08.05.07
Mariana Aydar - Uma apresentação
![Mariana e Thalma no palco[1]](http://farm1.static.flickr.com/210/490326367_1fdda50a15.jpg)
Mariana Aydar (à esquerda) com Thalma de Freitas
A desconcertante impressão de ver uma estrela nascendo. Saberemos reconhecê-la? Medir sua grandeza num primeiro olhar? Será um cometa febril, mas fugaz? No caso de Mariana Aydar, parece que não. O show que ela apresentou no Auditório Ibirapuera, no último final de semana, revelou uma grande cantora, bem equilibrada entre a tradição e a modernidade, que tem nas mãos todas as possibilidades, a permanência e a relevância a centímetros dos dedos.
Escolhas de repertório e banda de tirar o chapéu. Digo o mesmo dos convidados selecionados para essa seqüência de shows: Céu, Roberta Sá, Thalma de Freitas, Eduardo Nazarian, BiD (Funk Como Le Gusta), Leci Brandão, Mario Manga (seu pai, o virtuoso guitarrista do Premê)... Uma nova geração de cantoras e músicos que se mistura aos bambas do samba e de outros ritmos de nossa canção, relendo clássicos, atualizando o que de importante temos, dando voz a tesouros esquecidos.
Foi assim na emocionante interpretação de “Zé do Caroço”, música forte que Leci Brandão lançara uns trinta anos atrás e que dormia sob um manto de desleixo. Nosso, claro, de uma curiosidade preguiçosa, pois é canção que ficaria bem no canto raivoso dos Racionais, sobre o nascimento de um novo líder dos desvalidos (“e na hora que a televisão brasileira / distrai toda gente com sua novela / é que Zé põe a boca no mundo (...) Está nascendo um novo líder / no morro do pau da bandeira”). A entrada do brado de comunidade e periferia de Leci no meio dessa música tensa, que ameaça e chama a atenção de quem não vê, foi de arrepiar.
Eram meados do show, e esse grande momento foi antecedido por uma das interpretações mais vibrantes da noite, quando Thalma de Freitas irrompeu pelo palco, tornando apoteose o que vinha sendo uma apresentação mais delicada e intimista. Seu canto potente e afinado, sua presença de palco magnética, um furacão de energia, levam a platéia junto e fazem imaginar o que seria um show solo dessa cantora na estrutura de primeira do Auditório Ibirapuera. Dividiu “Consolação”, de Baden e Vinícius, com Mariana, e os gênios do afro-samba sorriram nos céus.
Apesar do brilho das participações especiais, Mariana Aydar poderia ter feito o show sozinha. Os arranjos da banda, levando o groove ao samba de raiz, ajudam muito, mas ela tem segurança, domina o palco com sensualidade e carisma, a voz afinada mesmo nos tons mais exigentes encantaria ainda que partilhasse o show apenas com um tamborim.
Levou esta sensualidade ao samba “Vai Vadiar”, de Monarco e Ratinho, e parecia uma Lolita desgostosa de um capricho não atendido. Foi uma brisa numa tarde de calor, envolvente, em “Deixa o Verão”, do Hermano Rodrigo Amarante. Foi sambista de pé no chão em “Minha Missão”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Foi a certeza de que estávamos diante de uma grande intérprete.
Fala sempre nos intervalos entre as canções, e aí se enrola um pouco, quer dizer tudo o que está sentindo nesse começo de sucesso, o público lotando o Auditório de Niemeyer, as críticas positivas, o alto de uma nova onda de cantoras tão talentosas... Mas as frases de menina não dão conta de explicar tudo o que lhe passa pela mente. Nem precisam. Seu talento está na “performance”, na afinação, na inteligência para o que pinça de um universo rico da nossa música, do nosso samba, para revelar mais do que imagina. Que seja acolhida com o enlevo que desperta ao vivo.
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Comentários:
Agora, conta aqui pra mim: você virou sócio do Auditório Ibirapuera? Arruma uns convites aí, meu!
Cara, vc me entusiasmou a escutar esta cantora, pois na verdade só escutei com ela a versão sonolenta que ela fez da música do Rodrigo Amarante, só que com ele e os hermanos a música é bem rápida e tem um climão de bang-bang à italiana. Vale dar uma conferida, hein.
Mais um primor de texto. Você nasceu com o dom da escrita mesmo. Parabéns. Sempre leio seus textos com muito prazer, que é maior até do que de outro escritor qualquer que vc imaginar.
Esse meu amigo é do cacete!
E juntou as melhores parceiras para dividir o palco com ela.
Estas meninas podiam formar uma banda "As Exuberantes"! Maravilha morar em um país repleto de mulheres divinas e que nos encantam no canto.
tudo de bom bjs mariana
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex