27.02.08

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A gravidez adolescente em Juno, de Jason Reitman

juno2

Juno foi criticado por retratar a naturalidade com que uma adolescente se descobre grávida e decide, descartando a idéia do aborto, doar a criança a um casal que não consegue ter filhos.
O que chocou os americanos, conservadores de pai e mãe: a menina não hesita em sua decisão; seu único pé atrás diz respeito ao casal ideal para a criação de sua filha. E não esconde que a gravidez, para ela, é como uma dor de dente da qual não vê a hora de se livrar. Não a dádiva sagrada por que casais em sintonia de interesses vivem a esperar.
E mais: os pais da adolescente apóiam sua decisão e não dão a entender, em nenhum momento, que a gravidez precoce e a doação da criança são sintomas do fim dos tempos. E não se trata aqui de intelectuais, hippies ou outro tipo de exóticos automaticamente rejeitados pelo ianque médio. Os pais (na verdade, o pai e a madrasta) são americanos típicos da classe média: ele, ex-militar, vira-se com um negócio de aquecimento e ar-condicionado, ela, esteticista, ou menos.

Mas é a Juno de Ellen Page que mais apresenta contrapontos com o senso comum. Em suas decisões, suas escolhas, é sempre a mais madura do filme. Incluindo aí o casal de “pais perfeitos” que ficará com a criança.
Sua maturidade não esconde quem ela é, e o grande trunfo do filme é demonstrar que não precisa haver uma contradição aqui. Juno não é uma adulta fantasiada com camisetas de banda e tênis sujos. Ela é adolescente em tudo: em suas relações, no que come e no que diz. Mas bate de frente com o estereótipo com que a cultura popular gosta de pintar seus personagens entre os treze e os dezenove anos, pois é inteligente, sagaz, decidida.
E a gravidez indesejada? Isto, meu caro, nunca foi descuido exclusivo de gente com espinhas na ponta do nariz.

A maturidade é a questão do filme. Enquanto a menina Juno reconhece que uma balzaquiana rica e careta, em tudo tão diferente dela, tem o perfil para ser a mãe ideal para seu filho, o futuro pai engole a idéia de adotar a criança quando, na verdade, sente-se acuado no casamento, pois não se identifica com o estilo de vida da esposa. Encolhe seus gostos em um quarto pequeno na mansão em que reside, e só ali pode curtir a música, as revistas, a vida jovem da qual ainda não se desprendeu. Rejeita envelhecer, pois o que vê de adulto ao redor é clássico demais, “wasp” demais para um fã de filmes de terror e Sonic Youth.

juno

Jason Reitman, diretor do interessante Obrigado Por Fumar, deu um passo e tanto, com Juno, na direção de se tornar um cineasta importante. Seu filme, embora toque num tema tabu, não deixa de ser delicado, cheio de nuances e tem uma cena final de encher os olhos.

Merecia mais no Oscar.

por Alexandre Carvalho dos Santos 7 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Inagaki · http://www.pensarenlouquece.com

Excelente análise, Palestra. Sobre o Oscar, achei que o J.K.Simmons, que está soberbo no papel do pai da Juno, fez por merecer uma indicação. Mas o ano teve concorrentes fortes e as injustiças de praxe. Menos mal que, ao contrário de certas safras que desembocaram em prêmios para filmecos como "Gladiador", "Crash" e "Uma Mente Brilhante", ao menos em 2008 vimos trabalhos decentes e diretores sólidos como or irmãos Coen sendo premiados.

PermalinkPermalink 27.02.08 @ 19:45



Comentário de: Eli Mafra · http://www.mafrinha.blogspot.com

Adorei sua crítica, vou começar a freqüentar seu blog. Também fiz uma crítica do Juno no meu blog, dá uma olhada lá.

PermalinkPermalink 27.02.08 @ 21:58



Comentário de: Marcos Falcon

Então o negócio é os casais estarem em sintonia de interesses.
Espero que vocês estejam sintonizados.
Hoje é uma ótima data para rever e fazer novos planos.
Abraços e ffelicidades
Marcos Falcon

PermalinkPermalink 28.02.08 @ 15:31



Comentário de: Daniela · http://trecosetrapos.org/weblog

Muito boa a sua resenha. Eu realmente achei este filme muito bom. Diferente daqueles em que temas tabus são abordados de forma a julgar determinados comportamentos (embora muitos tenham uma qualidade inegável e agradem meu gosto pessoal).

PermalinkPermalink 29.02.08 @ 11:23



Comentário de: Marcella Centofanti · http://www.blogdeviagem.globolog.com.br

... e o Alexandre que conheco? Nao tive certeza na foto cortada. Otima resenha. Dpois de um ano fora do planeta Terra, e bom saber o que acontece nas telas.

PermalinkPermalink 02.03.08 @ 09:25



Comentário de: Márjory /Sarah/ Matheus

O filme Juno chama a atenção das pessoas para um fato que tem acontecido com as garotas de hoje em dia, por descuido ou falta de informação, e elas não tem ajuda de ninguém . Nesse filme os pais apoiam a decissão da filha.

PermalinkPermalink 03.11.09 @ 22:56



Comentário de: Taldi

mtttttttto bom este siite fiz um trabalho sobre juno

PermalinkPermalink 04.07.10 @ 18:38



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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