25.11.07
The New Standard, de Herbie Hancock
Quando se diz que um artista ligado ao jazz vai lançar uma obra baseada em standards da música popular, vêm logo à cabeça as composições de Cole Porter, dos irmãos Gershwin, de Irving Berlin e de outros gênios da primeira metade do século 20. “Night and Day”, “Georgia on My Mind”, “All of Me”, por exemplo, são canções que já receberam versões inspiradas (e outras nem tanto) de artistas tão diversos quanto Billie Holiday, Diana Krall e até Rod Stewart, que agora anda à procura de engordar a aposentadoria vestido de black-tie.
Mas ao gravar seu The New Standard, Herbie Hancock quis explorar os novos clássicos, canções pop-rock que fizeram sucesso entre os anos 60 e os 90, e ainda hoje são bem lembradas. Ele não estava subvertendo a noção de standard, apenas lembrando críticos e ouvintes de que a música popular tem novos imortais da composição, como os Beatles, Stevie Wonder e Prince.
Obra de 1996, The New Standard voltou às lojas brasileiras no ano passado, como parte de um pacote de oito CDs da Verve que a Universal lançou no mercado nacional, e que incluiu obras de Lester Young, Bill Evans, Oscar Peterson, Count Basie, Sarah Vaughan, Benny Carter e Dizzy Gillespie. Retorno muito bem-vindo.
Na seleção de Hancock, os novos clássicos incluem, além de trabalhos dos artistas já citados, “Mercy Street”, de Peter Gabriel (que aqui ficou famosa na abertura da minissérie global O Sorriso do Lagarto), “Love is Stronger Than Pride”, de Sade, “Scarborough Fair”, de Simon & Garfunkel (da trilha de A Primeira Noite de Um Homem) e ousadias como “All Apologies”, do Nirvana e “When Can I See You”, do artista de R&B Kenny “Babyface” Edmonds.
Para a interpretação dos petardos acima, Hancock contou com o apoio luxuoso de John Scofield, guitarrista de grande noção rítmica, que tem no passaporte carimbos de gente como Charles Mingus, McCoy Tyner e Gerry Muligan, além de ter feito uma turnê de mais de três anos ao lado de Miles Davis. No baixo, outro ex-Miles, Dave Holland, que tocou em pérolas como In A Silent Way e Bitches Brew, um dos vôos mais altos do jazz-rock.
“Mercy Street” é a canção que ganha uma versão mais respeitosa, em que Herbie brinca com o interesse de Peter Gabriel na world music, misturando uma cozinha afro a toques orientais aqui e ali. O que mais chama a atenção é a forma como se combinam a base ritualística de baixo e percussão com os floreios elegantes do piano de Hancock.
“Norwegian Wood”, dos Beatles, surge repleta de improvisos magistrais da guitarra de Scofield e do sax de Michael Brecker, para de vez em quando voltar ao tema que conquistou milhares de adolescentes na voz de John Lennon. Mas a maior desconstrução está em “Scarborough Fair”, que em quase nada lembra a composição original. A interpretação de Hancock é de um be-bop pulsante, que remete o ouvinte para os ambientes esfumaçados em que Charlie Parker se grudava ao saxofone e a platéia enlouquecia numa resposta semelhante à vibração dos fãs em um show de rock. Destaque ainda para a canção que abre o CD, “New York Minute”, de Don Henley, hipnótica sugestão de imagens, perfeita para trilha de um filme noir.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex