02.09.08
Nossa Vida Não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro
Quem tiver um guia da Folha ou do Estado nas mãos poderá constatar: mais de um quarto dos filmes atualmente em cartaz na cidade de São Paulo é do Brasil. Para quem, como eu, testemunhou o deserto de produções nacionais da primeira metade dos anos 90, a constatação parece um milagre. Sim, há muito o que questionar nos critérios da atual política de patrocínio publico do audiovisual, mas, ainda assim, é melhor ver mais de dez filmes brasileiros em cartaz do que nenhum.
Depois do surpreendente Nome Próprio, de Murilo Salles, assisti a três brazucas nas últimas duas semanas: Nossa Vida Não Cabe num Opala, A Encarnação do Demônio e Os Desafinados. Infelizmente, nenhum contribuiu para comemorarmos a fartura nacional nas telas daqui.
Nossa Vida Não Cabe num Opala
Baseado em obra do dramaturgo Mário Bortolotto, o filme de Reinaldo Pinheiro, embora se cubra de referências beatniks, tem ligação maior com o universo de Plínio Marcos e com o cinema da sordidez de Baixio das Bestas. Mas o resultado, aqui, é de um amadorismo tão constrangedor que me levou a imaginar o que teria convencido nomes como Leonardo Medeiros, Marília Pêra (uma breve participação, posso dizer a seu favor) e Jonas Bloch a participar da aventura. Confundem-se aqui os méritos eventuais do cinema de baixo orçamento com a falta de imaginação; e a força que poderia surgir da manipulação de clichês se perde na preferência pelos clichês como muletas da criação: Monk, o personagem de Medeiros, bebe uísque no gargalo em metade do filme, num exagero que poderia servir bem ao teatro, mas que extrapola na caracterização diante da proximidade que a câmera proporciona. E as aparições do pai-fantasma de Paulo César Pereio já foram exploradas a torto e a direito no cinema mais comercial, e feitas de forma mais inventiva.
Exemplo de academicismo na montagem, as seqüências em que os irmãos namoram a personagem de Maria Luísa Mendonça perdem o efeito-surpresa na forma como são apresentadas; ninguém duvida de que a moça receberá a visita do terceiro e fará as mesmas perguntas, os mesmos comentários já ditos aos dois mais velhos.
A ressalva a essa parte é a divertida atuação de Mihem Cortaz, que tem um timing preciso para a comédia. Diferentemente do conjunto da produção que, pretendendo fazer graça, não diverte, querendo chocar, só nos mostra o que já estamos cansados de saber.
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Comentários:
Terror brasileiro à partir do misticismo e crendices nacionais, além de tecnicamente perfeito. Se perde apenas no seus momentos grandilouquentes metido à Jogos Mortais (uma pena).
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* Tem um texto simplorio no meu blog se quiser ler.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex