30.09.07
Masca, Medeski, Martin & Wood

Masca com o violão, e o autor dessas mal traçadas,
a caminho de Trindade
Paulo Mascarenhas foi baterista de minha primeira experiência frustrada de ter uma banda de rock, lá pelo fim dos anos 80. No trio que formava a base do grupo, eu era só empolgação no vocal e uns desatinos, enquanto Masca respondia pela porção jazz da banda, com seus improvisos bem colocados e batidas que fugiam do cadência quadrada do rock.
Amizade que sobreviveu ao fim da banda, Masca é protagonista de algumas de minhas lembranças musicais menos convencionais, como quando, numa noite bêbada do começo dos anos 90, convidou-se para uma jam não programada com o renomado saxofonista Hector Costita, ou quando, numa festa na sede da somaterapia (experiência de terapia psicológica radical do polêmico Roberto Freire), invadiu o palco em que duas artistas analisadas se apresentavam aos violões e fez um inusitado solo de trompete... sem o instrumento. A platéia delirou, é claro, porque não poderia haver intervenção melhor, para aqueles que buscavam a verdade de seus corpos, que a de um Chet Baker usando tão-somente as mãos e a boca na expressão das melodias complexas de sua vida.
Fã das alquimias possíveis que só o jazz é capaz de comportar, Masca foi quem me abriu os olhos e ouvidos para o som viajante e de difícil classificação do trio de vanguarda Medeski, Martin & Wood.
Nascido em Nova York, no começo dos anos 90, o trio explora as possibilidades que teclados (John Medeski), baixo acústico (Chris Wood) e bateria (Billy Martin) podem render em favor de uma comunicação mais ampla com ouvintes que vão de fãs do jazz a amantes do rock e baladeiros de plantão, todos babando diante do “groove” magnético do órgão de Medeski. O som do trio pode agradar tanto a quem vai ao clube de jazz com a cabeça aberta a novidades quanto como som ambiente de uma competição de skate. Com um pé nas raízes, que vão de Thelonius Monk ao John Coltrane de A Love Supreme, os três absorvem e devolvem para as caixas acústicas muita influência do funk, do blues e do rock, em desempenhos cheios de energia e modernidade.
Uma boa introdução para quem ainda não conhece o som do trio é a coletânea Last Chance to Dance Trance (perhaps), lançada aqui pela Trama e que enfoca os seis primeiros anos triunfais de Medeski, Martin & Wood. “Chubb Sub”, faixa que abre o CD, é jazz dançante, é funky e parece produzida por um DJ inspirado, mas são só os três falando uma língua universal, saborosa tanto para o ouvinte de Return to Forever (o melhor que o jazz-rock produziu) quanto para o freqüentador de rave. “Bubblehouse” tem batida pesada, hard blues, que parece uma mistura de Herbie Hancock com os últimos Doors, de L.A. Woman. E “Hermeto’s Daydream” é a faixa em que o trio declara sua admiração pelas invenções do compositor Hermeto Pascoal, aquele que tira som de chaleira e de barriga de tatu. É uma faixa de muito improviso de piano, em que os três brincam à vontade num estilo bem jazz no limite; a imaginação gringa do que devem ser os devaneios do albino brasileiro.
Grande pedida para o fone de ouvido, o som de Medeski, Martin & Wood também funciona muito bem na pista de dança. É radical sem ser chato, muito pelo contrário: tem o vírus do “groove”, que chacoalha corpos e mentes sedentas de ritmo.
* * *
Texto dos tempos de minha coluna de jazz, na Antena 1.
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Comentários:
Estava passeando alegremente pelo seu blog, quando localizei esta dica, que espero degustar em breve. Vc faz uma referência a Antena 1, vc trabalhou aqui? Eu faço o horário das 19 às 22 h. É isto, vou continuar o meu passeio. Inté!!
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex