27.03.08
Carioca: Quando Chico Buarque nos colocou para dormir
De Chico, não se espera menos que uma obra arrebatadora. E “Ela Faz Cinema”, a primeira de Carioca que chegou às rádios, é um exemplo do que esperar do resto da obra, a primeira do artista pelo selo Biscoito Fino. Falta brilho, empolgação, parece que falta vontade. As canções são delicadas, as letras têm classe; não fariam feio, separadas, em nenhum disco de nenhum bom compositor. Mas o que se deseja de um CD do Chico Buarque é muito mais. E Chico não parece estar nem aí para este muito mais. Canta em choros amenos numa cadência de domingo à tarde, numa tristeza leve e resignada.
O CD começa bem, no chorinho “Subúrbio”, suave como a maioria dos arranjos de Luiz Cláudio Ramos (será que a culpa é dele?), mas sem ser sonolenta. Depois, “Outros Sonhos” motiva os primeiros bocejos.
Os destaques? “Dura na Queda” é a melhor música do CD, com seus sopros poderosos, percussão esperta, sambinha de sair dançando na lama de sapato branco. “Porque Era Ela, Porque Era Eu”, logo em seguida, é um banho de água fria.
É para ser suave, é para ser delicada: só violão, violoncelo e bandoneon. Mas nem Piazzolla salvaria, porque letra não fica bem na música, a canção capenga, e o que ouvimos constrange.
Mas vamos ficar em momentos mais felizes: “As Atrizes” é singela em seus arranjos de corda, no clarinete de um tempo antigo, na letra que, sem grandes invenções, se acomoda à música como à poltrona favorita. “Leve”, parceria com o amigo Carlinhos Vergueiro, tem letra que merecia um arranjo mais malandro, celebração mais entusiasmada. Em As Cidades, trabalho anterior, já há uma canção, “Aquela Mulher”, em que a letra, sacana, pede um samba gingado, mas o arranjo quer ser sensível. A sensibilidade que, quando casada com a letra, chega ao amor perfeito de “Cecília”.
Que Francis Hime ligue logo para o Chico e, juntos, preparem novas feijoadas completas, em quintais de festa onde a gente possa cantar junto, sambar e reconhecer aquele de quem nunca aceitamos um passo atrás.
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Marcos
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex