08.05.07

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Mariana Aydar - Uma apresentação

Mariana e Thalma no palco[1]
Mariana Aydar (à esquerda) com Thalma de Freitas

A desconcertante impressão de ver uma estrela nascendo. Saberemos reconhecê-la? Medir sua grandeza num primeiro olhar? Será um cometa febril, mas fugaz? No caso de Mariana Aydar, parece que não. O show que ela apresentou no Auditório Ibirapuera, no último final de semana, revelou uma grande cantora, bem equilibrada entre a tradição e a modernidade, que tem nas mãos todas as possibilidades, a permanência e a relevância a centímetros dos dedos.

Escolhas de repertório e banda de tirar o chapéu. Digo o mesmo dos convidados selecionados para essa seqüência de shows: Céu, Roberta Sá, Thalma de Freitas, Eduardo Nazarian, BiD (Funk Como Le Gusta), Leci Brandão, Mario Manga (seu pai, o virtuoso guitarrista do Premê)... Uma nova geração de cantoras e músicos que se mistura aos bambas do samba e de outros ritmos de nossa canção, relendo clássicos, atualizando o que de importante temos, dando voz a tesouros esquecidos.

Foi assim na emocionante interpretação de “Zé do Caroço”, música forte que Leci Brandão lançara uns trinta anos atrás e que dormia sob um manto de desleixo. Nosso, claro, de uma curiosidade preguiçosa, pois é canção que ficaria bem no canto raivoso dos Racionais, sobre o nascimento de um novo líder dos desvalidos (“e na hora que a televisão brasileira / distrai toda gente com sua novela / é que Zé põe a boca no mundo (...) Está nascendo um novo líder / no morro do pau da bandeira”). A entrada do brado de comunidade e periferia de Leci no meio dessa música tensa, que ameaça e chama a atenção de quem não vê, foi de arrepiar.

Eram meados do show, e esse grande momento foi antecedido por uma das interpretações mais vibrantes da noite, quando Thalma de Freitas irrompeu pelo palco, tornando apoteose o que vinha sendo uma apresentação mais delicada e intimista. Seu canto potente e afinado, sua presença de palco magnética, um furacão de energia, levam a platéia junto e fazem imaginar o que seria um show solo dessa cantora na estrutura de primeira do Auditório Ibirapuera. Dividiu “Consolação”, de Baden e Vinícius, com Mariana, e os gênios do afro-samba sorriram nos céus.

Apesar do brilho das participações especiais, Mariana Aydar poderia ter feito o show sozinha. Os arranjos da banda, levando o groove ao samba de raiz, ajudam muito, mas ela tem segurança, domina o palco com sensualidade e carisma, a voz afinada mesmo nos tons mais exigentes encantaria ainda que partilhasse o show apenas com um tamborim.

Levou esta sensualidade ao samba “Vai Vadiar”, de Monarco e Ratinho, e parecia uma Lolita desgostosa de um capricho não atendido. Foi uma brisa numa tarde de calor, envolvente, em “Deixa o Verão”, do Hermano Rodrigo Amarante. Foi sambista de pé no chão em “Minha Missão”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Foi a certeza de que estávamos diante de uma grande intérprete.

Fala sempre nos intervalos entre as canções, e aí se enrola um pouco, quer dizer tudo o que está sentindo nesse começo de sucesso, o público lotando o Auditório de Niemeyer, as críticas positivas, o alto de uma nova onda de cantoras tão talentosas... Mas as frases de menina não dão conta de explicar tudo o que lhe passa pela mente. Nem precisam. Seu talento está na “performance”, na afinação, na inteligência para o que pinça de um universo rico da nossa música, do nosso samba, para revelar mais do que imagina. Que seja acolhida com o enlevo que desperta ao vivo.

por Alexandre Carvalho dos Santos 5 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Carol Email · http://www.leftoversdavida.blogspot.com

Ê, delícia de texto. Até eu que tenho preguiça para críticas culturais adorei. Toque de midas, transformando em ouro tudo que tua palavra toca. Brigada por mais este.
Agora, conta aqui pra mim: você virou sócio do Auditório Ibirapuera? Arruma uns convites aí, meu!

PermalinkPermalink 09.05.07 @ 09:56



Comentário de: beto Email · http://cinedobeto.blogspot.com

A mesma pergunta faço eu,hehehe.
Cara, vc me entusiasmou a escutar esta cantora, pois na verdade só escutei com ela a versão sonolenta que ela fez da música do Rodrigo Amarante, só que com ele e os hermanos a música é bem rápida e tem um climão de bang-bang à italiana. Vale dar uma conferida, hein.
Mais um primor de texto. Você nasceu com o dom da escrita mesmo. Parabéns. Sempre leio seus textos com muito prazer, que é maior até do que de outro escritor qualquer que vc imaginar.
Esse meu amigo é do cacete!

PermalinkPermalink 10.05.07 @ 16:38



Comentário de: Renata D´Elia Email · http://deliaboard.blogspot.com

Agora me diz: por que todas as resenhas da imprensa brasileira não chegam aospés disso? Por que ninguém se contenta mais em ser humano?

PermalinkPermalink 14.05.07 @ 00:45



Comentário de: leo Email · http://www.fotolog.com/leo2210

Mariana é exuberante em seu talento.
E juntou as melhores parceiras para dividir o palco com ela.
Estas meninas podiam formar uma banda "As Exuberantes"! Maravilha morar em um país repleto de mulheres divinas e que nos encantam no canto.

PermalinkPermalink 14.05.07 @ 02:09



Comentário de: Kavita · http://www.marianaaydar.com.br

Alexandre,que texto lindo ! vi só agora, obrigada!
tudo de bom bjs mariana

PermalinkPermalink 02.12.08 @ 03:46



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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