09.11.07

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A Via Láctea, de Lina Chamie

avialactea

Nada como entrar no cinema com uma expectativa mediana e sair com um sorriso de orelha a orelha. Foi assim comigo, ao assistir a A Via Láctea, de Lina Chamie, que conta a história de amor entre os personagens de Marco Ricca e Alice Braga. As primeiras cenas do filme já indicavam que, no mínimo, seria um filme pouco convencional: Marco Ricca desnorteado na rua, em meio aos carros, numa atitude dramática em contraponto com a trilha sonora, de desenho animado. E o que vem depois é poético, é cinema de verdade e é, também, intensamente romântico, daqueles filmes de sair da sala apaixonado pela atriz. E por São Paulo, por sua feiúra e sua beleza, cada vez mais retratadas em filmes recentes.

Alice Braga, que já encantara no triângulo amoroso de Cidade Baixa, ganha outro papel adequado à sua qualidade dramática, de sorrisos e olhos tristes que pedem, amam e rejeitam, expressando no rosto tudo o que, num diálogo, poderia ser banal.

Ricca trafega por Sampa ao encontro de Alice, mas se enrosca nas lentidões da cidade, ainda maior, pois o relógio de rua não muda seu horário. Tudo é sonho e delírio no pensamento angustiado e fragmentado de seu personagem durante a busca da amada. Mas também há poesia, jogos de esconde-esconde, o brinquedo do amor com regras difíceis de entender.

Chamie buscou a inventividade em cada seqüência, mas não caiu na armadilha da forma pela forma. Seu filme bebe na Nouvelle Vague ao contar uma história de amor e desamor, e nele cada encontro e cada pensamento são narrados de maneira a enfatizar o conteúdo; não é um exercício estilístico vazio. Ao contrário. Tem pontos fracos, um certo excesso de digressões, mas que não diminuem sua beleza.

* * *

Meus últimos filmes brasileiros foram Mutum, que vi na Mostra, e este A Via Láctea. Ambos ótimos. Cada vez mais, sinto um prazer enorme de ver bons filmes brasileiros em cartaz. E com uma freqüência que eu nunca tinha testemunhado. O Céu de Suely, Cinema, Aspirinas e Urubus, O Cheiro do Ralo, Não Por Acaso, Cão Sem Dono, Santiago, Tropa de Elite...

No começo dos anos 90, quando resolvi fazer cinema na faculdade, não tinha nada disso. Carlota Joaquina, que é um filme mediano, parecia uma obra-prima redentora perto do deserto que era o cinema brasileiro na época. Nunca fui bom de timing.

por Alexandre Carvalho dos Santos 7 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Marcela Rodrigues

Concordo com você, Alexandre. Hoje o cinema brasileiro está numa fase excepcional. Sorte para nós, apaixonados por isso.

Gostei muito da sua crítica ao filme da Chamie. Tão poética quando deve ser o filme. Preciso ver, ainda não deu para ir.
Beijo.

PermalinkPermalink 10.11.07 @ 10:36



Comentário de: TATIANA REZENDE · http://tatirez.blog.terra.com.br

Caro Alexandre, ainda não assisti "A Via Láctea", mas adorei seu comentário sobre Piaf. Se puder, dê uma olhada no meu texto de hoje sobre o tema em http://tatirez.blog.terra.com.br
Abs,
Tatiana.

PermalinkPermalink 11.11.07 @ 22:39



Comentário de: sérgio alpendre

o cheiro do ralo????

o senhor é um fanfarrão

PermalinkPermalink 14.11.07 @ 03:01



Comentário de: Filipe

Sergio, segundo a revista que você edita O Cheiro do Ralo é um belo filme hehe

PermalinkPermalink 14.11.07 @ 16:52



Comentário de: leo · http://www.fotolog.com/leo2210

pode não ser bom de timing, mas de texto é excelente.

PermalinkPermalink 27.11.07 @ 21:08



Comentário de: Flávia · http://claracrocodillo.blogspot.com

Alexandre, gostei muito da sua crítica. Só agora vi o filme, em dvd, e achei brilhante! Estou tentando achar a música principal, acho q é Schubert, mas não sei qual, vc sabe?
Abs

PermalinkPermalink 30.08.08 @ 23:17



Comentário de: Valter A. Rodrigues · http://usinagrupodetudos.blogspot.com

A via láctea é belo, onírico, delicado, musical, disruptivo... É música para os olhos, imagem-tempo, cinema-poesia...

PermalinkPermalink 14.09.08 @ 11:53



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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