15.06.07

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Os Mutantes - Encontros com Arnaldo Baptista

Meu amor pelo som dos Beatles da Pompéia começou na época da faculdade, e a culpa é do meu sócio na criação da Revista Paisà, Sérgio Alpendre, que na época era colecionador recordista de discos de vinil, depois de CDs, até, finalmente, partir para os recordes de filmes anotados em sua memória de Barsa.

Eu já tinha uma coletânea chamada Algo Mais (nome de uma música que inspirou o batismo de nossa editora), mas foi o Sérgio quem me chamou a atenção para a genialidade do Arnaldo Baptista, de modo que logo nos tornamos macacas de auditório dos Mutantes, ainda que eles não se apresentassem mais em auditório nenhum.
Na época, cantávamos juntos "Virgínia" nas mesas de botecos e de onde estivéssemos, o que era apenas um aquecimento para que meu amigo soltasse seu festejado "dó" (a nota musical, um dia me estendo sobre isso), e o resto dos faapianos entrasse em delírio transcendental.

arnowdo

Uma vez, começo dos anos 90, descobrimos que o Arnaldo tocaria num show do Sesc Pompéia depois de anos de reclusão, tendo A Banda do Quarto Mundo, da radialista Sônia Abreu, fazendo abertura, e lá fomos nós para a primeira fileira do teatro, mal acreditando que o profeta descera da montanha.
Depois de uma seqüência interminável de ritmos "world music" da banda de abertura, Arnaldo entrou: tímido, meio sem jeito. Sua voz saía fraca, sua participação durou uns vinte minutos, se muito, mas sua interpretação ao piano para "Benvinda" e "Sitting on The Road Side" foi tão poderosa que não aceitamos sair do Sesc sem falar pessoalmente com ele, de modo que logo estávamos no camarim, de joelhos, pedindo a benção ao mestre.
Arnaldo nos contou que estava escrevendo uns três livros ao mesmo tempo, com temas que iam da física quântica aos amplificadores valvulados, e tivemos a certeza de que o homem é um iluminado. Mas Sônia Abreu rapidamente pediu que saíssemos: "Ele pira com tanta gente".

Nosso segundo e último encontro com o Buda do rock brasileiro foi numa vernissage, pouco tempo depois, quando expôs seus quadros na pizzaria Cristal. Chegamos bem antes com outros amigos (incluindo o fotógrafo Alexandre Xavier) e ficamos tomando nossos chopes, numa preparação espiritual para a chegada de Arnaldo. Quando o Buda chegou, todos os que estavam comportados em suas mesas se levantaram, e o local ganhou aquele ambiente de festa, com o pessoal se misturando e a chegada de artistas. Corri sério risco de ganhar um chega-pra-lá do cantor Paulo Ricardo, pois lhe estendi a mão sem tirar os olhos da Luciana Vendramini, aquele sonho em forma de mulher.

Mais uns chopes para criar coragem, e eu e o Sérgio fomos roubar flores num jardim vizinho para oferecer ao Arnaldo. Sentamos ao lado dele, ouvimos suas sábias palavras, tiramos foto, conhecemos dona Clarice, a mãe dos Mutantes (dele e do Serginho Dias), até que a bateria foi acabando e fomos para casa.
Um pouco antes da saída, percebemos um burburinho: um garçom que discutia por causa da conta com o pessoal da banda Yo-Ho-Delic (imitação desastrosa de Red Hot Chili Peppers, acho que não existe mais). O que aconteceu: enquanto conversávamos com o Arnaldo, os eleitos para o futuro do funk metal se apoderaram das nossas mesas e, já que ficaram com o conforto, ficaram com a conta dos nossos chopes também... e não eram poucos.
Claro que aceitamos a gentileza.

Visite o site do Arnaldo Baptista: www.arnaldobaptista.com.br

Texto originalmente publicado no site da Revista Paisà

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Nirton Venancio Email · http://www.olharpanoramico.blogspot.com

Meu caro, encontrei sua rolleiflex pesquisando sobre Chet Baker, e li um texto maravilhoso seu sobre meu ídolo! Aliás, tudo aqui que você escreve é a oitava maravilha neste mundo blogueado. Tive o interesse e prazer recompensado de ler todas as postagens anteriores. Parabéns!
E somente agora liguei seu nome à Paisà, da qual sou assinante (espero que saia logo a número nove).
Forte abraço!

PermalinkPermalink 15.06.07 @ 21:22



Comentário de: beto Email · http://cinedobeto.blogspot.com.br

Mais um texto porreta, Alê!!!! Não sabia desta históris dos chopps, muito legal.

Nirton, o dono deste blog (na minha humilde opinião) é também a alma poética da Paisá.

PermalinkPermalink 16.06.07 @ 14:07



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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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