13.08.08
Nos passos de Clóvis Martins Carvalho
Hoje Clóvis Martins Carvalho faria aniversário se ainda estivesse por aqui, em sua cadeira de balanço: 91 anos – dos quais viveu 77, a maioria sob os mimos de minha avó. Quando morreu, caiu no colo de minha prima Carolina, sem mais nem menos, sem qualquer aviso. Já não era de muita cerimônia.
Inventei de ser jornalista com ele, que incentivava as redações infantis e até premiava, com uns tantos cruzeiros para as figurinhas, meus primeiros jornais, feitos em folhas de caderno e lápis de cor. E se me visse agora, o que pensaria? Seu padrão de exigência era alto, menos para netos pequenos, metidos em lápis de cor e manchetes de cartolinas.
Meu avô foi jornalista, advogado, diretor de escola, delegado da receita federal, fugiu da polícia de Vargas por uns esbarrões no comunismo e foi até amigo de Jânio Quadros, de quem era sincero admirador. Há fotos do ex-presidente, com cara de mamado, brindando com meu avô em algum dos álbuns de casa. Quando tiver paciência de procurar, eu publico.
Um dia no sítio, perto da jaboticabeira que eu gostava de dizer que era minha, me disse que eu não deveria dar demasiada importância ao que os outros acham: “eles pagam suas contas? então que se danem”. Na época em que ouvi, é certo que eu não deveria ter conta nenhuma, com a possível exceção do orçamento previsto para as figurinhas. Mas aquilo ficou na cabeça. Nunca consegui pôr em prática, mas invejo quem consegue, lembrando meu avô.
Uma vez, tal parente surgiu sorridente na repartição pública em que meu avô delegava, com uma garrafa de uísque 12 anos na mão, em caprichada embalagem de presente. O Clóvis não ajudaria a receita a deixar por menos uns impostos cabeludos? Isto, o parente pensou, porque antes do pensamento vir à boca, meu avô avisou, sem se levantar da cadeira, sem mexer o bigode: “suma com isso daqui antes que eu chame a polícia”.
Era um caxias, o Clóvis. Tanto que pediu a aposentadoria quando flagrou colegas das antigas aceitando presentinhos em troca de vistas grossas. Não conseguia acreditar que fossem assim. Não eles, os próximos.
Já perto do fim, me levava a uns passeios guiados pela vizinhança, repetindo os nomes das ruas: Peri, Ramalho Urtigão, Dom Lúcio de Souza, Rua do Arraial... Segurava meu braço com força, a outra mão apegada à bengala, o equilíbrio frágil depois do derrame. Pronunciava sílaba a sílaba: “Ur – ti – gão”. Andava devagar, e eu com ele, pela primeira vez prestando real atenção àquelas placas de ruas, aos significados de seus nomes, às dificuldades das calçadas acidentadas.
Em seu passo trôpego, em desacordo com a velocidade dos anos 90, meu avô não se importava com o que os outros pensavam. Tinha a ética que era seu verdadeiro equilíbrio, era a língua que não gaguejava, o olhar que não desviava. Era o exemplo que deixaria, lembrado agora em seus 91.
* * *
A Carol tem uma vocação estranha para testemunha de morte na família. O parente está rascunhando a lápide, ouvindo de longe os anjos, e eis que, de algum recôndito do mistério, surge a prima para acudir o desmaio derradeiro (derradeiro, esta palavra que só combina com infelicidade).
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Moço, isso aqui é meu!
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Delícia esse seu post e todas as lembranças que me suscitou. Valeu, querido
Foi como reviver ao lado daquele velhinho, meu pai, táo bem desenhado na sua cronica. Saudade muita, obrigada
Ficou lindo esse texto.
Pelo texto e pela bela figura do seu avô.
Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.