29.01.08
O melhor frango à passarinho da Rua Augusta

O desenhista PC no BH Lanches,
diante de farto material de pesquisa
Essencialmente voltada para o comércio de bens materiais durante o dia e para o comércio da carne à noite, pelo menos no lado do centro, a Augusta, em São Paulo, também é uma rua de cinemas, pois abriga algumas das principais salas de São Paulo no espaço de alguns quarteirões. E é nas proximidades do Espaço Unibanco que um conjunto desconexo de pequenos botecos simples, todos de esquina, foi eleito por cinéfilos, estudantes, gente jovem e nem tanto como base de apoio e convivência para quem já foi ou ainda vai ver um filme na região. No Monarca, no BH Lanches, no Charm e no Ibotirama, se não há muito conforto, se os ambientes são apertados, esfumaçados, e há sempre uma reforma barulhenta na calçada, há o que todo fã de um sujinho espera desses estabelecimentos: cerveja gelada, preços camaradas, sorrisos na mesa ao lado e, claro, petiscos de boteco.
Assíduo freqüentador de bares sem frescura, o desenhista PC, vencedor do prêmio Vídeo Brasil, no Anima Mundi de 2001, com a animação Crássicos da Periferia, aceitou a árdua missão de estudar “in loco” a qualidade dos petiscos desses locais e, com seu conhecimento científico sobre a baixíssima gastronomia, apontar qual dos botecos oferece o melhor frango à passarinho da região. Uma equipe de assistentes de pesquisa, da qual fiz parte, acompanhou PC com a missão de não deixá-lo exagerar nas primeiras porções, nem na quantidade de garrafas, para que nada interferisse no rigor da avaliação.
“As good as it gets”
Os testes começaram pelo BH Lanches, na esquina da Augusta com a Luís Coelho. O local já foi reduto de cinéfilos, mas perdeu parte deste público ao mudar de perfil, dando ênfase às refeições e limitando a oferta de cerveja às long-necks. Como as loiras estavam mornas no dia da visita, PC concluiu que o frango seria mais bem avaliado na companhia de uma caipirinha. “Long-neck em temperatura ambiente está fora de cogitação”, decidiu.
A porção não demorou a chegar à mesa, o que foi uma benção, porque o grupo estava mal instalado numa mesinha da calçada, com uma das cadeiras quase dentro de uma obra da prefeitura, o que, claro, não era culpa do bar.
A conclusão de PC sobre os petiscos: “O tempero desta porção é suave, mas a apresentação poderia ser melhor. E o pão de acompanhamento veio contadinho: oito rodelas de um pão murcho”.
Como ainda havia muito frango à passarinho pela frente (e o caixa estava olhando feio para nosso lado, provavelmente por causa das fotos), partimos para o segundo boteco da noite: o Ibotirama, bem mais em direção ao centro, na esquina com a Fernando de Albuquerque.
A recompensa

No Ibotirama,
com a equipe de pesquisa
Fica mais fácil entender por que tanta gente enfrenta alguns quarteirões, saindo do cinema, para tomar a cerveja do Ibotirama. O salão é maior, as pessoas têm mais espaço, há copo americano (não tinha no BH), a cerveja chegou geladinha. Tinha até puta na esquina.
Mas a missão era avaliar o frango à passarinho, de modo que logo chegava à mesa uma meia-porção farta, que contentaria quatro pessoas.
O que logo chamou a atenção de PC e seus assistentes foi a apresentação do prato. O frango tinha uma cor mais bonita e vinha salpicado de alho torrado e salsinha picada. De longe, a porção mais bonita da jornada.
E na boca? “Este frango está mais crocante, e o tempero, mais elaborado, com um sabor que permanece o tempo suficiente”, declarou o dono da noite.
Como aconteceria em todos os bares visitados, PC também prestou atenção ao pãozinho que servia de acompanhamento. No Ibotirama, ele veio levemente torrado, recebendo uma dose equilibrada de azeite e orégano. Algo muito mais elaborado e saboroso do que PC vira no BH.
Ficou evidente que o bar havia marcado pontos na avaliação do desenhista.
Vai entender...

