04.03.08
De Jim Morrison a Max Roach

Max Roach, aos 70 e tantos, tocando no Hollywood Bowl
Tudo é uma questão de prioridade, ouvi um dia de um amigo, e admito que tinha razão. Quando você coloca uma intenção ou um objetivo no panteão das suas prioridades, tudo se torna mais fácil, pois tal questão permanece na sua cabeça, como piolho em menino de rua. Já abordei assunto semelhante na virada do ano, falando sobre as resoluções de Ano Novo, mas aqui o foco é outro.
Em meu aniversário, na semana passada, o sábio João Alberto Magro, o Bé, estudioso de aguardentes mineiras e apreciador da arte clássica de Carl Perkins, Chuck Berry e Carolina Carvalho, me alertou para um sintoma inequívoco da passagem dos anos: mais do que nossos rostos e nossa disposição para festas dionisíacas, mudam as nossas prioridades.
Houve tempo em que minha prioridade número um era conquistar, por coincidência num mesmo período, meu primeiro emprego e minha primeira namorada da vida adulta. Em outro período, a banda de rock estava à frente de todos os meus outros interesses, ainda que a vocação para banda de garagem contribuísse para que lá ficasse.
Confesso, ainda, uma vontade antiga de me transformar numa cópia mais baixa e menos drogada (não é a minha praia) do Jim Morrison. Ou numa combinação heterodoxa de Jim Morrison, Rimbaud e Zico. Mas, como vontade não é prioridade, esses ídolos logo se livraram de minha malfadada homenagem.
A faculdade já foi prioridade. Comecei estudando cinema na FAAP, até que os anos Collor tornassem a idéia coisa de maluco ou milionário (ainda é um pouco assim no Brasil, apesar da “retomada”), coisa para o Howard Hughes; como eu não era nada disso, apesar de umas tantas fobias, fui estudar outra coisa.
Agora, do alto dos 37 recém-concluídos, esqueci os projetos de câmera e moviola em prol da poltrona no cinema, e uns comentários publicados aqui e ali. Os versos de Rimbaud secaram e concluí que, na música, se tanto vou comprar minha terceira bateria quando tiver uns 50. De Jim Morrison a Max Roach, tocando em sextetos de jazz ou na garagem de casa.
Prioridade agora?
1 - Uma empregada três vezes por semana, para arrumar o que eu só tenho tempo de bagunçar.
2 – Cuidar do que resta do meu corpo (há um mês na academia).
3 – Viajar e me perder.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex