13.06.07
Os Mutantes - Arnaldo Baptista redivivo

Arnaldo no centro, entre Dinho e Sérgio Dias
Ah, perdi um show dos Mutantes. Tocaram no fim de semana em São Paulo, no Citibank Hall, antigo Palace, onde vi um dos melhores shows de minha vida, com Caetano comemorando seus 50 anos num Circuladô inesquecível. Jurava que não perderia os Mutantes aqui por nada, e estive entre os mais desequilibrados da apoteose nos jardins da Independência, quando Sérgio e Arnaldo surgiram das cinzas, e de gloriosas apresentações européias, para nos lembrar de um tempo em que o rock brasileiro era jovem e genial; pelo menos o rock dos irmãos Baptista e de Rita Lee. Diferentemente da época em que os malucos saíam pelo interior em produções mambembe, misturando Beatles, Yes e ópera na cachola dos jecas, agora é tudo muito bem produzido: Serginho conta com uma megabanda impecável na reprodução dos elaborados arranjos que os Mutantes criaram na passagem dos 60 para os 70, movidos a LSD, deboche e a cabeça mais brilhante que nosso rock já viu explodir: Arnaldo Dias Baptista.
Pois Arnaldo, agora, é a dissonância desta produção bem azeitada. Dá a entender que é o único para quem o tempo passou, e renasce diferente do dínamo de talento, autor de Loki?, obra-prima da fase pós-Mutante. Agora recolhe os cacos de um passado desregrado e os combina em diferentes mosaicos, frágeis, mas ainda ricos na oferta, como se viu no tocante Let It Bed. Serginho dormiu numa cápsula do tempo, em meados dos anos 70, e jurou que só despertaria desta hibernação quando Arnaldo e Rita chegassem a um acordo, improvável, sobre a volta dos Mutantes. Hoje, fez as pazes com o irmão, tomou as rédeas da banda, é o maestro desta volta, cantando e solando a guitarra com o virtuosismo de sempre. Mas os olhos da platéia estão no outro canto do palco, na figura de movimentos cadenciados e voz esforçada, esperando pelo rompante de energia em que Arnaldo Baptista soltará eletricidade pelos olhos, transformando uma noite de boa música em uma experiência transcendental. Como ouvir um disco dos Mutantes pela primeira vez.
Mas perdi este último show. Estava em lua-de-mel, o que é mais do que motivo suficiente. Espero, como fã desequilibrado que sou, um disco de inéditas. Mesmo que me pareça um objeto de desejo dos mais improváveis. Só então saberei se celebramos o passado ou vislumbramos algo mais.
Acesse: www.arnaldobaptista.com.br
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"Diferentemente da época em que os malucos saíam pelo interior em produções mambembe, misturando Beatles, Yes e ópera na cachola dos jecas, agora é tudo muito bem produzido: Serginho conta com uma megabanda impecável na reprodução dos elaborados arranjos que os Mutantes criaram na passagem dos 60 para os 70, movidos a LSD, deboche e a cabeça mais brilhante que nosso rock já viu explodir: Arnaldo Dias Baptista."
Não sei quem são estes malucos a quem você se refere. Vi uma estadia da banda no Teatro Casa Grande, Leblon, em 1969. Não era mambembe nem nada nem Rio de Janeiro é jeca.
Em segundo lugar, a Lágrima Psicoldélica divulgou o show. Console-se; há DVD do show no Barbican, Lendres, ano passado, com som limpo e tudo mais.
Também acho o Arnaldo genial. Os Mutantes são um ponto de referência da Tropicália. Entretanto, os arranjos ouvidos nos shows são os originais do carioca Rogerio Duprat. Sergio Dias explica por que fizeram assim. Réplica de orquestra seria complicado.
Não moro no Brasil. Não pude ir ao show em Belo Horizonte, no dia de Tiradentes, quando estava em Ipanema. Sigo a trajetória d"Os Mutantes" desde 1968. Tinha 16 anos, Sergio 17, Arnaldo 19, Rita 20. Não suporto culto a personalidades. Arnaldo reinventa-se? Seus parabéns. Serginho ainda é acid rocker? Seus parabéns também. Tudo em perspectiva, os três originais, mais o Dinho e Zela Duncan estão de parabéns por terem posto a Tropicália de volta no mapa. Rogerio Duprat ri de tudo isso com o meu primo H.O. e ano que vem teremos festas do interior ou não pelos 40 anos da Tropicália.
Perdoe-me o comentário extenso.
Quanto às produções mambembe, refiro-me à época em que a banda decidiu excursionar por cidades do interior, tocando em cima de caminhão, levando seu rock original e, portanto, impactante para pessoas que mal sabiam o que se passava na música além do padrão AM. Tocaram em grandes casas do Rio, claro, de São Paulo, lógico, e até em Paris. Mesmo após a saída de Rita e Arnaldo, o nome Mutantes, que Serginho insistia em carregar, provocava filas no Teatro Bandeirantes. Mas aí mal tinha a ver com o som que identificamos como mutante. Era um progressivo que não deixou saudade.
Quanto aos arranjos, não era só do maestro Duprat, pois tinha a mão de Arnaldo Baptista em tudo. Aliás, Duprat, que já trabalhou com Caetano, Gil e outros medalhões, declarou em entrevista que Arnaldo foi o músico mais criativo com o qual compartilhou invenções musicais em toda a sua vida.
Sobre o show de Londres, eu tenho o DVD, mas tive a felicidade de ver a banda ao vivo, no aniversário de São Paulo, experiência arrebatadora.
Valeu!
Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.