01.02.08
O pecado mortal dos fumantes
Almocei esses dias com o jornalista Bob Sharp, experiente colunista da revista Quatro Rodas e que também escreve na internet. Bob é um ótimo papo, cheio de histórias para contar. Disse que houve tempo em que as pessoas precisavam usar gravata no exame da auto-escola, e que, por isso, havia espertinhos alugando gravatas nas imediações dos locais das provas. Uma faceta que eu desconhecia do jeitinho brasileiro relacionado à licença para dirigir. Mas o assunto principal do almoço era outro: segurança no trânsito.
Falávamos de como o uso do celular e o ato de fumar ao volante podem provocar acidentes. Distração era o tema, e Bob lembrou lucidamente que celular e cigarro são marcados como vilões, enquanto o motorista pode se distrair com qualquer coisa, e com isso provocar um acidente: ao mexer no rádio do carro (eu mesmo já provoquei uma batida ridícula por esse motivo), ao reparar na moça que passa, ao procurar um endereço, olhando para as placas, ao conversar com a pessoa do lado, ao pensar na vida.
Na opinião de Bob, o acidente por distração se relaciona muito mais com o poder de concentração de cada um, que é variável. Um cara que mantém o foco no trânsito pode falar dez minutos ao celular e não entrar numa situação de risco, enquanto uma pessoa desligada, que esteja com a cabeça nas contas do fim do mês, pode ser uma bomba ambulante no trânsito.
Pelo que entendi, Bob é contra a proibição de celular e cigarros dentro do carro. E contra outras proibições. “Desse jeito, o carro vai virar uma cela”, ele reclamava.
Este tipo de preocupação parece típico em jornalistas especializados em automóveis e apaixonados por isso, que associam o ato de dirigir a uma sensação de prazer, a uma forma de desfrutar a vida.
No final do almoço, Bob perguntou ao garçom se aquela era uma área em que fumar era permitido e, com a afirmação positiva, acendeu um cigarro, parecendo tirar disso grande prazer. Bob Sharp me deu a impressão de um sujeito que gosta da vida, e que gostaria de preservar os diversos gostos que o levam a pensar assim.
* * *
“Há poucas coisas que me dêem tanto prazer quanto fumar um cigarro junto com o café depois do almoço”, me disse certa vez um amigo fumante. Eu nunca tirei a prova porque não fumo, nunca fumei. Mas dava para perceber que ele realmente curtia a coisa. Nesses momentos, tenho inveja dos fumantes. Mas só aí. De resto, começo a ter pena.
Não porque tenham muito mais chances de desenvolver algum tipo de câncer, tenham pouco fôlego ou fiquem com os dentes amarelados e frágeis. Com o tanto de informação que temos a respeito hoje em dia, o fumante sabe no que está se metendo. Sabe que o cigarro vicia e sabe dos riscos à saúde.
Começo a ter pena porque o fumante é o principal perseguido de uma campanha limpinha, politicamente correta e anti-hedonista que agora está chegando a um ponto que afronta o senso de quem não é desses tempos puritanos. A necessária e louvável iniciativa de se proibir a publicidade do cigarro e a venda a menores de idade tem sido seguida por proibições outras que estão castrando sem dó fumantes de diversas partes do mundo. Eu jamais sonharia que um país de tradição boêmia como a França proibiria, como proibiu, fumar nos bares, cafés e casas noturnas. Nos cafés...
Por lá, abriram uma única exceção para quem deseja fumar em lugares públicos. Bares e restaurantes podem construir “fumódromos”, claustros separados da gente de bem, que não poderão ultrapassar 35 metros quadrados. Após a saída do último fumante, o empregado responsável pela limpeza terá de esperar uma hora, por precaução, antes de entrar no local. E com máscaras de oxigênio, e só após ter assinado uma declaração de doação de órgãos caso venha a morrer, vítima dos efeitos terríveis dos resíduos de fumaça. O pulmão não prestará, melhor doar os olhos.
Confesso: as máscaras de oxigênio e o que vem depois é fantasia minha. Por enquanto. Mas as precauções para limpeza são de verdade.
Descobriram também que a execução da lei-seca (“o fim da happy-hour”) diminui os índices de assassinatos em bairros violentos. Acrescento que a redução de seres humanos em tais bairros igualmente reduziria assassinatos, atropelamentos e porres. Logo, logo, um gênio terá a idéia também de proibir o consumo de bebidas alcoólicas. Já tenho lido por aí que “não há como beber com moderação”, “a bebida destrói o indivíduo e a família”, e outras constatações geniais.
Bom mesmo será o dia em que ficaremos trancados dentro de casa, de um hospital ou de uma academia de ginástica (melhor fazer a ginástica em casa; atravessar a rua implica uma série terrível de riscos), imunes ao cigarro, ao vinho, ao chocolate, à carne vermelha, aos inúmeros danos que a paixão nos provoca e ao resfriado.
E engoliremos, religiosamente, nossos prozacs desenvolvidos com o intuito difícil de nos fazer gostar da vida.
* * *
Meu pai deixou de entrar em shopping center quando se proibiu o fumo em seus corredores. E um amigo meu, com quem tenho o costume de debater livros, discos e filmes (quando deixamos o debate sobre niilismo de lado), confessou-me outro dia que não vai mais ao cinema porque o angustia a perspectiva de duas horas ou tanto impedido de fumar. Não que ele não fique duas horas sem fumar; de certa forma, até fuma pouco. É a proibição que o aflige.
Triste restrição para o amigo, mas meu pai saiu no lucro. Tinha a desculpa perfeita para evitar vésperas de vésperas de Natal no shopping.
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Não fumo, e tenho rinite alérgica. O que significa que, se alguém fumar perto de mim, eu vou passar vários dias e noites se dormir, tomando anti-estamínicos (que deixam a pessoa com muito sono) e sem sentir o gosto ou cheiro de qualquer coisa.
Pessoalmente, vivo muito melhor depois que essa lei anti-tabaco foi colocada em prática. E sim, eu sou daquele tipo de chata que quando a pessoa não se toca, peço para apagar o cigarro em locais de comida e bebida. Porque além de prezar pela minha saúde, eu gosto de apreciar o gosto das coisas que como e bebo. E fumaça, definitivamente, não é gostosa.
Defendo sim, que todos tenham o direito de entupir seus pulmões, veias, artérias, estômagos e cérebros com o que bem entenderem. Desde que, para isso, outras pessoas que não estão a fim do mesmo barato não sejam prejudicadas.
Fumar perto de pessoas que não fumam é como ir a um restaurante de frutos do mar com uma pessoa que tem alergia a camarões. Uma vez lá, enquanto ela se delicia com seu filé de peixe frito - ou com uma boa moqueca de badejo, já que sou capixaba - você se concentra em enfiar camarões à paulista goela (dela) abaixo.
Além disso, ficar algumas poucas horas sem fumar não vai matar ninguém. Pelo contrário.
abs,
Elaine
Também tenho rinite, a fumaça dos outros não me incomoda tanto quanto a você, mas concordo com tudo que você disse.
Principalmente quanto ao direito dos fumantes fumarem.
Obrigado pela visita.
Alexandre.
Irônico é o anúncio do google que aparece neste post: site de Namoro Evangélico. Vivemos tempos mais conservadores do que uma ou duas gerações atrás podiam imaginar.
Parabéns, caro não-fumante, pelo seu artigo, pois ele traz excelentes argumentos para mostrar o outro ponto de vista: o de quem fuma. O da minoria não-saudável e nem um pouco politicamente correta, excluída dos ambientes, enquadrada na lei, e num preconceito crescente, pois, quanto mais o escancara, mais politicamente correto se sente o preconceituoso.
Comecei a fumar aos doze anos, época em que fumar era moda (tenho 46). Não deveria ter começado, nem o aconselho a ninguém. Mas, sequer, penso em parar. Bom demais! Um pouco diferente de um dos grandes prazeres do seu amigo, o meu, é o cigarro acompanhado de uma Coca-cola bem gelada. Inenarrável! Ah, e a Zero não serve, tem que ser a normal mesmo.
Não apenas não suporto ficar a sessão inteira de um filme, sem fumar, como também não conseguia rezar, por uma hora inteira, sem fazê-lo. Explico: quando freqüentei o catolicismo, saia na hora da comunhão, para fumar. Um dos momentos mais sagrados da celebração. Sou divorciada. Era proibido comungar; logo, permitido fumar.
Seu amigo e eu viemos de um tempo em que, repito, fumar era moda. E nós, crianças, querendo ser gente grande. Agora, ao sairmos do túnel, com cigarros acesos, nos deparamos com cartazes de "procura-se". Fumar é uma proibição que nos torna pecaminosos, podendo nos tornar infratores, quase criminosos, uma vez que há leis que não devemos infringir. Se bebo socialmente, perfeito. Porém, se fumo, socialmente não posso.
Há dois shoppings na cidade onde moro, que possuem fumódromos. Minúsculos. Um deles parece uma cela, deprimente. Num imenso shopping de uma metrópole que visitei, recentemente, não os havia, nem mesmo minúsculo. E ele faz parte de uma rede nacional. Após longa caminhada pelos corredores, saí para fumar ao ar livre. Deparei-me com uma moça a abanar o nariz com as mãos e a fazer caretas. Pura provocação! Ignorei.
Respeito o direito dos fumantes passivos a deixarem de sê-lo. Acho mesmo necessário. Mas gostaria de ver respeitado o meu direito de fumar, sem ser incomodada ou ultrajada. Sou pela instalação de fumódromos nos shoppings, restaurantes, salas de embarque, enfim, lugares onde o fumante possa ter que permanecer por um longo tempo (recentemente, num hospital, senti muita falta de um local reservado para fumar, porém, não sem alguma insistência, me foi permitido fumar no pátio dos fundos). Nos bares e lanchonetes onde não haja ala interna apropriada, colocação de mesas e cadeiras na área externa, dando-se a preferência delas aos fumantes.
Uma vez respeitado o não-fumante, é necessário que ele respeite o fumante. E compreenda que, se o fumante optou por uma vida mais prazerosa, embora, provavelmente, menos saudável ou mais breve, isso, pelo menos no meu caso, nada tem a ver com suicídio. É uma opção pessoal pelo prazer de fumar, que requer um preço. E respeito.
Abraço,
Graça.
Sou ex fumante, quando eu fumava as pessoas implicavam porque eu fumava.Depois me enchiam o saco porque eu tomava refrigerante,até que passei a tomar light para não engordar , porque começaram a me encher porque estava engordando.Acho que cada um deveria cuidar da própria vida.Tudo faz mal principalmente cuidar da vida dos outros.
E e consewrvar o MEIO AMBIENTE.PROJETO:
TOME UMA ATITUDE
PARE DE FUMAR
GANHE SUADE E BELEZA
Faça com que o escapamento de um caminhão não tenha vergona do seu pulmão.
Evite a síndrome da abstinência.
COMECE A FUMAR SOMENTE NOS SEGUINTES HORÁRIOS:
MÊS HORÁRIO
1º MÊS 8,00
2º MÊS 9,00
3º MÊS 10,00
4º MÊS 11,00
5º MÊS 13,00
6º MÊS 14,00
7º MÊS 15,00
8º MÊS 16,00
9º MÊS 17,00
10º MÊS 18,00
11º MÊS 19,00
12º MÊS PARE DE FUMAR
TOME ÁGUA EM ABUNDÂNCIA, COMA FRUTAS E ALIMENTAÇÃO NORMAL
Repita sempre esta frase diariamente: "EU NÃO FUMO!".
Para isso existe uma equipe especializada no Incor, para quem não consegue parar de jeito nenhum, as pessoas de tanto tentar e não conseguir acabam ficando com baixa estima entre outras coisas e acabam desistindo
E ai você me pergunta como ficam os cinemas, shopings, bares, restaurantes, etc. Simples, fica a critério do dono, ou seja, submetido a melhor de todas as leis, a do mercado. O dono vai decidir se enquadra seu negócio entre aqueles onde é permitido fumar ou entre os onde não é permitido fumar, pode haver um terceiro que é aquele, como hoje, onde os fumantes terão seu reservado. Caberá aqui ao consumidor escolher onde prefere ir. Eu particularmente freqüentaria os locais onde não seja permitido o ato de fumar.
Já fui mais crítico e enquadrava todos os jovens fumantes, aqueles que iniciaram no vício quando já possuíam todas as informações sobre o mal que ele causa, de Idiotas. Hoje sou mais tolerante e respeito a opção de cada um. A gente aprende com o tempo.
Bem aventurado os Idiotas fumantes, pois deles será o Reino dos Céus “mais cedo”
Graça, também sou a favor da divisão, por áreas, nos estabelecimentos em que isto é possível. Nos restaurantes, por exemplo. Eu não sou fumante e não me importo de me sentar junto aos que fumam. Há os que se importam, e pronto, todos têm a opção de ficar onde se sentem mais confortáveis. Na Europa, já não é assim.
Yu, difícil mesmo é ver as pessoas perdendo o vício de acharem que só elas estão certas o tempo inteiro sobre o que é melhor para cada um.
"Eu": falou tudo: o problema é a falta de educação.
Valdemir, obrigado pelas dicas.
Marcos, gostei muito da sua observação sobre "as leis de mercado". Concordo com esta opinião, e logo escreverei um texto específico sobre isso, partindo de uma lei que estão tentando aprovar em São Paulo, sobre uma obrigatória gratuidade nos estacionamentos de shopping.
A todos, meu agradecimento pela atenção e a gentileza dos comentários.

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.