31.07.07
Antonioni, Bergman e o silêncio de Deus

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman
Bergman e Antonioni tinham pontos em comum: evidenciavam o labirinto em que nós nos metemos. Fosse diante da fragilidade de nossa existência, para o sueco, ou diante da complexidade de comunicação no mundo moderno, para o italiano. Ambos refletiam sobre o homem do pós-guerra, a violência da realidade com que esse homem tem que lidar. Ambos expressavam de forma genial a solidão de um homem sem deus, sem utopias. Ambos investigavam a sexualidade por um ângulo psicológico e perturbador, e profundamente artístico.
Conheci primeiro o Michelangelo Antonioni de Zabriskie Point, ainda adolescente, o que me levou a Passageiro: Profissão Repórter e Blow-Up. Minha geração, adolescente nos anos 80, tinha uma relação de certo fascínio diante da música e dos filmes dos anos 60, quando estas obras levaram Antonioni ao rol dos diretores intelectuais.
Esses filmes ainda me surpreendem toda vez que os vejo, mas Ingmar Bergman foi mais marcante na formação de meu repertório cultural. Seu questionamento sobre a solidão humana diante do silêncio de Deus, a investigação sobre os sentimentos diante de uma mortalidade sem algo a mais foram também objetos de minhas reflexões antes que tivesse visto meu primeiro Bergman.
Há os filmes de puro entretenimento, que nos dão leveza à alma, e há os de reflexão. Estes dois diretores, mortos ontem, estão entre os maiores criadores dos filmes que nos fazem ir a fundo na condição humana e em sua restrição terrível, no caos do pensamento. Seus personagens nos fazem olhar para dentro, identificando nossos próprios questionamentos com os deles. Tornam a alma mais carregada, mas nos fazem parar para refletir, algo raro na superficialidade desses tempos ligeiros.
Que alma?, zombaria Bergman.
Posts similares:
Trivia cinematográfica
Morreram um comedor e um voyeur
Michelangelo Antonioni (1912-2007)
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
o curioso é que no dia da morte de Berman eu tinha levado para a sala de aula um dvd do "Morangos Silvestres" para emprestar a uma colega de sala!
Será que eu tive culpa? Iriam querer me linchar.
mas enfim, ainda não assistí o Sétimo Selo. Preciso ver.
A propósito, aqui é o amigo da Mariana que trabalhou na Paisá. Como está o bebe dela?
Mande abraços pelo Gustavo Serrate da AIC.
Pelo contrário, acho que o fato de você ter emprestado o filme ao seu amigo só fez com que Bergman nascesse de novo, pois sua obra, seu olhar artístico tão único, está chegando a mais pessoas graças a você.
Cara, falei com a Mari na semana passada. O bebê, a Ana Clara, estava muito bem, sorridente como a mãe. A Mari vai passar um tempo em Ribeirão Preto, onde mora a família do maridão, e depois volta para São Paulo.
Grande abraço.
Deixe seu comentário:
Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex