oportuno, chamar atenção para esta infantil mania de demonizar certos aspectos (quase sempre moralistas) em detrimento dos verdadeiros absurdos como a violência, e outros baixos instintos estimulados e servidos ao público. Portanto abaixo o MORALISMO SELETIVO.
Espero que o Lindenberg se transforme em um agente de justiça social e faça uma visita no apartamento do Pedro Cardoso entre outros.
E a propósito, quando os pais ou professores derem camisinhas para as crianças de doze anos, vão dizer o que para elas, que é para enfeitar os dedos, ou colocar em bananas? Ora, vamos deixar de querer tapar o sol com a peneira e vamos assumir nosso corpo como ele é, divino, maravilhoso, sem mácula nem pecado, porque o pecado e a sejeira estão na cabeça de quem quer passar idéias conservadoras que tanto trauma criou nas gerações passadas. Criando uma geração de mulheres que nunca souberam o que era um orgasmo. Concluindo, o caminho do meio é o melhor, nem taradões nem enrustidões. Bom senso e responsabilidade.
Engraçado você ter tocado no assunto, pois, por ciúmes, o sr. Pedro Cardoso PROIBIU uma ex-namorada de exercer sua profissão de assistente de câmera.
Quem conhece mínimamente o seu trabalho e a sua história - um cara que veio do Asdrúbal Trouxe o Trombone, por exemplo - jamais afirmaria que ele se coloca contra a nudez, é moralista ou defende a censura, reproduzindo o discurso da grande mídia para desautorizá-lo. Sobre isso, pra não ser repetitivo, faço minhas as palavras do Marcio, Alex, Tiago e Carol.
É no mínimo um contrasenso justificar o excesso de cenas de sexo no áudio-visual e na dramaturgia (me refiro à pornografia mesmo, não ao erotismo tão bem ilustrado nos exemplos do post) com a alegação de que é uma prática comum na vida das pessoas e, ao mesmo tempo, reclamar da violência e da falta de inteligência, que estão tão ou mais presentes na realidade quanto o primeiro.
Em parte, aliás, é essa falta de inteligência, mediocridade, primarismo intelectual, incapacidade de abstração, enfim, essa burrice mesmo, vigentes na tal de pós-modernidade - e a total falta de imaginação - que faz com que uma cena de sexo tenha que ser explícita pra que os boçais possam assimilá-la. Não demora os atores vão ter que se matar literalmente, numa cena de assassinato, pra satisfazê-los.
Evidentemente, é também essa mesma mediocridade e burrice que explica a grande dificuldade que há em se estabelecer um debate público hoje no Brasil, e essa é a intenção do Pedro Cardoso, colocando em jogo, inclusive, a sua posição de ator consagrado: trazer a público uma discussão sobre os conteúdos e o exercício da arte do audio-visual, que produz conceitos e valores que atingem a todos.
Pedindo desculpas pelo comentário tardio, faço a ressalva de que este post, ainda que numa postura crítica - ou até por isso mesmo - mas a meu ver equivocada em parte, traz também uma contribuição importante ao debate.
Programas que veiculam esses valores deturpados: Zorra Total, novelas em geral Pânico na TV, Super Pop, Domingo Legal, Caldeirão do Huck, Tv Fama, E MUITOS OUTROS!
BASTA!
Precisamos, podemos E DEVEMOS denunciar!
O telefone para denúncias de qualquer tipo de baixaria na tv é o 0800-619-619, ou pelo email eticanatv@camara.gov.br!
Vamos fazer nossa parte!Denunciar e passar essa informação adiante!
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex