15.10.07
Go! (1962), de Dexter Gordon
Billy Eckstine, o homem do vozeirão nos duetos famosos com Sarah Vaughan, também foi líder de grandes bandas de jazz, por onde passaram fenômenos como Charlie Parker e um saxofonista tenor não tão conhecido do público brasileiro, mas dono de um talento mais que aplaudido mundo afora: Dexter Gordon. Se você não sabe de quem estou falando, talvez se lembre do ator que protagonizou o filme Round Midnight; pois era o próprio Dex, interpretando o único papel que realmente lhe caberia no cinema: o de um prodígio do saxofone.
Entre suas preciosas contribuições para a música do século que passou, Dexter Gordon deixou uma série de álbuns gravados na primeira metade dos anos 60 pelo selo Blue Note, como Doin’ Allright e Dexter Calling. Mas nenhum que se equiparasse em brilho a Go!, obra-prima eternizada em agosto de 1962, numa época em que o mundo estava se acostumando a clássicos instantâneos, como A Love Supreme, de John Coltrane, e a trilogia de pérolas gravadas por Miles Davis com a orquestra de Gil Evans. Ainda assim, não houve quem não reconhecesse em Go! um trabalho de mestre, digno de entrar em qualquer top ten dos maiores álbuns de jazz de todos os tempos.
Exagero? De jeito nenhum. “Cheese Cake” é anunciada por oito leves toques da baqueta de Billy Higgins no prato de sua bateria, como a pedir a atenção do ouvinte para o que vem depois: uma seqüência de seis números de pura inspiração, equilíbrio e a condução firme do sax tenor de Dex, que parece ter nascido já brincando com um instrumento de sopro, tamanha sua desenvoltura.
Em seus diálogos rápidos do sax de Gordon com o piano de Sonny Clark, “Cheese Cake” pode ser considerada como uma das melhores aberturas de um álbum de jazz. O tema gruda na cabeça, e não há por que sair, a não ser que para dar passagem ao romantismo de “I Guess I’ll Hang My Tears Out to Dry”. Esta canção, perfeita para um fim de noite a dois, queijos e vinho à frente, tem melodia suplicante, que lembra “saloon songs” como “Angel Eyes”, e se engrandece nos pequenos improvisos do sax de Gordon ao longo da canção. Aqui, os outros instrumentos são meros coadjuvantes, e o solo de piano se encaixa como que apenas para dar fôlego ao saxofonista que foi ao camarim, colocar suas lágrimas no varal.
Outra canção perfeita para namorados é “Where Are You?”, com o saxofone sussurrando ao ouvido de sua alma gêmea, como se o fio de voz de Chet Baker fosse surgir a qualquer momento, para derrubar qualquer resistência.
Mas Go! não é feito apenas de baladas. Além de “Cheese Cake”, as interpretações para “Second Balcony Jump” (que Gordon já tocara na banda de Eckstine), “Love for Sale” e “Three O’Clock in The Morning” demonstram toda a vibração do jazz criada pelas mãos de um de seus artistas mais vibrantes.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex