01.10.07

Permalink Categorias: Cotidiano, Culinária   Portuguese (BR)

Simples... mas irresistíveis

Léo 1
Bar Léo, aonde posso ir a pé de casa

Os três melhores “botecos-simples” de São Paulo seguem a fórmula do “escondido, gostoso e barato”

No Rio de Janeiro é mais comum. Aqui é mais raro, ouvir a expressão pé-sujo relacionada a um bar. Talvez se explique por uma repulsa paulistana a ligar a imagem de um pé descalço e encardido às delícias da parte de cima do balcão. Ficamos chamando tudo de boteco, e o advento dos “botecos-chiques” acabou confundindo mais a coisa. Há bar para gente rica, que serve uísque com energético, e é chamado de boteco, e há pé-sujo que faz justiça à classificação e também vira boteco. Para o dicionário, tanto pé-sujo quanto boteco são termos depreciativos, mas o sr. Aurélio está meio fora de forma em relação ao léxico da alcoolemia.

De qualquer forma, para não ofender ninguém, vamos usar aqui o termo boteco-simples, em contraponto ao termo que designa os bares de happy-hour de executivo, mas com as seguintes considerações:

Estamos abordando os botequins mais despojados, de espaços limitados, conforto restrito, em que o garçom pode ser também o barman e, às vezes, até o dono do estabelecimento. Ou seja, estão excluídos desta avaliação os “botecos-chiques”, que ficam para uma próxima análise. Templos do bem-viver como Pirajá, Original e Frangó ficarão, portanto, para uma outra matéria. O Empanadas, que já foi boteco dos melhores, hoje está mais para “chique”, com espaços amplos, segurança na porta, freqüência endinheirada. Uma pena.

Por que falar sobre bares desconfortáveis, apertados, ruidosos, dos quais você prefere não visitar a cozinha? Porque são aconchegantes em sua simplicidade, carinhosos em seus copos previamente gelados, democráticos, sinceros, despreocupados quanto ao volume da sua voz ou a sandália havaiana no pé. E, como o proprietário costuma marcar presença, o padrão de qualidade tende a ser mantido; pelo menos, nos melhores botequins, como os destacados aqui.

Uma característica comum a alguns dos melhores botecos-simples de São Paulo: ficam distantes dos bairros mais festivos da cidade, freqüentemente em regiões onde você jamais procuraria um lugar para levar sua cara-metade; e às vezes nem é recomendável mesmo que o faça. Coincidentemente ou não, os botecos maravilhosos que relaciono ficam em ruas de muito movimento e nenhum glamour. No caso do Léo, a região até dá medo (mas posso ir a pé, da minha casa, o que é uma vantagem inegável).

O melhor japa da cidade
O Bar do Luiz Nozoie fica na Av. Cursino, na região da Saúde, zona sul de São Paulo. A avenida é mais conhecida como um dos caminhos possíveis para o zoológico. Entre pet-shops, bancos, salões de beleza, farmácias e outras portinhas de pequeno comércio, fica este boteco imbatível, tocado por uma família de orientais, com seu Luiz à frente. Há um longo balcão que começa quase na porta do bar e algumas mesas de ferro, daquelas bem simples. Mas em cima do balcão e na cozinha, os acepipes são de primeira, com destaque para os frutos do mar, que seu Luiz traz de suas pescarias semanais no Guarujá. Os espetinhos de camarão e de peixe espada têm gosto de quiosque de praia, embora muito mais sequinhos e saborosos. Os muslitos também chamam a atenção, assim como os pastéis de carne e queijo, que são campeões de pedidos no bar. Sobre o balcão, desfila uma variedade de iguarias inesquecíveis: camarões graúdos ao vinagrete, rollmops (sempre devoro um quando vou lá), lula, polvo ao vinagrete (para mim, o melhor de São Paulo), além de frios que, embora apetitosos, tornam-se meros coadjuvantes na companhia de tantas especialidades do mar, e tão bem feitas.
Como um bom boteco depende sobretudo de uma boa oferta de bebida, o Luiz não deixa por menos. Oferece cerveja de garrafa geladíssima, conservada assim por uma antiga geladeira de sorvete. Mas tente convencer o seu fígado a combinar as cervejinhas com uma e outra batida de amendoim, preparação em que os filhos do Luiz são samurais de espada afiada. Ah, e vá de táxi para encontrar o caminho de volta depois desse coquetel.
Bar do Luiz Nozoie - Av. do Cursino, 1210 – Tel.: 5061-4554

Cartão postal
O Léo dispensa apresentação. Seu chope é uma das maiores instituições do saber-beber paulistano, atravessa as décadas ganhando prêmios de publicações especializadas e atraindo devotos de diversas partes da cidade a uma região nada atraente. Se você estiver de bobeira pelos lados da Rua Aurora ou dos Andradas, e quiser parar para um chopinho, o melhor chopinho, basta prestar atenção à esquina com uma aglomeração de homens bebendo de pé na calçada, porque o interior do boteco fica cheio da hora que abre à hora que fecha. Motivos não faltam: esse chope da dimensão dos mitos vem acompanhado pelos melhores canapés de carne crua da cidade, por porções perfeitas de parmesão, de canapés de copa com gorgonzola, de bolinhos de carne (deixe a mostarda escura por perto) e, se for num sábado ou numa quarta, por bolinhos de bacalhau de dobrar os joelhos de tanta emoção. Antigamente, era raro ver mulher por lá, mas hoje elas também disputam espaço para encostar o braço no disputadíssimo balcão do Léo, embora em proporção ainda muito menor. Uma pena.
Você pode estar pensando, “lugar lotado, no centrão, pouca mulher, beber de pé...”, pois é, e não espere simpatia por parte dos garçons, demasiadamente atarefados para preocupação com cerimônias. Ainda assim, você não vê ninguém de mal com a vida dentro do Léo. Logo no segundo chope, encostado naquele balcão mágico, você coloca um sorriso nos lábios, engata conversa sobre futebol com o senhor ao lado, e pensa que, afinal, a vida tem sido boa demais com você.
Bar Léo - Rua Aurora, 100 – Tel.: 3221-0247

Barateiro
Passei muito tempo achando que esse boteco se chamava Bar do Norte, porque assim me foi apresentado, mas o nome verdadeiro é Rancho Nordestino, um dos mais acolhedores para paulistanos de diversas partes do Brasil. A localização também foge do circuito Vila Olímpia – Itaim – Jardins – Vila Madalena; fica em pleno Bexiga, bairro que viu o apogeu de sua boemia passar há muito tempo. Mas não no bar do Raimundo Nonato. Lá, o bate-papo só termina na alta madrugada, e as garçonetes nunca pressionam ninguém a pedir a última. A expressão “até o último cliente” funciona de verdade por lá; posso confirmar porque, vira e mexe, esse último cliente sou eu. Como manda o nome do bar, as especialidades nordestinas são as grandes pedidas, e eu recomendo o caldo de fava com paio e os pedaços de jabá e carne de sol, tira-gostos indispensáveis, companhias ideais para a cerveja gelada e as muitas pingas do arsenal do Raimundão. Meu irmão, um estudioso dos efeitos da ingestão prolongada de aguardentes e alimentos gordurosos, não sai de lá sem pedir uma dose de Chave de Ouro. Como se não bastassem o atendimento compreensivo e o fato de que tudo é gostoso, o Rancho Nordestino ainda é extremamente barato. É o que me lembrou o cinéfilo e cachaçófilo José Roberto Almeida, companheiro de estudos noite adentro no bar: “Bebo, bebo, bebo, tomo caldinho de sururu, como carne de sol, requeijão, jabá, jogo manteiga de garrafa e pimenta em cima de tudo, e na hora de pagar, dá vontade de beijar a conta”. Esse é o Beto.
Rancho Nordestino - Rua Manuel Dutra, 498 – Tel.: 3106-7257

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink


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Querem acabar com os botecos!!

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Comentários:


Comentário de: simone · http://locutorius.blogspot.com

só conheço o bar do leo, que realmente vale qualquer parada. mas passei mesmo pelo comments pra dizer que adorei o blog - apesar de ser sua futura vizinha de IB, ainda não tinha vindo aqui com calma. beijo!

PermalinkPermalink 01.10.07 @ 19:57



Comentário de: Alexandre Carvalho dos Santos Email · http://www.interney.net/blogs/rolleiflex/

Olá, Simone. Obrigado pela visita e o comentário simpático. Aguardo para conhecer o seu blog, então.

PermalinkPermalink 02.10.07 @ 11:49



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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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