22.09.08

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Violência Gratuita, de Michael Haneke

violência

Quem acompanha as resenhas de lançamentos do cinema já sabe que Violência Gratuita, de Michael Haneke, é uma refilmagem, quadro a quadro, diálogos se repetindo com exatidão, de um longa do mesmo diretor produzido em 1997. A versão americana traz atores mais conhecidos do público brasileiro, como Naomi Watts, Michael Pitt e Tim Roth, mas segue as opções de enquadramento e montagem do filme original.

Não pretendo aqui me aprofundar em comparações entre as versões ou questionar os motivos que levaram Haneke a esse exercício de reprodução. Vamos ao filme.

Autor de Caché, Professora de Piano e Código Desconhecido (a ordem, aqui, está relacionada ao quanto gosto de cada um), Haneke trabalha com alguns temas que se repetem, como a influência do acaso, o conflito com os valores burgueses e o medo daquele que não conhecemos, o outro. Era assim na ameaça audiovisual de Caché, e é assim na representação demoníaca dos jovens sofisticados de Violência Gratuita; em ambos os casos, há a ameaça do “outro” a uma harmonia que a vida da classe média para cima procura manter.

Nada mais representativo dessa quebra de equilíbrio que a introdução do filme: a família viaja de carro ao som de música clássica, mas o diretor impõe uma ruptura violenta no som, que vai repentinamente dos violinos da composição erudita para uma música gritada, entre o metal e o punk, rascante em seu contraste com a imagem que se vê na tela: o casal troca sorrisos no carro, aparentando a leveza da música anterior, que já foi arrebatada pela desconstrução do barulho pós-industrial.
É como se a fotografia de felicidade fosse desmascarada por uma realidade que pretende, no filme, se impor às aparências, nem que seja pela forma da metalinguagem.

Os dois jovens ultraviolentos, que transformam em pesadelo o que seria um final de semana perfeito, parecem, à primeira vista, herdeiros da delinqüência sem limites de Alex, o já clássico protagonista de Laranja Mecânica. Mas, como Haneke insiste em comunicar, as aparências enganam. Os dois garotos são mais que personagens de uma trama: revelam-se elementos metalingüísticos que repetem a prática lúdica de seu sadismo infantil no diálogo com o espectador. A realidade paralela à da representação cinematográfica entra à força no faz-de-conta de que todos os filmes são feitos, e eis que Haneke assume a posição do que bate naquele outro faz-de-conta, o do idílio burguês. O espectador, como a família violentada, é a parte manipulada num jogo em que não dita as regras. A antítese das práticas interativas que se espalham na TV.

No caso de Violência Gratuita, talvez por reproduzir um filme mais antigo do diretor, a evidência dessa relação entre artista criador e espectador é menos sutil que em Caché, e acaba dando sentido à gratuidade que adjetiva a Violência do título brasileiro.
Mas talvez Haneke esteja apenas resgatando uma das muitas frases geniais de Billy Wilder: “a diferença entre a vida e os roteiros de cinema é que os roteiros fazem sentido”. No exercício de transposição da representação, que é Violência Gratuita, perde o espectador que espera um sentido da realidade que se impõe.

por Alexandre Carvalho dos Santos Deixe seu comentário - Permalink


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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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