04.09.07

Permalink Categorias: Comportamento, Cotidiano, Futebol   Portuguese (BR)

Bar não é sala de TV

Epidemia que sempre avança, a galope de sorrisos anestesiados que sempre aceitam, a TV chegou ao último recôndito da reflexão: o botequim.

Sorrateiros, os aparelhos foram se instalando no alto das paredes de azulejos brancos com a fingida inocência de quem não é dali, e só quer, no máximo, transmitir as frustrações de um ou outro clássico (não, cinéfilos, nada de filmes de Hitchcock, que nunca frustram, e sim partidas de futebol entre rivais tradicionais; ainda que, na prática recente, pouco ou nada tenham do ideal canônico que caracteriza o adjetivo).

Hoje, as TVs têm presença certa nos mais variados tipos de bar, atrapalhando, com sua hipnose emburrecedora, conversas, paqueras, primeiros beijos, planos de conquistar o mundo. E assim naufragam idéias para novos livros, filmes, discos, peças, partidos políticos, posições sexuais, e o cálculo mental de quantos chopes passaram pela mesa.

Dá um desgosto, deparar com TV em bar. Irritam, os monossílabos de quem me olha por cima do ombro, mais interessado no movimento labial do Tony Ramos ou da Camila Pitanga. Sim, imagino que seja complicado desviar a atenção do movimento de lábios da Camila Pitanga, mas há o sofá de casa para a novela; o bar é platéia de outros dramas e comédias.

Bares paulistanos que mimetizam os botecos tradicionais do Rio dão preferência à programação esportiva em suas TVs sem som. E se é mais fácil entender o porquê de transmitirem os jogos do campeonato brasileiro, para mim é de um absurdo risível (e veja que tenho o desgraçado vício do torcedor) que tais bares deixem os monitores apresentando os programas de debate esportivo. Como a TV permanece muda, o debate não existe, só a imagem de comentaristas excessivamente exaltados, defendendo este ou aquele esquema de jogo, ou tentando azucrinar um técnico derrotado no fim de semana.

O que esta pantomima contribui para o charme do bar? Não conheço ninguém que escolha o lugar onde vai beber de acordo com o comentarista esportivo a gesticular. Se este critério vingasse, eu haveria de escolher os que transmitem o programa do “imparcial” Roberto Avallone, com seus trejeitos de Chaplin imitando Hitler em O Grande Ditador.

Há outros bares, mais “culturais”, que apresentam DVDs de shows de música. Mas a pantomima se repete, pois o som quase nunca é o das cenas que se alternam na TV. E é de endoidecer, pois vemos Mick Jagger se contorcendo num palco enquanto ouvimos o último hit aeróbico da Ivete Sangalo. O contrário seria menos desagradável.

Escrevendo um artigo sobre os melhores botecos “escondidinhos” de São Paulo, destaquei três que, além de serem os melhores na minha opinião, coincidentemente não ligam TVs em todo canto: Bar Léo, Bar do Luiz Nozoie e Rancho Nordestino. Este último tem uma TV, sim, mas que só liga em final de copa ou luta do Popó. Todas as noites restantes são dedicadas tão-somente a seus caldinhos de fava, seus jabás em pedaço e ao bate-papo descompromissado, o passar descuidado das horas. Sem o grande irmão a observar seu público cativo.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink


Posts similares:
Querem acabar com os botecos!!
BOTECO É BOTECO
De bar em bar

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Rica

Concordo. Pra isso que inventaram o pack de cerveja: pra que você leve pra casa caso queira assistir TV enquanto bebe. No bar só serve pra te distrair do que podia ser uma boa conversa ébria. Vivo evitando levar gente em lugares com TV. E viva o Bar Léo!

PermalinkPermalink 05.09.07 @ 11:19



Comentário de: lupercio

Grande Alexandre!

Acertou na mosca.

PermalinkPermalink 29.01.08 @ 17:17



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

Busca

Categorias

Resumo deste blog XML

Clique aqui para ver essa página no formato RSS/XML O que é RSS?

powered by
b2evolution