05.11.07
Meu Melhor Amigo, de Patrice Leconte
O primeiro filme de Patrice Leconte a que assisti foi O Marido da Cabeleireira (1990), que tinha um pouco de drama, um pouco de comédia, um tanto de romance, e era de uma sensibilidade à flor da pele, de pouca fala e muita delicadeza.
Este Meu Melhor Amigo, que acaba de entrar em cartaz após exibições na Mostra de São Paulo, não foge ao intuito de emocionar o espectador, dessa vez refletindo sobre o valor da amizade. Mas aumenta a dose de humor, ainda que na linha das comédias leves, uma tradição francesa que já foi muito bem representada por Truffaut em sua seqüência dedicada ao personagem Antoine Doinel. Neste filme de Leconte, entretanto, o argumento e a narrativa são mais tradicionais, o que não enfraquece o conjunto, em que a química entre Daniel Auteuil e Dany Boon se destaca.
François (Auteuil) é um marchand apaixonado por peças raras e suas histórias, mas de resto um misantropo, que restringe suas relações humanas às profissionais. Não tenta ser simpático, não se comunica com a filha pós-adolescente e tem baixa estima entre colegas de trabalho. Numa noite, sua sócia no antiquário lhe expõe essas fraquezas, que ele rejeita, discussão que resulta em uma aposta: ele deverá, num período de poucos dias, apresentar o que seria “seu melhor amigo”, coisa que a moça acredita (com razão) que ele não tenha. Desafiado, François pede a um taxista simpático e falante (Boon) que lhe dê aulas sobre como fazer amigos. E o que se espera, desde o começo, se estabelece: com o desenvolver das aulas, o marchand e o motorista de táxi se descobrem o melhor amigo um do outro. Mas tudo começou como uma aposta, e assim nasce outro conflito a ser trabalhado.
Patrice Leconte parece ter procurado na simplicidade o caminho para construir uma comédia sem arroubos mas muita graça, e que pode ser vista como uma homenagem aos filmes de Capra, na recuperação de valores que a vida moderna reprime; no caso, a qualidade das relações humanas. Mas esta aparente falta de ambição esconde sutilezas e reflexões, exigindo do espectador uma atenção às entrelinhas.
Há, no filme de Leconte, um olhar crítico sobre a vaidade. É a ela que François presta tributo na aquisição impulsiva de um vaso grego, raríssimo, o qual mantém para si ainda que sob risco de perder seu negócio de antigüidades. É a vaidade que o cega à dedicação de sua amante, ao afeto de sua sócia. É o que o faz ignorar a verdadeira conquista na relação com o taxista, fazendo com que exiba seu novo amigo como um troféu, a vitória na aposta, a confirmação de que é um sucesso completo. Por ela, a vaidade, ama apenas aquilo que o explica e traduz: objetos de arte que são sua história e seu espelho. É sua exclusão, seu abrigo, de um universo de convenções e gente que se repete, como produtos de consumo popular.
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Comentários:
deu uma enorme vontade de ver o filme.
acho excelente a forma como escreve.
fluída, clara, objetiva.
muito bom o blog.
acompanho desde o texto sobre a Mariana Aydar.
abraço.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex