07.02.08
Ressaca de Carnaval
Sabe por que deram o nome de quarta-feira de cinzas para a data de encerramento do Carnaval? Porque é o dia em que você está só o pó.
Esse gosto na boca não é o de cabo de guarda-chuva. Experimentei e percebi que a peça não tem gosto nenhum, algo semelhante ao chuchu (e nossas mães teimam em nos convencer a comer a coisa com o argumento de que “não é ruim, não tem gosto de nada”; como se algo que não tem gosto de nada pudesse ser bom). Esse gosto do dia seguinte é um azedo de uma combinação fermentada demais, com periódicos refluxos de cerveja choca, uísque ruim, acarajé espumando óleo, e tudo mais que, na noite anterior, parecia irresistível, e agora só provoca a firme decisão de nunca mais beber.
Sabe o que é bom no dia seguinte? Nada. Pois nada parece bom no dia da ressaca. Seu time goleia o rival mais encardido, e você apenas sorri amarelo. Alguém lhe oferece o emprego dos sonhos, e você deixa para analisar no dia seguinte. Sua avó resolve preparar sua receita preferida, e você não quer nem ver; você não quer saber de comer nada.
Faz sol, mas seria melhor que estivesse nublado, com uma garoa fina. São Paulo tem domingos e quartas-feiras de cinzas justamente apropriados para as ressacas mais intoleráveis.
Mas um carinho ajuda. Ficar na cama o dia inteiro, recebendo carinho e massagem, passando os olhos pelo jornal de vez em quando, torna o dia da ressaca mais aceitável.
Não veja e-mails e desligue os telefones. Você não quer ninguém lembrando-o das coisas que você disse ou fez, e de que você lembra um pouquinho, mas prefere deixar num canto escuro da memória. A camiseta cheira cigarro e perfume, e fumaça de churrasco, e você a afunda no fundo mais fundo da pilha de roupas sujas, junto com o arrependimento.
Passe o dia na cama, peça carinho, massagem e uma água de coco. Parece que não, mas passa.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex