19.08.07
Às que dormiram no meu ombro
Se a música nos remete a pessoas que marcaram ou mudaram nossas vidas, também o cinema teve esse efeito sobre mim. Provavelmente porque tenho sido um assíduo freqüentador de suas sessões, ao menos em relação ao cidadão comum.
Em meus dias de cinéfilo atuante, mantive uma média de quatro filmes por semana (no cinema, é claro); marcava-os em um caderninho, citando, além do nome da obra, seu ano de produção, o nome do diretor, a data e a sala em que a assisti. Mas vamos às pessoas.
Entrei na FAAP para fazer cinema. No primeiro dia de aula, conheci o Sérgio, que estudava publicidade. Passado um ano, em que aprendi pouco mais do que noções básicas de som no filme e história do cinema, desisti da aventura e me transferi para publicidade. Eu e o Sérgio começamos nossas carreiras de cinéfilos juntos. Saíamos correndo (literalmente) assim que os professores da segunda aula faziam a chamada, para chegar a tempo da sessão das dez. Começamos a freqüentar mostras, a ver sessões seguidas e a descobrir salas menos freqüentadas. A faculdade acabou e eu desisti de ser cinéfilo. Não combino com este tipo de compromisso, e o mesmo vale para outros assuntos da minha vida. Mas, enfim, deixei para lá.
O Sérgio continuou firme e forte, e hoje é a pessoa que eu conheço que mais entende de cinema. Nossos gostos divergem bastante, mas a amizade já dura doze anos, embalada em acaloradas discussões sobre música popular, saídas malucas e disputadas partidas de sinuca, em que ele consegue leve vantagem, apesar de alguns bons momentos de minha parte.
Meu namoro mais sério e mais longo também teve passagens memoráveis ligadas ao cinema. Eu era muito amigo dela, que era a ex de um amigo meu. Essa combinação de amizades nos aproximava, mas também criava obstáculos, embora houvesse olhares e insinuações sempre que estivéssemos juntos (e vivíamos grudados naquele tempo, fim da faculdade, como grandes amigos que éramos).
Numa tarde, acho que era outono, fomos assistir a Singles - Vida de Solteiro, do Cameron Crowe, e há uma seqüência em que a Bridget Fonda e o Campbell Scott (igualmente muito amigos no filme) se beijam e, após um momento de constrangimento, um dos dois (não me lembro qual) diz que "numa realidade paralela, seríamos amantes ardentes", ou coisa do tipo. Minha memória está afogada em álcool e som de pratos de bateria, o que me limita a precisão neste tipo de lembrança. Ela (a minha amiga, não a Bridget) comentou que pensara em mim naquele trecho do filme. Pensei com meus botões, com um sorriso, "só a Ilane para comentar uma coisa dessas".
Mas ela tinha razão. Poucos meses depois, éramos amantes ardentes. Tivemos um namoro de pessoas apaixonadas e que se entendiam da forma como só os grandes amigos são capazes.
Até meu pai, sempre tão ausente às questões de lazer, teve o cinema como caminho de nossa aproximação, talvez até mais do que os jogos do Palmeiras. Frank Sinatra (em O Homem do Braço de Ouro), Paul Newman (Marcado pela Sarjeta, Gata em Teto de Zinco Quente), Steve McQueen (Fugindo do Inferno) e Montgomery Clift (Um Lugar ao Sol) foram testemunhas de nossos momentos de maior união, ainda que assistíssemos a fitas de vídeo (meu pai não lidava com a idéia de ficar duas horas preso em uma sala, sem o cigarro que o levaria à morte).
Hoje, diminuí minha constância no cinema. Tenho me perguntado se as horas que passo assistindo às histórias de outros (fictícias ou não), na sala escura, representam um desperdício de minha própria história, ou se, como dizia um dos personagens de As Coisas Simples da Vida, o cinema permite estender os limites de nossa vida, multiplicando as experiências a que, de outra forma, não teríamos acesso. Não sei. Juro que não sei, mas ainda descubro.
* * *
Este texto, que publiquei no saudoso Spamzine, em 2001, foi o que me deu a idéia de escrever o artigo relacionando o cinema e meu pai, que rendeu tantos comentários generosos.
Em tempo, o Sérgio do texto é meu camarada Sérgio Alpendre, com quem criei a Revista Paisà em 2005. A amizade já ficou maior de idade, está nos 18 anos de provocações, mesas de bares e uma sinuquinha de vez em quando. A Ilane casou faz tempo, mora nos Estados Unidos com marido e duas crianças. E voltei a ver filmes aos montes, por vício, paixão ou a curiosidade irresistível do voyeur. Ontem foram dois Truffauts no DVD. E a semana promete.
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Comentários:
O cinema as vezes (como foi o seu caso) diz coisas que não ousariamos pronunciar, como nos livros, o cinema desata os nós.
Abraços
Marcola.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex