21.02.08

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Entre o temporal e o sol de Camus

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Do meu apartamento, em andar alto no centro de São Paulo, nunca sei direito o que o dia me reserva. Dá para saber se chove ou faz sol, os cubículos do Copan em frente se protegem como podem com seus arremedos de cortinas; mas a sensação térmica dentro de casa é sempre amena, enquanto lá embaixo venta frio ou morremos de calor. Eu saio sempre na ilusão de um dia ameno, repetindo o apartamento, e às vezes me dou conta do engano logo à porta do elevador.

É dia de sol, estamos no verão e eu imagino que deva ser assim. Mas a experiência recente já me dá a entender que, no período de uma hora entre a casa e o trabalho, o clima pode mudar até quatro vezes. Do sol amplo, cegante, à Camus, ao temporal, às enxurradas. E de novo o sol, até que volte a chover quando o meu ponto chegar.

Mas é bom ver as manhãs de sol, e hoje peguei um fretado, promessa de conforto e sossego: pouca gente, ar condicionado, menos solavancos.

Abro Vidas Secas, e cada página desmente a suposição de que a literatura seja uma arte só. Graciliano pinta de cinza e ocre a aridez daquela família nômade, porém enraizada ao chão rachado; teatraliza seus personagens, brutalizando-os, transfigurando-os, com recursos do cinema, em bichos. Bichos do mato, penso em dizer, mas que mato? Só gravetos e preás naquele chão, dia de sorte quando há preás. E há a música dos grunhidos do sertanejo, dos passos da cadela Baleia, da pequena fogueira, dos roncos dos estômagos.

Ar condicionado, sol lá fora e conforto no encosto. E Vidas Secas, que não lia desde os 16, quando de verdade não lia como leio agora. É toda a sorte que descubro de repente, com pena do Fabiano de Graciliano, de sorte tão diferente.

Até que um sujeito, outro indo para o trabalho, descobre que seu telefone celular, objeto prata ofuscante, tem um rádio que toca em viva voz. Para ele e para nós.
E começa uma repetição de teclados sintetizados com ex-caipiras ao microfone, uma dor-de-cotovelo chorosa sobre um forró pasteurizado, tudo em volume impossível de ignorar.
Olho ao redor se alguém se revolta, se alguém lamenta como eu, mas ninguém trai um incômodo. Todos pensam na vida e, para alguns, aquele ruído faz parte do cotidiano, é familiar como um doce de vó.

As páginas já não me envolvem mais, o sol começa a queimar o pescoço no lado direito, o ar condicionado invoca minha rinite, a alergia que tenho do pó no ar, das mudanças do tempo, dos pêlos de gato, das conversas que não me interessam e de sujeitos, outros, que ao meu lado resolvem ligar seus rádios de maus gostos.

Quando abro a porta do elevador, quando olho para o céu ou escolho o lugar mais solitário do ônibus, ainda que seja um fretado, pouco tenho de discernimento sobre o que o dia me reserva. Às vezes é uma música, um teclado vagabundo que me espera. Às vezes, não precisa muito para pôr tudo a perder.

por Alexandre Carvalho dos Santos 5 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Anny · http://anny-linhaozzy.blogspot.com/

Sempre tive vontade de comentar no seu blog, por causa do nome. Hoje resolvi ver o que tem por aqui. Gostei. Muito bom. Escreve muito bem. Parabéns!

PermalinkPermalink 21.02.08 @ 18:12



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Vidas Secas trata a seca de maneira ímpar!

Odeio essas pessoas sem noção que acham que seu ouvido é pinico!

Menino... morava perto de você, na Duque de Caxias com a São João... mas me mudei rapidinho, não suportei o barulho infernal e a feiura em que o centro velho (outrora belíssimo) se transformou.

PermalinkPermalink 21.02.08 @ 18:39



Comentário de: Marcos Falcon · http://blogdofalcon.blogspot.com

A vida é como “pasteizinhos chineses” você dá uma mordida e retira a mensagem.
Nunca li uma mensagem que não fosse positiva.
Não importa se o pastelzinho está crocante ou não, com pouca ou muita gordura. O bom é curtir a mensagem que vem escrita. Tenha ou ótimo dia, com frio ou com calor, com Tom ou Zeca, pois tudo é como a casca do pastelzinho, o que importa é viver o dia.
Marcos Falcon

PermalinkPermalink 22.02.08 @ 15:06



Comentário de: Anny · http://anny-linhaozzy.blogspot.com

Oi Alexandre:
Vou comentar de novo. Custei a achar seu comentário.
Como não comentou no blog,o EX mandou seu e-mail para ser excluido. Só agora que lembrei de olhar e coloquei na cx de entrada e aqui estou eu comentado de novo.Rs! Então, obrigada pela visita.
Agora comentando seu post. Moro no decimo segundo andar e acontece o mesmo comigo. Nunca acerto o tempo. Achei interessante isto acontecer com também com você. Agora chega. Estou escrevendo demais...

PermalinkPermalink 22.02.08 @ 19:33



Comentário de: Gustavo · http://www.cineasta81.blogspot.com

Dizem que aqui em Brasília vivemos as 4 estações em um só dia.

Sobre São Paulo, assista esse curta que eu fiz sobre ~uma impressão que tive durante a minha morada na cidade. Acho que São Paulo é ao mesmo tempo fascinante e aterradora.
ABSORTOS
http://www.youtube.com/watch?v=D-rYudiwhhw

PermalinkPermalink 23.02.08 @ 14:12



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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