23.10.07
A repercussão de "Luciano Huck e a 'Tropa das Elites'"
Há duas semanas, após acompanhar a repercussão gerada por um artigo de Luciano Huck, indignado com um assalto sofrido em São Paulo, e a polêmica em torno do filme Tropa de Elite, de José Padilha, resolvi escrever um texto neste espaço, apontando as hipocrisias do pensamento que impera hoje, e já há muito, como sendo supostamente “do bem”: o da "esquerda liberal" (e vejo um duplo sentido nessa definição), que simpatiza com o criminoso, identificando-o sempre como o oprimido pelas “elites” (esta representação do mal, que pode ser muitas coisas e nenhuma, dependendo da intenção do argumentador).
Um dos primeiros a comentar meu texto foi o desenhista PC, um amigo, que logo me alertou: “Prepare-se para as pedradas, inclusive de amigos”.
Ele sabia o que estava dizendo. Convivemos lado a lado com este pensamento de condescendência com o criminoso e o crime, desde que não seja o de colarinho branco; uma atitude de suposta consciência social tão bem representada pelos estudantes de classe média alta no filme Tropa de Elite. Questionar esta visão de mundo parece questionar a própria ordem das coisas, o mundo como ele é ou deveria ser, os direitos humanos. Colocá-la em questão, em algumas rodas, dá a entender que você pegaria em armas, sorridente, na chacina do Carandiru.
Para minha surpresa, meu texto teve uma repercussão que superou em muito minhas expectativas. Até agora, recebeu mais de 5200 visitantes únicos, e gerou mais de 150 comentários. Também para minha surpresa, as pedradas foram poucas.
Como não tive tempo de responder a todos os comentários, preferi usar este espaço, novamente, para uma resposta geral, e um comentário acerca deles.
A grande maioria identificou, no texto, sensatez maior que a dos comentários de leitores da Folha de S. Paulo (que apresentou o artigo de Huck) e de personalidades como o escritor e rapper Ferréz, que demonstrou estar do lado do assaltante em um artigo dramatizando a vida difícil do criminoso. Foram muitos os parabéns e agradeço a todos. Agradeço também pelos que fizeram os comentários mais críticos, pela gentileza de escrever; um blog é feito para gerar discussão, conversa, encontros e desencontros de opinião. No caso desse post, os encontros superaram os desencontros.
Dando seqüência a esta troca de idéias, devo dizer que repudio, completamente, as insinuações de quem viu, no meu ataque a esta linha de pensamento, uma defesa da direita mais truculenta. Não vejo as coisas em preto e branco. Ser contra quem dá razão ao criminoso e acredita que o crime deve ser visto com uma aceitação maior, ser contra quem acha que a polícia é pior que os bandidos, contra quem acha que o dinheiro pago na maconha da galera vai sustentar alguma ONG na favela, não me torna um eleitor do Maluf nem um simpatizante de tiranias (de direita, enfatizo, pois a de esquerda parece ser bem tolerada, inclusive entre intelectuais dos mais populares).
Aos que criticaram minha menção ao Capão Redondo como bairro violentíssimo, só me ative aos fatos. Trata-se da sexta região em número de assassinatos em São Paulo, e me referi a ele especificamente por ser o bairro de Ferréz, que inclusive escreveu um livro sobre o dia-a-dia no local, Capão Pecado.
Já para os que viram no texto a empatia com um rico que chora a perda de seu rolex, aviso que nem Fusca eu tenho.
Houve comentários extremamente simpáticos e estimulantes, e alguns me chamaram a atenção:
- Muitos lembraram os crimes cometidos por nossos políticos, que se beneficiam de uma impunidade inaceitável.
- Helânio afirmou que cresceu na periferia e viu amigos morrerem por causa do crime, mas nunca pensou em roubar um rolex. A educação dos pais foi decisiva para que se tornasse um cidadão, em vez de um ladrão.
- Fábio, do Grajaú, apontou que a diferença entre a indignação de Huck e a de todos nós é que ele tem um espaço nobre para se manifestar, enquanto nossa voz não é ouvida pelas autoridades. É verdade, Fábio, mas é assim mesmo: só quando Marcelo Fromer, dos Titãs, foi atropelado por um motoboy na contramão é que começaram a discutir a atividade de entrega rápida e as condições em que os motoboys são obrigados a trabalhar (e também o perigo que eles representam para o nosso trânsito).
- Marcelo, um PM, agradeceu pelo texto e disse o que deveria ser o óbvio: na sua atividade, como em qualquer outra, há gente boa e gente ruim.
- Mirian diz que já foi assaltada algumas vezes e que, no minuto seguinte ao assalto, não ficava com pena do assaltante, muito pelo contrário.
Eu também já fui assaltado algumas vezes, já passei pela experiência extrema do seqüestro-relâmpago, e não pensei, em nenhum momento, que o “coitado” que estava com o poder de me deixar viver ou morrer fosse a vítima naquela situação.
Tem quem ache, e repita isso na mesa do bar, na festinha, nas páginas da Folha. Gente "do bem".
* * *
Assim como em todos os outros blogs que integram o Interney Blogs, os comentários passam por uma aprovação prévia antes de serem publicados. Isto evita um eventual processo no caso de um leitor dizer, no meu blog, que determinado político é ladrão, por exemplo, pois eu poderia estar abrindo espaço para uma acusação sem provas e, no mínimo, deveria abrir igual espaço para resposta. Também evita que sejam publicados palavrões ou comentários defendendo o nazismo ou o racismo, ou qualquer outra dessas aberrações do pensamento humano.
Num texto polêmico como este, poderia ficar a impressão de que apago os comentários contrários, para que prevaleçam os que compartilham com os questionamentos manifestados. Uma atitude dessa seria extremamente prejudicial ao blog, que sobrevive da troca de idéias, e não dos tapinhas nas costas. Quem escreve atacando um texto meu volta depois ao blog para conferir a repercussão de seu comentário, ou para compará-lo aos dos outros.
Apaguei apenas as ofensas gratuitas (duas ou três). Publiquei todos os comentários contrários, alguns com ótimas argumentações, outros mais prosaicos, mas válidos.
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O que são blogs, afinal? Ou, manifesto pelo respeito à complexidade da blogosfera
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Comentários:
fui um dos utimos(se não o ultimo) a comentar seu topico o qual se refere aqui...
Por não ter certeza de que você ainda confere os comentarios de posts mais antigos, nem saber se o interney avisa de comentarios de posts de quase um mes atras.
Caso não avise, ou vc nao confira, achei melhor deixar um recado sobre isso aqui.
Obrigado pela atenção.
Matheus Dewes
daí talvez a razão pela qual a metáfora nuclear seja a tortura. Torturar é reificar o
outro, tomando seu corpo como objeto e levando esse aviltamento ao limite,
submetendo vontade e sensação alheias. Mas não é esse o sentido último do
movimento de quem se recusa a abrir-se para a singularidade da voz que ouve, da
obra que lê ou vê? Esse solipsismo, essa clausura narcísica, essa paranóia
defensiva e agressiva, essa impossibilidade de abrir-se e oferecer um espaço de
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acolhida para a obra em sua densidade distintiva, essa obsessão pelo julgamento,
essa volúpia taxonômica, não seriam, essas patologias da leitura, equivalentes
metafóricos da tortura? Esses dós de peito morais e politicamente patrulhadores
não seriam mimetismos patéticos do capitão Nascimento? Ou seja, quem detesta
o personagem não o odeia por identificar-se com ele? E isso não acaba
obliterando a sensibilidade hermenêutica, a qual exigiria abertura para o outro,
para a alteridade que a obra afirma, representa e dramatiza?De qualquer forma Luciano Hulck não se torna vítima de uma tortura, na qual se viu pela primeira vez no seu limite?? Seria correto dizer, que alguem atormentado pela experiência de perceber que sua vida poderia ser perdida por um relgio rolex; Enquanto, sua conta bancára é muito maior e considerável deveria escrever um texto de indignação? Pq ele não escreveu quando pessoas que estão próximas dele passou pela mesma situação? Ah! Essa eu sei. É preciso ter a experiência pra falar...Pra discutir...Muitos não passaram, outros se viram em situação pior e a vida valendo menos. Mas, acho que não tem oportunidade de divulgar nacionalmente sua indignação. Qual seja nós para julgar Luciano ou quem quer que seja. Só estamos aqui meramente para criticar, opinar, não julgar. rsrsrs Somos seres humanos, adoramos julgar, mesmo que não perçebamos. Então, cabe a nós nos conformar com o fato, porque este, já não pode ser modificado. Por mais críticas, opiniões e julgamentos...Você enriqueceu a discursão e fez bem o seu papel. Precisamos ler críticas opiniões e julgamentos. Não necessariamente nessa ordem, nem os três sendo complementares.
Abraços carinhosos!
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex