23.05.07

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Ladrões de fogo

chet baker
Chet Baker e uma musa do jazz

Visionário, criativo, talentoso... Prometeu, herói trágico da mitologia grega, não era saxofonista de um sexteto de Miles Davis, mas era tudo isso, e um belo dia resolveu roubar o fogo dos deuses para presentear os homens, inventando os humanos que somos, senhores de nossos próprios caminhos, cópias imperfeitas de divindades igualmente imperfeitas. Essa ousadia, entretanto, lhe custaria caro. Foi condenado a uma eternidade de agonia, tendo seu fígado devorado diariamente por uma águia, que voltava no dia seguinte e no seguinte, e no seguinte. Esta dor interminável de Prometeu contaminaria seus herdeiros legítimos, os músicos de jazz, esses ladrões do fogo da inspiração, sofredores de uma melancolia que precisa ser aplacada, ainda que da maneira mais dolorida possível. Dor nascida para curar a dor.

Billie Holiday teve a voz, a carreira e a vida destruídas pela heroína, e morreu como indigente apesar de ter reinado em sua época como a voz do jazz, idolatrada por gente como Frank Sinatra, que partia para a briga sempre que alguém falava alto num de seus shows. Anita O’Day fez de tudo para seguir seus passos, tanto no brilho como cantora como nas overdoses. Mas a mulher é casca grossa, e um capricho dos deuses fez com que resistisse aos casamentos mal-sucedidos e aos maus hábitos de quem acorda e vai dormir assombrada pelos fantasmas do vício. Ganhou fama de indestrutível.

Charlie Parker, o grande revolucionário do be-bop, figura emblemática de uma geração genial, tornou-se viciado em drogas aos 15 anos, e aos 22 já era expulso de um conjunto por causa de uma overdose. Um ano antes de morrer de complicações relacionadas ao vício, aos 34 anos, o Bird, como era chamado, tentou o suicídio duas vezes. Flertava com a morte, pois seu gênio original e arrebatador não cabia na vida.

Dos músicos do jazz que viviam com uma seringa ao alcance das mãos, Chet Baker é um dos mais marcantes, já que sua decadência física ficou estampada para sempre num rosto que, na juventude, era o de um galã de cinema. Antes de morrer, após cair da janela de um hotel em Amsterdã, Chet já havia perdido os dentes e aparentava uns trinta anos a mais que sua idade real. O trompetista mais cool do planeta, cantor suave de canções suaves como “My Funny Valentine” e “Heart and Soul”, passava suas tardes apanhando de traficantes, mendigando, desesperado na busca de um derradeiro pico de alívio.

Esta dor, cantada de forma perfeita por Billie Holiday ou espalhada no ar pelo sax de Charlie Parker, ainda toca os corações dos ouvintes de jazz, do grande jazz, que os astros de um tempo mais dolorido deixaram para as novas gerações, dos rostos bonitos e aparentemente saudáveis de Diana Krall e Jane Monheit. A beleza desta dor influencia cada interpretação, pois está no DNA dos músicos de jazz, dos experimentadores da invenção, estes semideuses.

A águia de Prometeu continua a assombrar o Cáucaso.

por Alexandre Carvalho dos Santos 4 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Essa foto é LINDA!

PermalinkPermalink 24.05.07 @ 00:01



Comentário de: Carol Email · http://www.leftoversdavida.blogspot.com

Ah, vai se foder! Vai escrever bem assim lá longe, lá na minha casa! You went right into the mood, man! Demorou pra chegar um post novo, mas valeu esperar, ah como valeu...

PermalinkPermalink 24.05.07 @ 08:36



Comentário de: beto Email · http://cinedobeto.blogspot.com

Alê, você huminha os outros pobres mortais, que tentam escrever algo. Vá se ferrar, bicho. E a foto é tão bela quanto o texto.

PermalinkPermalink 24.05.07 @ 14:38



Comentário de: Alexandre Carvalho dos Santos Email · http://www.interney.net/blogs/rolleiflex/

Mad Dog, meu caro, foi a época em que o pelotão de elite SSB julgava que eu andava comendo o pão que o diabo amassou na Legião Estrangeira. Fui doutrinar os aprendizes de jornalistas, quando não cabulava aula para assistir aos filmes do finado Cine Gazeta.

PermalinkPermalink 26.05.07 @ 13:08



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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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