06.09.07
Garoto enxaqueca no cinema
Como é seu poder de concentração? Você lê no ônibus? O meu é muito bom, é quase o de um Buda meditando. Diariamente, almoço no refeitório de uma empresa em que 90% dos empregados são homens. Imagine a cena: refeitório pequeno, com dez marmanjos dedicados a ridicularizar outros dez, que tiveram o azar de torcer pelo time que perdeu no final de semana. Ou na quarta-feira. A comida esfria, mas não se perde a piada. Pois bem, entre a Mancha Verde e a Gaviões da Fiel, ambas a plenos pulmões, eu abro um livro e só interrompo a leitura quando um silêncio repentino indica que o horário de almoço terminou. Esta abstração do que se fala e se grita ao redor já me permitiu saborear contos de Hemingway e Fitzgerald, poemas de Leminski e João Cabral, os desassossegos de Pessoa, as viagens internas de Virginia Woolf, a ousadia estética de Osman Lins. Até Joyce, já li ao lado do microondas.
A massa sonora e a rotina das exaltações tornam os diálogos indistintos, e minha atenção tem um único caminho, que é o das páginas dos livros.
No cinema, entretanto, não é assim. Diferentemente do refeitório da empresa, a sala de cinema é lugar em que espero silêncio e comodidade. E este meu otimismo acaba sendo minha perdição, pois o ruído é freqüente, como uma unha encravada que você não tem como esquecer, mesmo que na festa do seu casamento.
Por isto, relacionei algumas considerações para evitar irritação no cinema. Talvez você discorde de algumas ou da maioria, o que não tem importância. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mas, se você é dos que levam a cesta de piquenique para o cinema, por favor, guarde bem a imagem abaixo (minha foto) e tenha a generosidade de não sentar ao meu lado, atrás de mim ou na minha frente. Três fileiras de distância devem bastar. E aproveite o filme a seu modo, com todo o prazer a que tem direito.

O oásis das primeiras fileiras
François Truffaut dizia que os verdadeiros cinéfilos sempre se sentam nas primeiras fileiras do cinema. Se for verdade, São Paulo anda carente de cinéfilos, pois as primeiras fileiras do cinema só ficam repletas quando o cinema está lotado. Eu, particularmente, costumo me sentar entre as três primeiras. O motivo principal é que gosto de ter a tela grande diante de mim. Para ver um retângulo pequeno lá longe, fico em casa, na companhia da telinha do televisor, sai mais barato.
Quero o filme enchendo a panorâmica dos meus olhos, e nada mais. Além disso, como essas fileiras são menos freqüentadas, há menor chance de ficar perto de um “chato de cinema”.
Nariz atento
Há cheiro de pipoca? Vou para o outro lado. Os cinemarks (evito) americanizaram um comportamento que já existia por aqui: o de comer e beber durante o filme. A americanização apenas tornou os tamanhos dos sacos de pipoca (agora baldes) e dos copos de refrigerante suficientes para uma família inteira. Mas é claro que a regra é consumir mais, comer mais, beber mais... ver menos... de modo que cada membro da família tem seu próprio megacombo, da tia surda ao caçula que não pára quieto. Assim, o cheiro de manteiga da pipoca forma uma névoa sobre as cabeças, entre as cabeças e os cabelos, e o som de canudinhos sendo sugados, latinhas sendo abertas, sacos de pipocas sendo sacudidos invadem os ouvidos e se misturam à trilha sonora do filme.
Aos que ficam surpresos com salas que proíbem a entrada com alimentos, eu pergunto: não dá para ficar duas horas do dia sem comer?
Cuidado com as turmas
Assim como nas torcidas de futebol, nas igrejas e nos partidos políticos, as pessoas se soltam mais quando estão em grupos. Ficam mais cheias de si, falam mais alto, querem impressionar as demais. No cinema, eu deixo bastante gente entrar na minha frente para então decidir sobre onde vou sentar. Assim, consigo ver onde estão os grupos de mais de três conhecidos, e me afastar. Ter adolescentes na fileira de trás, por exemplo, é um suicídio para o espectador. Se já estou sentado, e três amigos de 14 a 17 anos se sentam atrás de mim, levanto na hora e procuro outro lugar. Ou terei a poltrona chutada por duas horas e compartilharei de informações que não deveriam me afetar, como quem ficou com quem na última balada, ou a roupa ridícula da amiga que foi ao banheiro. Grupos de senhoras também são perigosíssimos, sempre incluem aquela que não entende o que está passando na tela, e sempre tem sua cara-metade, a pessoa que explica tudo. Grupos de culturetes, então, deus que me livre... São os menos educados, tentam cortar fila na entrada, conversam o filme inteiro, atendem o celular como se estivessem no restaurante. Claro, porque durante e depois do filme eles precisam contar sobre a estética inovadora do filme paquistanês para o amigo que está na vernissage.
Exagero meu? Tá, levantei com o pé esquerdo, mas duvido que amanhã eu mude de idéia.
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Carol, vou espalhar cartazes com fotos suas nas frentes dos bons cinemas: "Armada e perigosa".
E também não curto cheiro de pipoca - meu kit de sobrevivência inclui uma barra de chocolate branco e uma coca cola... Não sei variar (rsrs).
Adorei o post. Beijos!
Alê, você esqueceu de mencionar o pior. Aqueles saquinhos de batata frita, em que cada mordida do vizinho infeliz,você escuta quantas vezes ele mastiga.Fora o fato de ficar amassando aquele papel barulhento. Gosto de ir em sessões alternativas, daquelas que não tem quase ninguém e acaba sendo uma cilada, porque o sujeito vendo que não tem quase ninguém, bate altos papos no celular com quem acabou de ligar.
Ótimo post, assino embaixo.
saudades demais doce!
beijos
mari
Mari, você por aqui? Pois é, enquanto você lê Ulisses debaixo de um sol nada irlandês, curtindo os chopes do Pingüim, eu me aqueço no microondas. Mande um beijo para a filhota.
Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.