No Charm:
"Ah, se o Kiarostami
me visse agora..."
O terceiro bar visitado é, provavelmente, o mais procurado por estudantes de comunicação, futuros Glaubers e pela velha guarda da esquerda botequeira. No Charm, acomodamo-nos no balcão, porque o lugar estava intransitável, com muito papo-cabeça e gente para lá de Marrakesh. Enquanto pedíamos a cerveja que iria “limpar o paladar” do experimentador, tornamo-nos testemunhas de um trecho do seguinte diálogo fragmentado de dois senhores na casa dos 60, com caras de que planejavam uma revolução desde 68:
- Eu escrevi um livro.
- Eu quero que você escreva mil livros!
- Eu quero explicar para todo mundo que é por causa dos filmes iranianos e suas mensagens diabólicas que existem os filmes do Walter Salles.
- É... Ele filma aquela miséria bonitinha, mas ele não quer morar lá.
Enfim... papo registrado, voltamos ao trabalho duro. Dessa vez, segundo a avaliação de PC, a cerveja poderia estar mais gelada, mas ainda descia. O frango à passarinho veio sem alho, e foi, sem dúvida, a porção mais oleosa da noite. “Não tem gosto de nada”, foi a dura sentença de PC, que, no entanto, aprovou o pãozinho: “Veio uma porção generosa e bem temperada; o pão está quentinho e gostoso”.
PC ainda definiria o frango que chegou ao balcão como “uma porção triste” e acabou concluindo que o tanto de limão que a acompanhava servia para dar algum gosto à coisa.
Gente fina
A última visita tinha tudo para ganhar uma avaliação ruim. O Monarca fecha cedo, e às 23h já estavam recolhendo as mesinhas da calçada. Mas permitiram que comêssemos, desde que do lado de dentro. Aliás, apesar de estar quase fechando, o boteco (está mais para uma lanchonete) foi o vencedor na categoria simpatia. A boa surpresa se estendeu aos pedidos. A cerveja estava geladinha, no ponto certo, e o frango veio numa porção enorme (lembrando que era meia-porção, como as pedidas nos bares anteriores), com pedaços suculentos e saborosos. PC: “Eles sabem servir o frango à passarinho tradicional, sem frescura, mas com bastante gosto de alho. É o que o cliente espera quando pede esta porção”. Outro bar ganhava pontos com PC.
O veredito
Muitos ossinhos depois, nosso intrépido experimentador, sempre disposto a colaborar para as boas causas, deu seu veredito. O Ibotirama foi o vencedor pelo conjunto da obra: melhor frango, melhor cerveja (empate técnico com o Monarca), bom pãozinho de acompanhamento, ambiente mais arejado. Em segundo lugar, o Monarca, pela qualidade da porção, a cerveja gelada e o atendimento simpático. BH e Charm ficaram para a repescagem.

PC no Monarca:
"Quando será
a matéria de feijoada?"
Avaliações por quesito
BH LANCHES
Frango à passarinho: Não fala mal de ninguém.
Pãozinho: Um pão murcho fatiado.
Cerveja: Só tem long-neck, não rola copo americano.
Ambiente: Casais a fim de jantar, caixa a fim de nos botar para fora.
CHARM
Frango à passarinho: “Uma porção triste”.
Pãozinho: O melhor da noite, para compensar.
Cerveja: Até quando é ruim, é boa.
Ambiente: Diretores e críticos de cinema em potencial, musas dos filmes desses diretores, saudosistas do MR-8; todos em perfeita harmonia.
IBOTIRAMA
Frango à passarinho: Obra-prima.
Pãozinho: Oscar de coadjuvante.
Cerveja: Grace Kelly.
Ambiente: Espaço e comodidade, mas evite ir em tarde de jogo do Timão ou tarde da noite, quando há emos por todo o lado.
MONARCA
Frango à passarinho: A força da tradição.
Pãozinho: Nem golaço, nem bola fora.
Cerveja: Sabem servir.
Ambiente: Atendimento simpático, para se sentir em casa; pena que fecha cedo.
* * *
As fotos são do Pet.
Equipe de pesquisa: PC, eu e Juliana Falcon.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex