12.08.07

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Meu olhar vem de um outro olhar (para o Dia dos Pais)

Pai - PC

Meu pai era do tipo quieto, desses que não chamam a atenção para si e, em festas com gente desconhecida, se escondem pelos cantos. Podia ficar horas olhando o movimento da rua, fumando seu cigarro e pensando na vida. Quando não encasquetava com um assunto que lhe interessasse, e aí gastava toda a conversa armazenada, era homem de grandes silêncios, geralmente preocupado com dinheiro ou simplesmente sonhando sonhos que não compartilhava.
Essa sua natureza pode dar a impressão de que facilitaria a vida de um filho adolescente, já que é fase em que não queremos senhores que se metam nos nossos planos de mudar o mundo. Mas, para este filho, o silêncio era também distância, algo que não entra muito na cabeça existir entre genes tão próximos.
Mas, se a felicidade está contida em momentos fugazes, passei-os, muitos, com meu pai em silêncio, um jornal entre nós, trocando cadernos, entre movimentos de aprovação ou inconformismo. Éramos os primeiros a levantar, em determinada fase da escola, e o que se ouvia era a chaleira fervendo, pronta para o café, e as páginas do jornal, ásperas entre os dedos.

Um só destino
Felicidade semelhante descobri com os filmes que meu pai enfrentava a madrugada para acompanhar, ele que sempre acordava tão cedo. Na procura de laços, tornei-me insone tanto quanto me foi possível, e assistimos juntos a muito John Sturges, principalmente Fugindo do Inferno e Sete Homens e Um Destino. Também foi ele quem me apresentou a David Niven em Os Canhões de Navarone, e a Lee Marvin em Os Doze Condenados. É fácil perceber que meu pai, que fora cabo no exército apesar de ter a altura do Maradona, era apreciador de filmes de guerra. E que filmes...
Analisando seus favoritos, percebo que a maioria apresentava um grupo de pessoas em situação de dificuldade diante de um mal maior e dominante, geralmente procurando referências em terra estrangeira, em uma luta que nem sempre tinha final feliz. Se parece metáfora de sua vida, de um solitário entre as gentes que teve tantos nós a desatar sozinho, há um ângulo que não se encaixa, pois olhava para o futuro como certo de uma redenção, de terminar seus dias acariciado pela brisa de uma praia em Passárgada.
Mas há conexões. Dos cowboys que revivem o destino dos sete samurais de Kurosawa, apenas os personagens de Yul Brynner e Steve McQueen terminam o filme com vida. Fascinou-me, entretanto, o personagem de Robert Vaughn, um pistoleiro que perdeu a coragem, escondendo sua fragilidade na pouca escuridão de um México solar.
Entre os fugidos do outro filme de Sturges, apenas McQueen volta à bola que atacava contra a parede da cela. Os outros são parados a tiros, um ou outro escapa. Se adivinhassem o horror dos campos de concentração de A Lista de Schindler, sentar-se-iam em cadeiras de balanço esperando pelo fim do conflito. A relação com seus vigias, se não é da cordialidade de A Grande Ilusão, de Jean Renoir, está longe de ser a de um inferno em chamas.

Velhos olhos azuis
Provavelmente, o filme que mais reuniu aspectos apreciados por meu pai foi O Expresso de Von Ryan. Estão lá não apenas o ambiente de guerra e um final que não se pode chamar de feliz, mas seu maior ídolo nas telas e na agulha da vitrola: Frank Sinatra. Se alguém lhe jogasse na cara que o sucesso por Assim Caminha A Humanidade só foi possível porque Sinatra ganhara o papel com a ajuda de padrinhos criminosos, meu pai responderia com um sorriso silencioso, de quem preferia o entretenimento a buscar uma discussão para o que já está explicado.
Meu pai não era de polemizar. Era de gostar ou não gostar, de assistir a seus filmes de guerra em paz, sem discutir com quem não gostasse. Não sentaria a uma mesa de cinéfilos na Augusta, ainda que houvesse cerveja gelada e grandes orquestras ao fundo.

Histórias de vícios
Quando fiquei adulto, os filmes e a música substituíram de vez os jornais da manhã. Esforcei-me para encontrar uma cópia em vídeo de O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger, em que Sinatra, novamente ele, interpreta um baterista de jazz viciado em drogas que sofre ao lado da esposa inválida. Era sonho antigo de meu pai rever este filme que assistira ainda moço, e do qual tinha as melhores lembranças. Mas, curiosamente, quando o reviu, não teve muita certeza de ter gostado. Ficou com uma expressão meio apagada, de quem preferia a lembrança nublada à verdade daquele filme. Acho que gostei bem mais que ele.
Quando já exibia a fragilidade da doença, embora ainda sem diagnóstico, foi comigo assistir a Além da Linha Vermelha; era final dos anos 90. Eu imaginava, equivocado novamente, que seria um impacto para ele, voltar ao cinema diante de um filme com Sean Penn e outras estrelas, e de um gênero que ele tanto apreciava. Mas também não acertei daquela vez. O filme era aborrecido, meu pai estava nervoso para sair e fumar, e a tosse constante o envergonhava. Depois dos 40, raramente entrava no cinema, pois lhe era difícil passar duas horas sem o cigarro que o mataria.

Escrevendo sobre meu pai
Esta noite, uma coleção de CDs de Sinatra na estante, "Tie A Yellow Ribbon Round The Ole Oak Tree" em volume bem alto na vitrola, que ainda conservo, noto que o som do teclado do computador é o único dissonante de um instante em que todo o resto, ainda que reverbere, pertence aos silêncios de meu pai.
É nele que penso ao notar gente falante e cheia de vida e de si, tão diferente do seu jeito de observador, platéia das maravilhas e porcarias do que passamos. É em meu pai que penso quando colho meus sucessos e insucessos, comparando-os aos seus e imaginando se sinto perdas e ganhos como ele os sentiria. E é em meu pai que penso nas noites insones, de filmes que se repetem, falham ou explodem em grandes sensações de prazer, o prazer silencioso do espectador. É nele que me espelho, por quem me cobro ou cobro dos outros. Sou seu filho e sua imagem desbotada numa película que aos poucos se desfaz.

* * *

Publiquei este texto, pela primeira vez, na edição número 1 da Revista Paisà. A ilustração lá em cima é do PC.

* * *

Um beijo, pai.

Pai0002

por Alexandre Carvalho dos Santos 8 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

É lindo seu texto, reflexo da sua relação com seu pai. Também assisti a muitos filmes com meu pai, deitados ambos de bruços na cama, acotovelados no travesseiro. Eram filmes e jogos de futebol.
Obrigada pelo texto.

PermalinkPermalink 12.08.07 @ 19:24



Comentário de: Luciana Cattony · http://www.plantabaixa.wordpress.br

Que lindo Alexandre! Parabéns pelo belíssimo texto, pelo pai e pelas lembranças que estão tão vivas na memória! Fiquei comovida e acredito que estamos ETERNAMENTE ligados àqueles que amamos. Abs, :)

PermalinkPermalink 12.08.07 @ 22:49



Comentário de: Ataliba · http://www.ataliba.eti.br

Caramba, é até difícil não se emocionar com o seu texto.
Muito bonito mesmo :-)

PermalinkPermalink 13.08.07 @ 08:40



Comentário de: Eu

Olá Alexandre. Você conseguiu expressar sem piegas o seu texto. Como o nosso amigo acima menciona, seria impossível não se emocionar com o seu texto. Parabéns !

PermalinkPermalink 13.08.07 @ 09:42



Comentário de: gérson

Alex, bela homenagem a seu velho. Ele e meu pai sabem não mais de ouvir falar os feitos de Julinho Botelho, Mazolla, Rodriguez e demais craques da antiga. Faltou menção às agruras e feitos dessa parceria em verde e branco. Tudo bem. Relevada a falta pela incerteza. Talvez "Boleiros" não tivesse saído em vídeo antes da partida do palestrino pai. Arredio das salas de cinema obviamente ele já se tornara. Abraço.

PermalinkPermalink 14.08.07 @ 01:29



Comentário de: Carol

Esse texto é tão lindo que merecia mesmo o repeteco. Adorei reler e relembrar o tio, que entre outras aulas ministradas na mesa da cozinha me ensinou a lavar um copo direito, do que me valho até hoje.

PermalinkPermalink 15.08.07 @ 09:04



Comentário de: Marcos

Que lembranças e imagens bonitas você guarda de seu pai. É de dar orgulho a qualquer pai saber que seu filho tem por ele este sentimento.

Muito do que fazemos durante a vida depois que temos filhos é para eles, mesmo que seja para ficar apenas na lembrança.

Este é o motivo da vida, da procriação e das gerações, o sentimento acumulado que passa na formação de pais para filhos e que fica guardado em algum canto de nosso HD, mais tenha certeza fica e pode ser resgatado.

Seu pai não pode ver o neto, mais tenho certeza que seu filho guardará boas lembranças do pai e de tudo que você contar a ele sobre o avo.

Cara você é especial.



Beijos de seu pai.



Marcos Falcon.

PermalinkPermalink 24.08.07 @ 23:11



Comentário de: Sandra

Alexandre!!!
Sabe, nunca tive grandes afinidades nem proximidades com você. Te achava, na minha imaturidade e cegueira, meio quieto demais, meio afastado demais... achava-o cheio de um mistério e de uma impenetrabilidade muito mais visíveis do que estes que descreve em seu pai.
Hj, 20 e tantos anos depois, rendi-me ao Alexandre Carvalho. Quem sabe porque esteja amadurecida, caminhando para a idade da razão - que não combina muito comigo - quem sabe porque eu escreva muito e admiro um texto bem escrito. Mas acho que, lá no fundinho, é porque eu gostava do seu pai. Apreciava aquele jeito introspectivo e silencioso dele. Gostava qdo, do nada, ele sorria. E isso era raro, portanto precioso.
E o texto do filho retrata tão bem o pai que eu posso visualizar em minha mente a rua da feira numa sexta-feira à noite e seu pai voltando da padaria com um saco de pão ou um litro de refrigerante, fumando seu cigarro... parecendo alheio aquele mundo espalhafatoso e medíocre ao seu redor. Certamente caminhando em direção à sua cozinha onde estariam todos vcs... tão diferentes e tão iguais, reunidos para jantar.
Seu texto é muito bonito. E saiba que, com o passar dos anos, acho que todos nós vamos ficando mais silenciosos. Espero que o seu silêncio seja sempre entrecortado pelo ruído das teclas. Assim, de qdo em qdo, seremos premiados com textos como este!
Parabéns!

PermalinkPermalink 15.10.07 @ 22:39



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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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