04.02.08
O filme e as circunstâncias
Em um dos pequenos e admiráveis textos de seu Banquete com Os Deuses, Luís Fernando Veríssimo nos conta que tem medo de reler O Apanhador no Campo de Centeio, um de seus livros de formação. Receia que o homem maduro que é hoje, já mergulhado nos abismos da vida adulta, não enxergue tudo o que ele viu, menino, nas páginas de Salinger. Por isso, quer preservar as sensações que teve e guardou desde a leitura da obra, tomando a difícil decisão de não voltar a ela.
Assistir a um filme também envolve “timing”, ter a sorte de estar diante da obra no momento em que se está preparado para absorvê-la, entusiasmar-se com suas discussões e opções estéticas, identificar-se com os personagens.
Criança, não perdia uma sessão na tv de um de meus filmes preferidos na época: A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski. Assistia com minha irmã, os dois arrepiados com uma mistura de medo e empolgação, riso e tensão. O tema era atraente, a ambientação gótica da dança era atraente, o corcunda, com seu machado, face e corpo desfigurados, prendia a respiração, e Sharon Tate... ah, Sharon Tate... assim como o personagem de Polanski no filme, eu queria protegê-la do mal supremo, tirá-la daquele inferno branco de neve e dentes pontiagudos, ser seu anjo da guarda para sempre.
Revi o filme em DVD, buscando todas aquelas emoções da infância, a angústia, a expectativa, o riso solto, mas elas não estavam mais lá.
O medo, como era de se esperar, ficou na meninice, porque nem era intenção do filme assustar. O riso se tornou contido, e pouco sobrou da tensão de então.
O que se manteve foi a inteligência do roteiro, os trejeitos de desenho animado da dupla protagonista, e Sharon Tate, que continua sendo a criatura de sonho que descobri na época. Dessa vez, tive ímpetos de procurar o velhinho Charles Manson dentro de sua cela perpétua e enfiar uma estaca pontiaguda em seu coração; a verdade é que fui uma negação como anjo da guarda da atriz, um Van Helsing de araque.
Apagões
A impressão causada pelo filme também é influenciada por circunstâncias como a sua predisposição no dia. Você corre o risco de gostar ou desgostar pelos motivos errados.
Há gente, como meu amigo Sérgio Alpendre, que passa a madrugada assistindo a filmes em DVD. Isso funciona para pessoas que, como ele, o Caetano ou o Jô, têm horários que não combinam com bater cartão. Mas para o ser humano que desperta às sete da matina para o cotidiano, assistir a um filme depois da meia-noite pode ser tempo perdido.
Como acompanhar as reviravoltas na trama de Má Educação, do Almodóvar, quando a sua poltrona favorita está provocando apagões de cinco minutos a cada meia-hora? Até determinado momento, o Gael é um travesti com um passado que incrimina a igreja, mas, quando você abre os olhos de novo, descobre surpreso que ele é na verdade o irmão do travesti. Mas não era ele?
Filmes iranianos ou vietnamitas ou coreanos, ou qualquer filme do Angelopoulos tampouco combinam com uma pessoa com sono. Ou combinam demais, dependendo da intenção.
Se beber, não assista
Pode não ser uma regra para todos e depende da quantidade ingerida antes do filme. Duas taças de vinho podem despertar a sensibilidade do espectador, aguçar sua análise do que vê, deixá-lo à flor da pele. Mas três taças podem significar um aperitivo para uns e uma tonteira para outros.
Já combinar um cinema com a namorada para depois da happy-hour está fora de cogitação. Se for uma comédia escrachada, quem sabe? Mas encarar um David Linch sob os efeitos de uma bebedeira vai embaralhar ainda mais aquilo que já é, por si, embaralhado no labirinto de informações do diretor. Ou você vai entender tudo de uma tacada só. Pode ser algo a se tentar.
Tenho dois amigos que tiveram a insensatez de assistir a O Leopardo, do Visconti, após uma seqüência de garrafas vazias, muitas, em um bar da Augusta. Ver Burt Lancaster dublado fazia rir, as idas ao banheiro atrapalhavam o acompanhamento da história, o clássico se tornava enfadonho. Lá pelas tantas, tiveram a idéia de assistir ao resto do filme do bar (estavam no Cinesesc, onde há um bar em que se pode assistir ao filme enquanto se discute neo-realismo com o garçom), mas não demorou muito para que chegassem à única decisão lúcida daquela tarde bêbada: voltar para a rua. O clássico ficou para outro dia.
Desassossego
Estados de espírito também influenciam na apreciação. O amor da sua vida pediu o divórcio, seu trabalho é uma seqüência de sapos engolidos e desculpas mal-elaboradas, sua obra de cabeceira é O Livro do Desassossego? Você vai descobrir significados em Farrapo Humano, As Horas e em As Virgens Suicidas que passariam despercebidos em outras circunstâncias.
Por outro lado, há dias em que se está mais sensível: é primavera e você cuida do jardim, quase chora com as notícias dos jornais, repara em como a bolsa da sua prima está combinando com o sapato dela... E é aí que filmes como As Pontes de Madison, que é “top five” de nove entre dez mulheres que conheço, conquistam para a vida toda. “Por que viver essa rotina tão cantada pelo Chico Buarque quando poderíamos nos soltar numa montanha-russa de emoções, correr com os lobos, fugir para a Europa e namorar um fotógrafo que seja a cara do Clint, vinte anos mais novo?”
O maldito barulho dos sacos de pipoca
E há, é claro, a própria sala de cinema, em que cada detalhe pode empolgá-lo ou incomodá-lo até que a coisa menos importante para você, naquelas duas horas, seja o filme. Se você não está confortável na poltrona, como prestar atenção a roteiro, argumento ou direção de arte?
Você entra numa sala com poltronas de ônibus-leito, com som de última geração “by George Lucas”, para assistir a uma das bobagens com Adam Sandler, e pensa, “puxa, tem seus méritos”. Depois decide ver Quanto Mais Quente Melhor numa sala com pouco espaço entre as fileiras, em que três adolescentes conversam alto atrás de você, e uma delas pensa que o seu encosto de poltrona é o painel do carro do papai - ou seja, serve para pôr os pés. Como se concentrar? Chega uma hora em que não é mais possível diferenciar a Marilyn Monroe do Tony Curtis vestido de mulher.
A hora e a vez
É claro que ninguém fica esperando pela situação ideal para ir ao cinema, e nem é possível prever que, bem no dia escolhido, o ar-condicionado da sala estará desligado ou que você terá a bendita companhia de uma excursão de colegiais. Mas, sendo razoável e sem neurose, é possível evitar circunstâncias que atrapalham. Cinema de shopping, a maioria, tem legiões de fregueses barulhentos e conversadores. Ver filme tarde da noite é para quem pode. E, depois daquela terceira saideira no bar, peça a conta, chame um táxi e vá para casa, sonhar com a Sharon Tate.
Quanto ao “timing”, agradeça aos céus se tiver a sorte de se ver diante de um filme que o pegue na idade certa, no momento certo, na hora em que a obra parece falar diretamente a você, pois está descrito pelos búzios que aquele dia será o dia em que você verá o filme da sua vida. Ou uma de suas obras da vida inteira. Como aconteceu com Veríssimo e o apanhador, o sentinela do abismo. Como tanto acontece com os que, como nós, procuram as estrelas mais brilhantes no retângulo iluminado de uma sala escura.
* * *
As ilustrações são do PC, desenhista e amigo de longa data. Ah, e certificador de qualidade de petiscos da baixa gastronomia.
Meu primeiro texto longo para a Paisà, de uns dois anos e meio atrás.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.