07.08.08
Nome Próprio, de Murilo Salles
“Não me perguntem as mesmas coisas que já respondi mil vezes”, ou coisa que o valha, advertia a escritora Clarah Averbuck na página de seu blog reservada à imprensa. Devidamente alertado, fui pesquisar o que andam lhe perguntando antes de bolar a entrevista que faria (fiz) para a revista de cinema Plano B a respeito do filme Nome Próprio, baseado em seu trabalho em livros e blogs. Do que vi, e do que apurei diretamente com ela, ficou a impressão de que a moça se sente desconfortável com a associação do filme à sua obra. Ela faz questão de dizer que Nome Próprio não saiu de sua cabeça, e que se trata de uma adaptação bem livre do que já publicou. O que é verdade, e natural em se tratando de um roteiro adaptado.
Mas o filme é tão bom, que eu entenderia se ela preferisse dar a entender o contrário.
É a vida desregrada de Camila (Leandra Leal) que sustenta todo o enredo, e a verossimilhança da personagem, flertando e se embriagando por conhecidos bares paulistanos (e no Jobi, do Rio), é tanta que você pode tropeçar nela em qualquer boteco roqueiro da Rua Augusta. Camila quer ser Clarah Averbuck, quer renascer do texto na tela, dar às palavras a harmonia que lhe falta na vida, e esta escrita é também a redenção para o tanto que se permite machucar.
Murilo Salles explora ao máximo a força dessa personagem tão real, filmando-a de perto, tornando-a tão humana e desorientada quanto poderia ser. Ele torna fácil se apaixonar pela personagem, mas você logo pensa que seria uma tremenda roubada. Não há digressões aqui, só Camila, e se você a aceita ou rejeita é problema seu.
Seria um risco, concentrar todo o foco nela, expondo seus atos e acompanhando o fluxo de seu pensamento em cada seqüência. Bom para o diretor, e para nós, que a personagem é também o grande momento de Leandra Leal no cinema, dela que já era grande atriz quando ainda menininha, compartilhando fantasias infantis no delicado A Ostra e O Vento.
Talvez o que tenha incomodado Clarah é que, no filme, o que se vê nos textos de Camila, a escrita que invade os espaços da tela, se espalhando por paredes, chão e ar, é bem menos interessante que a trama em si. Para uma escritora, que vê roteiristas colocando palavras na boca de uma personagem que é sua, talvez não seja fácil mesmo.
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Comentários:
Mas estranho e que depois de certo ponto o diretor parece abandonar o estilo e assumir uma livre narração de um blog, e segundo ela, “se não gostou: não lê”. Bom, eu não gostei. A vida de Camila é daquela tipicidade de viver loucamente, como quiser, sem interferência do meio: o tipo de pseudo-único, que hoje é comum, típico ridículo.
Mesmo que haja cenas boas, situações interessantes, essa são elementos disfocais, rotineiros, e assim são apresentados. Embora a idéia seja promissora, o resultado não saiu dos melhores.
Bom, há Leandra Leal. Em certo momento, também está uma inspirada Rosanne Mulholland, mas “Nome Próprio” se deve à Leandra Leal, atriz que vem calçando uma carreira genial, em papéis que prepara cada vez melhor. O roteiro do longa é recheado de frases feitas que você encontra na blogosfera, a estilização boca-suja e os verbetes pretensos únicos, a necessidade pedia á atriz dar força a essas pronuncias de um forma difícil: não parecer calculada e parecer calculada. Dar normalidade aos diálogos, mas deixá-los soar forte como uma marca registrada, robótico. E de fato consegue, é possível ver no próprio trailer do filme, um dos melhores “Merdas” já pronunciado. Leandra Leal ainda esculpe bem os tiques da garota e deixa-a parecer em outro plano, como se Camila tivesse saído da rede para visitar o mundo físico com data marcada para voltar. Momento quebrado apenas em um boa cena: “Não quero te conhecer de verdade, você vai estragar a imagem que eu já criei na minha cabeça”.
Ao fim “Nome Próprio” vai se tornando vazio, culmina na cena final com algo á dizer que é óbvio, mas que assim como faz Camila, adquiri profundidade pseudo.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex