02.07.07
Billy Wilder, e o resto é loucura

Billy Wilder, com Jack Lemmon e Shirley MacLaine
Deliciosa, a leitura da biografia do diretor Billy Wilder, escrita pelo crítico de cinema e teatro da revista Spiegel, Hellmuth Karasek. Não se trata de uma biografia imparcial, pois é fruto das conversas do autor com Wilder, dos palpites do diretor no texto (foi escrito anos antes de sua morte) e da evidente fascinação de Karasek pelo criador de Quanto Mais Quente Melhor. Em muitos dos trechos, não sabemos mais se o narrador é o escritor ou o gênio do cinema, neste livro de tantas tiradas cômicas.
Os capítulos refletem a fina ironia do diretor, um judeu da Europa que chegou a Hollywood fugindo de Hitler e usava o humor leve para tratar de temas pesados e, assim, balançar o dedo na cara da hipocrisia, da censura e da patética moral americana dos anos 40 e 50. Mesmo quando seus filmes não eram comédias.
Sua primeira idéia para a abertura de Crepúsculo dos Deuses, uma de suas obras capitais, foi colocar William Holden num necrotério, onde os defuntos conversariam tranqüilamente sobre as causas de suas mortes. As cenas foram filmadas, mas acabaram cedendo lugar à grande tomada de Holden morto na piscina de Norma Desmond, seu rosto lívido filmado do fundo de uma piscina de verdade graças a um espelho.
Por que ler um livro sobre Wilder? Em primeiro lugar, porque ele foi um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos. Para ficar apenas nos mais célebres entre seus longas, cito, além de Crepúsculo dos Deuses, Se Meu Apartamento Falasse, O Pecado Mora ao Lado, Quanto Mais Quente Melhor, Farrapo Humano, Sabrina e A Primeira Página.
Mas, além disso, Wilder foi um exímio contador de histórias, um criador de gags, que exagerava um pouco aqui e ali, mas jurava que não mentia. Disse que seu primeiro contrato para fazer um filme foi assinado por um produtor que se escondeu em seu apartamento, fugindo de um marido furioso. Ou o produtor assinava o contrato ou era posto para fora.
Com tiradas bem humoradas desse tipo, disfarçava o orgulho de ver atrás de si um dos trabalhos mais sólidos da história do cinema, que começou em roteiros geniais, como o de Ninotchka, filmado por Lubitsch (ídolo de Wilder), o filme em que Greta Garbo ri.
Mas não viveu apenas para rir e fazer com que os outros rissem. Na época da caça às bruxas, houve um juramento de lealdade no encontro do sindicato dos diretores de cinema, em que todos deveriam aderir à causa da “limpeza anticomunista”, prometendo dedurar colegas em troca da manutenção de seus empregos. Dos quase duzentos diretores presentes, apenas dois tiveram a coragem de publicamente levantar a mão contra, negando-se a jurar o absurdo que fosse: John Huston e Billy Wilder.
Após a Segunda Guerra Mundial, o diretor recebeu uma carta da Paramount, para quem trabalhava há cerca de vinte anos, e com a qual havia obtido seus maiores sucessos até então. Um executivo lhe dizia que a companhia tinha intenção de lançar Inferno no. 17 na Alemanha, que vinha se tornando um novo mercado rentável para Hollywood. Para não ferir os sentimentos do público alemão, pedia que o diretor fizesse uma alteração, pois no final do filme o traidor se revela um nazista infiltrado. Com a palavra, Wilder: “Respondi a ele que os nazistas haviam matado minha mãe, minha avó e meu padrasto em Auschwitz, e que não trairia meu filme diante da perspectiva de ganhar uns reles dólares na Alemanha. Aliás, nunca mais trabalharia para a Paramount se o executivo não se desculpasse pela sugestão que me fez”.
Nunca pediram desculpas. O diretor deixou de fazer filmes para a produtora.
Billy Wilder morreu em 2002, aos 95 anos, de pneumonia.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex