05.12.07
Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson
Os freaks de Wes Anderson têm sempre um segredo só deles: uma tentativa de suicídio, um amor incestuoso, uma obsessão inconfessa, um coração partido. São estranhos, mas humanos, sobretudo, correndo atrás de um trem sempre na frente; inadequados em seu profundo sofrimento.
Disso, eu já sabia. Mas em Viagem a Darjeeling, o diretor demonstrou que pode ir além com seus filmes engraçados de gente esquisita: quase fez uma obra-prima. A sua, pelo menos, fez.
Vemos no início um curta, Hotel Chevalier, que se revela parte do longa, mas tem começo, meio e fim, tem até letreiro final, parece os contos de J.D. Salinger, na estranheza da família Glass, e é sensível à flor da pele. Da pele de Natalie Portman, nua, imperfeita e amarga e sem equilíbrio, mas perfeita para Jack (Jason Schwartzman), um dos três irmãos Whitman do longa que vem a seguir. Tão perfeita e tão imensa que não cabe na vida de Jack, nem na nossa.
Depois, é o (re)começo do filme, que tanto promete, com Bill Murray, sem personagem, correndo atrás do trem. Ele não o alcança e perde o bonde para o Peter de Adrien Brody, que assume seu lugar no filme. A história, como o trem, prossegue sem Murray.
Até aí, fico com aquela boca aberta do espectador que recebe o tapa na cara e o beijo roubado da obra-prima. Mas a partir de então, embora a jornada existencial e mística dos irmãos Whitman se confirme como a melhor composição de Anderson, não chega a manter a altura do seu começo. Às vezes exagera nas câmeras lentas, no pitoresco das situações e figuras, e há Owen Wilson que é ator de um personagem só. Seu Francis Whitman é o John Beckwith, de Penetras Bons de Bico, o Dupree de Dois é Bom, Três é Demais, e outros nomes para uma mesma interpretação.
Isto me leva de volta a um raciocínio meu que não é de hoje. Vejo filmes até o fim porque todos têm a possibilidade da surpresa de um cometa. Um filme ruim pode ter uma seqüência de 10 minutos tão marcante e inesquecível que o torna superior, como experiência cinematográfica ou de vida, a muitos filmes tão-somente bons.
Foi o caso da seqüência em que o personagem de Romain Duris faz um dueto ao telefone com a ex-mulher, no fraco Em Paris, que vi na Mostra. No desespero que o emudece ao ouvir a voz da moça, Duris irrompe numa canção pop conhecida de ambos e, para sua surpresa, ela não o rejeita. Pelo contrário, concorda em substituir uma conversa provavelmente tensa e sem saída por um fugaz momento de beleza. E canta junto.
Comédia dramática, Viagem a Darjeeling é muito mais que um filme mediano, e a inspiração de seu começo (e dos recomeços dos irmãos distantes) faz dele uma noite de cinema para se lembrar. O que, às vezes, vale por todos os filmes do mês. Ou por todas as horas de um dia ruim.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex