10.03.08

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Quando Caetano Veloso desbundou

Caetano Veloso 19670001

Após o lirismo regional de seu primeiro disco, Domingo, que dividiu com Gal Costa, Caetano chegou à primeira obra que deu ao Brasil o artista renovador e sincretista que conhecemos. Foi este Caetano Veloso, de 1967, que lançou suas idéias de música antropofágica, absorvendo conceitos de fontes diversas para devolver não uma reprodução mimética, mas uma novidade, um produto pronto para consumo e reflexão.

Com este disco, nascia o Tropicalismo, ou Tropicália, como prefere Caetano, o movimento que conseguiu desagradar à esquerda e à direita numa época em que toda declaração de princípios era primeiro uma afirmação política. Mas a poética elaborada de Caetano, seu talento e seu charme de bom rebelde logo se destacaram, quando os acordes dissonantes já era novidade velha, e não bastavam mais “para cobrir nossas vergonhas, nossa mudez transatlântica”. Logo as vaias dos festivais silenciariam, substituídas pela desilusão do desbunde, a esquerda combativa pela esquerda festiva. Em seu livro biográfico, Verdade Tropical, o músico narra o estranhamento de encontrar, na volta do exílio, platéias “tropicalistas”, ansiosas por mais dos desconcertos criativos que, antes, provocavam chiliques de indignação em um público viciado em redundância.

Não foi por acaso. Em Caetano Veloso, pulamos dos pastiches da Bossa Nova mal copiada e do primarismo das canções de protesto diretamente para o cinema de Godard, para as imagens fragmentadas, multifacetadas das bancas de revista, para os pôsteres da publicidade, a pop art, as prateleiras dos supermercados. Passamos a nos acostumar com letras que misturam João Cabral, Oswald, slogans publicitários, Chacrinha, Cinema Novo e Zé Celso. Era a revolução para a qual não estávamos preparados, e amadurecemos na marra.

Hoje, Caetano se lembra deste primeiro petardo tropicalista como uma obra mal acabada, que, se foi um sucesso conceitual, teve execução pobre. Modéstia (falsa?) do autor de um disco que nos deixou "Superbacana", "Paisagem Útil", "Soy Loco por Ti, América" e "Alegria, Alegria", essa marchinha de parque de diversões assaltada por guitarras psicodélicas, com uma letra inesquecível, pop, filosófica, moderna, incisiva e doce ao mesmo tempo. Uma antevisão de tudo o que de melhor Caetano Veloso viria a compor em sua carreira de esteta da MPB.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

A época de Tropicália foi boa, criativa...

PermalinkPermalink 11.03.08 @ 19:18



Comentário de: Carlos Camacho

Oi Alexandre, gostei de sua prosa...
Estou montando uma revista de cinema e com isso procurando colaboradores. Gostaria de conversar com vc sobre a empreitada. Por favor queira enviar-me seu email para tratarmos com mais propriedade.
Obrigado

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 23:06



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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