18.12.07
Sob o domínio do mal
Sessões bocejantes de depoimentos no Senado, gente ignorante e faminta, brasileira, disparando a esmo nas esquinas do Rio e de São Paulo, adolescentes americanos matando colegas de escola por 15 minutos na CNN. Alguns crimes chocam, e os esquecemos no dia seguinte. Outros assustam, e nunca mais abrimos o vidro do carro. Mas a maioria dos crimes, se não é com você, entedia pela constância, porque ninguém faz nada, a imprensa exagera nas tintas para vender seu peixe, e eu estou até aqui de saber de turista esfaqueado na frente de boate, político que roubou, admitiu, mas deixou o cargo para não ser cassado, e tudo bem, fica por isso mesmo.
Sejam corruptos, vendedores de CD pirata ou chefes de cartel, os criminosos da vida real andam tão reais, tão parte de nosso cotidiano, que mais aborrecem do que inspiram biografias. Fulano escapou do presídio pela corda de um helicóptero cúmplice. Puxa, sério? Não vou mais dormir. Sicrana baranga envolvida em escândalo com políticos vai estampar a capa da Playboy. Problema dela (da revista). Fosse a Luciana Vendramini, e eu compraria três exemplares.
O fato é que os criminosos da vida real, com uma ou outra exceção, não servem para lamber a sola do pé de bode dos vilões da tela grande: os psicopatas, os cientistas, os cafetões, os canibais, os mafiosos e principalmente os megalomaníacos. Até antes que Jimmy Cagney se tornasse o ídolo de uma molecada à toa em Anjos de Cara Suja, os vilões no cinema já estimulavam um empenho muito maior dos roteiristas, que ainda os pintam com as cores terríveis dos pesadelos de Edgard Allan Poe, ou os enfeitam com o charme irresistível dos pilantras, dos bon-vivants. O cartaz do filme traz o nome do herói, mas é a imagem do vilão que paga a entrada. Batman Contra Coringa atrai muito mais que Batman Contra O Impávido Chefe do Tráfico da Favela do Macaco Pelado. Pois temos uma curiosidade indômita sobre como o Coringa ficou tão pinel, por que ri de tudo se é feito de pura tragédia. A “graphic novel” Piada Mortal, de Alan Moore, lembra que o cinema ainda não explorou muita coisa do espírito maquiavélico desse bufão do crime.
Ok, Bruce Wayne também não bate bem da bola. E talvez seja esse o motivo pelo qual sua outra persona tem durado, enquanto o Homem América, o Flash Gordon e a Mulher Maravilha esticam as pernas no asilo da Comunidade da Sala de Justiça. Embora salve velhinhas encurraladas em becos, Batman é um mocinho com todos os cacoetes de vilão, está mergulhado até o pescoço no lado negro da força.
Atores nascidos para matar
A compreensão de que bons vilões rendem boas bilheterias faz ainda com que os produtores e diretores escolham a dedo seus intérpretes. Dá-se melhor quem não condena o bandido a mera escada do mocinho. Um ator burocrático enterraria O Silêncio dos Inocentes na vala comum dos suspenses bem escritos. Metade do filme é a expressão sarcástica e penetrante de Anthony Hopkins. Gene Hackman também tem composto vilões detestáveis e adoráveis ao mesmo tempo, e um indestrutível Robert de Niro deu banho de carisma no advogado coxinha interpretado por Nick Nolte em Cabo do Medo.
Mestre em vilões inesquecíveis, Hitchcock acertou na mosca ao escalar Anthony Perkins para viver nas telas o dono de motel mais famoso do mundo. Já Claude Rains está perfeito como o vilão vulnerável e patético de Interlúdio, apaixonado por uma deusa, Ingrid Bergman, bem mais alta que ele. Chego a torcer por Rains, por piedade ou pela constatação de que dá muito mais valor à musa que seu antagonista, Cary Grant. Assim como é difícil torcer contra Joseph Cotten em A Sombra de Uma Dúvida; fico sempre imaginando que as viúvas assassinadas deveriam ter aprontado alguma.
Shakespeare já sabia que um bandido sem escrúpulos nem caráter, mas recheado de boas falas e maneirismos, é garantia de platéia fiel. Iago é o fofoqueiro mais ferino dos palcos de todos os tempos, e sua malícia, suas artimanhas diabólicas para pintar um inexistente par de chifres na testa do mouro Otelo ganharam convincente interpretação, nas telas, com esse grande ator que é Kenneth Branagh. Igualmente feliz foi a atuação de Ian McKellen, que deu conta do desafio grandioso de se pôr à altura do mais cruel vilão do dramaturgo inglês: Ricardo III, o coxo, sua deformidade física realçando a sordidez de sua alma.
Por tudo isso, vira e mexe, contra tudo o que é moralmente aceitável, nos surpreendemos torcendo para que o vilão do cinema atinja seus tentos: escape de Alcatraz, acerte as partes íntimas do policial mais próximo, termine o túnel por baixo do escritório do xerife. Mocinhos são por demais previsíveis, olham sempre para a frente, nunca para os lados, evitam variações de comportamento, e só contam com engenhocas mirabolantes se forem super-heróis ou agentes secretos a serviço de Sua Majestade. Os outros levantam a bola para os malvados brilharem, contaminando o mundo com seus venenos em grande escala, suas síncopes de sustos e seu bom humor imbatível. Têm muito mais charme, diálogos melhores, ambições maiores e nem podem reclamar de pouco dinheiro no banco. Só o que lhes falta é um final feliz.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex