13.07.07
Paris, Eu Te Amo

Natalie Portman na cidade do amor
“De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”, afirma Marco Polo ao grande Kublai Khan, em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Os organizadores de Paris, Eu Te Amo parecem compartilhar desta reflexão. Pois a beleza das ruas e praças de Paris é coadjuvante de pessoas à busca de respostas, de decifrar o lugar de cada uma nessa cidade ou em todas as cidades. Parisienses, americanos, muitos, muçulmanos e latinos interagem neste filme feito de pequenos filmes, e o resultado desta multiplicidade de olhares é mais coeso do que a idéia poderia sugerir.
Confesso que li as críticas da imprensa especializada antes de assistir ao filme, e minha impressão foi melhor que a da maioria. Filmes de episódios encomendados a diretores diversos, de modo geral, tendem à irregularidade. Se Paris, Eu Te Amo não foge totalmente à regra, chega perto desse trunfo. Pois, em seus altos e baixos, há poucos baixos, e a grande maioria dos filmes, de cerca de cinco minutos, é boa, deixa um sorriso no rosto ou a gostosa sensação de querer ver mais.
O êxito do conjunto está, principalmente, em cumprir com o objetivo da produção: o de retomar uma imagem de leveza romântica, positiva, ligada à cidade, no momento em que a Paris da vida real passa por violentos protestos de rua.
São histórias de amores, mas não necessariamente entre um casal, não necessariamente bem-sucedidos. Apesar de não ter ganhado reações entusiasmadas da crítica, o curta de Walter Salles e Daniela Thomas é um dos melhores, pela sutileza com que a atriz Catalina Sandino Moreno (de Maria Cheia de Graça) revela a preocupação de uma mãe com seu filho que deixou no berçário, ocupada em tomar conta do bebê de uma família rica. A delicada canção com que coloca para dormir o filho da patroa é a mesma com que ninara seu filho antes de sair para o trabalho, mas sua boca, seus olhos, seu movimento de cabeça demonstram que seu coração, naquele momento, está a muitos quarteirões daquele berço rico. Aquela criança a que precisa dedicar afeto e atenção não é a que deveria ser alvo de seus carinhos. E uma mudança de olhar gera toda uma reflexão social.
É tocante, o rápido flashback do personagem cego de Melchior Beslon, que revê sua história romântica com a aspirante a atriz interpretada por Natalie Portman. Remete, com a resignação dos que sobrevivem a um desenlace amoroso, aos inícios primaveris, ao conforto, ao abrandamento e à rotina dos relacionamentos, no episódio de Tom Tykwer.
Ben Gazzara e Gena Rowlands fazem um ex-casal deliciosamente cínico no curta à Cassavetes dirigido por Gerard Depardieu. Maggie Gyllenhaal sofre a leve desilusão da possibilidade não realizada da paixão, no de Olivier Assayas.
O filme é cheio de pequenas ilusões, de ambigüidades, de personagens que se mostram, no fim, diferentes do que imaginávamos, como o de Nick Nolte, no curta de Alfonso Cuaron, e o do garoto que recebe uma cantada homossexual, no de Gus Van Sant. Mais sutil ainda, o do avô muçulmano, que surpreende ao convidar o garoto cristão para acompanhar o passeio da neta, no episódio de Gurinder Chada.
Paris, Eu Te Amo proporciona o que esperamos das melhores comédias românticas: saímos da sessão na vontade de uma taça de vinho, de viver esses amores leves e passageiros, de passear pela cidade à noite, abertos ao acaso fortuito. De respirar os ares da Paris de que nos falaram os escritores da Geração Perdida e todos aqueles que a celebraram como a cidade do amor.
Posts similares:
declarações de amor
frankie 2007 - filme do ano
paris, te amo
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Pô, vc não gostou do episódio dos Irmãos Coen? Achei demais.
Desculpa qualquer coisa... muito bom ler tua crítica!
Nasha
Tem toda a razão. Era o avô. Obrigado pela correção. Vou acertar no blog.
Um grande abraço.
Deixe seu comentário:
Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex