19.05.08
Zélia Gattai e a memória
Descobri o romance memorialista com Zélia Gattai, nos anos 80, quando seu Anarquistas, Graças a Deus ganhou uma sensível versão televisiva, com Ney Latorraca em sua melhor fase na TV. O sucesso da mini-série levou gente como eu ao livro de Zélia, e à informação de que a esposa de Jorge Amado não era apenas datilógrafa do marido, mas uma escritora de texto apaixonante, como houve poucas no Brasil.
A força de seus livros de memórias (escreveu nove) vem da paixão com que viveu a vida e seu relacionamento com o autor de Mar Morto. Quando Jorge Amado morreu, parecia-me que Zélia iria em seguida, como acontecera com Giulietta Masina, quando o cinema perdeu Fellini, e ela, a razão de ser.
Mas Zélia ainda tinha suas histórias para contar, e poderia ter escrito ainda mais, já que manteve ativa sua memória sentimental, mesmo com mais de 90 anos.
Particularmente, gosto mais de seus romances de memórias que da literatura para exportação de Jorge Amado.
O primeiro, Anarquistas..., li ainda pré-adolescente. Preciso voltar à obra, descobrir se o prazer é o mesmo, assim como voltar a Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, outro romance de memórias lido faz tempo e que me impressionou na época. Eu tirava o livro da estante de um escritório no qual trabalhava para uma revista do mercado de capitais, e o lia aos pouquinhos. Era recém-formado e não tinha quase nada para fazer nos longos intervalos entre as semanas de produção da revista. O romance de Rubens Paiva, às vezes, era o único estímulo intelectual de dias de muito tédio. Mas não era só isso.
* * *
O intervalo prolongado nos textos das últimas semanas tem uma desculpa boa: eu curtia férias em Caraíva, na Bahia, onde não tem farmácia, padaria, banco, estresse, e os poucos computadores não me atraíam tanto quanto as espreguiçadeiras em frente ao mar.
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Comentários:
Gostaria de dizer que este texto, sobre a Zélia Gattai, está muito bom! Também gosto de "Anarquistas Graças a Deus"; meu maior sonho é que este seriado seja passado na TV novamente, até mandei um e-mail à TV Globo sugerindo...Ná época que passou, era bem menor, e lembro de algumas cenas. Creio esta ser uma das maiores/melhores produções brasileiras!
E, sem dúvida, o Brasil perde (e muito) com o falecimento desta grande escritora...
Mais uma vez, parabéns pelo texto!
Grato,
Rodrigo O. Rosa (Porto Alegre).
Abraço.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex