08.09.08
Shortbus, de John Cameron Mitchell
Em Shortbus, o sexo na tela é sexo mesmo, explícito, de reais felações, penetrações, mãos que masturbam paus duros de verdade; e todo esse esforço extremo de verossimilhança, no caso deste filme, mais reforça a representação da trama do que serviria para, com o choque do sexo à vista, disfarçar uma eventual fraqueza.
A opção não é gratuita, pois é de sexo que fala o filme; da busca da plenitude sexual, dos desencantos sexuais e de extremos da experiência sexual. Sofia é uma terapeuta sexual de casais que, embora dê conselhos sobre o assunto, nunca chegou ao orgasmo; James é um ex-garoto de programa que prepara um filme de despedida para seu companheiro; Severin é uma dominatrix que nunca teve uma relação amorosa.
As histórias desses personagens se cruzam na Shortbus, uma casa de suingue que é também um cabaré existencialista e um parque de diversões para adultos que são adultos e outros nem tanto. É lá que Sofia busca o auxílio de outros “especialistas” para tratar seu problema, e até mesmo para investigar se o que tem (ou não tem) é mesmo um problema. Ou seria o orgasmo feminino um mito?
Com tais questões, e com a escolha pelo sexo em plena evidência e a opção pelo gênero da comédia, o diretor John Cameron Mitchell teria todas as facilidades à mão para criar uma baixaria sem tamanho. Mas, não. As cenas de orgia ora apresentam diálogos engraçadíssimos, ora são ternas, a um ponto que fica complexo para o puritano mais míope associar o que está acontecendo na tela com o significado mais cruel da palavra perversão.
“Desculpe, é que eu sou pré-orgástica”, confessa Sofia, após esbofetear um de seus pacientes, querendo justificar o rompante violento.
“Quer dizer que você vai ter um orgasmo agora?”, pergunta o moço.
“Não é nada disso. É que eu nunca tive um”, ela explica.
Destaque também para uma heterodoxa interpretação do hino americano, durante um sexo a três.
Ao ler sobre o filme, antes de entrar no cinema, temi que o sexo explícito fosse o começo e o fim do interesse que o longa pudesse gerar. Mas o detalhe, que não é um detalhe, só ilustra de forma poderosa as situações tão humanas, de graça e de autoconhecimento que o filme explora. Shortbus é uma comédia para quem gosta de sexo: de fazer, de falar sobre o assunto e até de rir com ele, por que não?
Mas, claro, os Flávios Cavalcantis vão chiar.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex