09.04.07
Na Cama, de Matías Bize
Dois desconhecidos em uma situação que exige toda a intimidade. Este é o ponto de partida para o desdobramento da conversa cheia de hiatos entre Bruno e Daniela, que saíram de um primeiro contato numa festa diretamente para o motel, onde transam e hesitam sobre revelações e o que esperar um do outro. Será a primeira de muitas madrugadas de sexo e empatia? Será um instantâneo de que mal se lembrarão?
A situação tem negativas e ofertas. Afinal, é possível dizer tudo e nada a quem está só de passagem. Mentiras deliciosas e verdades violentas. É cedido até o direito de uma autenticidade imprópria para o convívio.
Quais as sólidas perspectivas escondidas num primeiro encontro? É o que se pergunta o casal de amantes, prisioneiro à vontade no cenário único de um quarto de motel. As semelhanças com os dois filmes de Richard Linklater (Antes do Pôr-do-Sol e Antes do Amanhecer) vão além da estrutura de filme de diálogo à Rohmer, pois, assim como os belos longas que suspiram sobre vontades que não se realizam entre um americano e uma francesa, Na Cama fala de possibilidades no amor que podem se cumprir ou não. Entretanto, se Linklater opta pela poesia de uma experiência inesquecível e de repetição improvável, para permanecer imaculada, o diretor chileno Matías Bize dá espaço também para a investigação do que pode dar de errado nesse encontro único, e para um outro pensamento: o do quanto se abrir a um estranho pode desmascarar, a nós mesmos, o que há de amargo em vidas tão avessas à reflexão.
Na Cama toca em aspectos desagradáveis protegido pela leveza de sua condução e o bom trabalho da atriz Blanca Lewin. O filme não é pesado nem repetitivo, lidando bem com a armadilha do cenário que não muda, nem é superficial. A insistência da câmera nos corpos dos atores aponta o que existe de transparente nesse jogo de sombras, que é o sexo e sua própria linguagem, fonte de uma comunicação não-verbal e clara, com toda a sua sordidez. Só não mexe com a cabeça de quem nunca ponderou sobre o próximo passo no amor, sobre fidelidade, continuidade, independência, impulso e sobre o potencial para a felicidade contido em cada relação.
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Comentários:
Obrigado pelo seu comentário.
No teatro, para que houvesse essa intimidade, seria preciso um palco diferente, talvez no meio do público, como aconteceu com uma montagem recente de Otelo, aqui em São Paulo. A seqüência com o assassinato de Desdêmona pelo mouro foi encenada a poucos metros do público, quase podíamos tocar nos atores.
Belo filme do Bize. Não esperava tanto quando fui ao cinema, mas a tela grande tem dessas surpresas felizes.
Grande abraço.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex