04.04.07

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Lanny Gordin, superlativo

Lanny Gordin 020

Conheci Lanny Gordin numa apresentação no Teta Bar, da Cardeal Arcoverde, um reduto de jazz dos mais aprazíveis. Eu não sabia que ele era ele. Tocava um jazz sutil e repleto de solos de guitarra de grande criatividade, impressionantes. No fim do show, fui cumprimentá-lo, ele agradeceu e pediu que comprasse seu CD. Estranhei. Falava qual criança, apesar da barba de velhinho. Pensei que tinha alguma coisa errada com a cuca daquele senhor, que se expressava tão bem com as seis cordas. Só depois, lendo sobre a programação do Teta, descobri que ele era ele: Lanny Gordin, o guitarrista do tropicalismo, de grandes discos de Gal e Caetano, que divide os violões com Jards Marcalé no primeiro disco deste, uma obra-prima. O grande guitarrista da MPB; só Sérgio Dias, dos Mutantes, esteve (está) no mesmo nível.

Um tempo depois, revi Lanny, já sem barba, um senhor distinto, já sem o visual de profeta da Praça da República, num show em homenagem ao disco Tropicália. Fez apenas uma participação e saiu consagrado do palco. Saiu, não, tiraram-no, porque ele parecia querer ficar, quando todos já tinham descido.
Na última sexta, a ocasião era de gala. Lanny Gordin era a grande atração do imponente Auditório Ibirapuera, num show com participações especiais de gente mais nova: Edgard Scandurra, Max de Castro e Juno Barreto. O que esperar? O velhinho, de equilíbrio frágil, seguraria a barra? Na introdução, achei que não.
Lanny entrou sozinho, cortinas ainda cerradas, e passou a improvisar, acordes com grandes intervalos, olhos no chão, parecia não engrenar, e foi tocando, o público sem muita convicção. De repente, de sua guitarra sai a seqüência de acordes de Corcovado. O público respira: ufa, chegamos a algum lugar... Mas logo voltaria ao improviso errante, e, assim como no show da Tropicália, Lanny perdia a noção do tempo. Até que Luiz Calanca, dono da Baratos Afins, na platéia, começou a aplaudir. Foi o suficiente para Lanny despertar e encerrar o improviso imediatamente. Agradeceu à platéia com o mesmo jeito infantil e as cortinas se abriram para sua nova banda: a Projeto Alfa.
Daí em diante, o que se viu foi uma apresentação inesquecível de um monstro da guitarra. Lanny Gordin é um virtuose não apenas dos solos, mas dos acordes e dedilhados que enchem as canções de um sonho psicodélico muito tropical, o andar sem lenço e documento daquela virada dos 60 para os 70. Confundiu-se um pouco com fios e pedais, tanta gente ali para vê-lo, maestro Júlio Medaglia na terceira fila, tanto tempo depois dos grandes shows, de Gal Fatal, tanta confusão em forma de pílulas e suor frio, a esquizofrenia, o sanatório. Houve tempo em que achou que não voltaria. Não lembra muito bem o que fez no dia anterior. Mas na sexta tinha a guitarra nas mãos, e assim tudo ficava mais claro.
Emocionou, vê-lo recuperando a beleza de Pérola Negra, que o Luiz Melodia atual desmonta em outros ritmos, ou dando trabalho para o enérgico trio de moleques, 30 ou 40 anos mais novos, que forma o Projeto Alfa. E solou sobre rock pesadíssimo, e foi delicado em construções jazzísticas, e foi brejeiro em levadas regionais. Sem nunca perder o dedilhado free de ontem e hoje. O maior momento do show, entre tantos grandes momentos: dividindo acordes e solos com Scandurra, outro demônio, numa homenagem a Jimi Hendrix.

Saí e fui direto à portaria comprar o novo CD: Duos, em que faz a cama de guitarras para a voz de medalhões e medalhinhas da MPB. Ouvi assim que me vi com duas caixas acústicas à disposição. O disco é fantástico: sem baixo e bateria a dividir a atenção, apenas um violão aqui e ali, sua guitarra elegante se firma como uma parte da nossa história musical que nunca deveria ter sido interrompida. Tem Jards Macalé, Vanessa da Mata, Rodrigo Amarante, Caetano, Fernanda Takai encarnando Zizi Possi em Mucuripe, Gal cantando Dindi, num lindo arranjo de Lanny, e um Gil que parece nunca ter deixado seus melhores momentos, cantando e tocando em Abra O Olho. Até Zeca Baleiro e Chico César estão bem, melhorados pela mágica de Lanny.

E o guitarrista tem de novo seus 20 anos, vive a contracultura e todas as suas delícias, está nos palcos de Gal a Todo Vapor, não sabe o que são problemas na cuca, é um músico que conhece poucos pares, seja aqui ou nos Estados Unidos, ou em Londres. Seu irmão gênio repousa sob a lápide de James Marshall Hendrix.

Duos0001

* * *

A foto de Lanny foi tirada por Gerardo Lazzari.

por Alexandre Carvalho dos Santos 9 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Sgt. Mad Dog Email · http://www.hell.com

Cabo Colorado, lamento atropelar o Sr. Lanny, mas gostaria de saber se pode me informar em que time de futebol americano jogou o Kerouac e a posição. Outra coisa: já ouviu muito sobre a edição da Brasiliense, mas os sebos cobram em torno de R$50.00 por ela. O tradutor da edição pocket da L&PM é o mesmo da edição da brasiliense e nesta nova edição relata um pouco da história da tradução e diz que a nova é mais atualizada e com tradução digamos 3.0, enquanto a outra é mais dadata. O que pode me dizer sobre isso?
Continue em marcha!
Sgt. Mad Dog

PermalinkPermalink 04.04.07 @ 14:27



Comentário de: Bé Email · http://www.fotolog.com/veoito

Bicho, também vi o Lanny pela primeira vez no Teta em 2003. Não sabia que ele tocava lá. Fui pra ver o Jazztronautas, do César, amigo músico que tocava no Caju Boteco aos sábados.

O César tocava contrabaixo, tinha um cara que revezava clarinete, sax e um trompete, um doido na bateria e um tiozinho na guitarra. O tiozinho era o Lanny.

Nada de muitos pedais, reverbs, engates, benjamins...só a alavanca da guitarra era suficiente pra deixar o pessoal em volta besta. Mas não tinha essa de que a banda acompanhava o Lanny. Ele era tão da banda quanto o doido da bateria. Só que bem mais doido, convenhamos.

No intervalo conversei com ele, mas nenhum dos dois lembra da conversa.

Sábado seguinte, o César e a Priscila chegaram pra tocar no bar e levei um lero com ele sobre o Lanny, como era aquele lance detocar com o ídolo, com um virtuose, com um cara que tem responsabilidade enorme pelas viagens elétricas do Tropicalismo. Então fiquei sabendo:

O César descobriu que havia um cara passando maus bocados, no fundo do poço, mal balbuciando próprio nome e pelo que parece sem moradia, sem amigos e sem a esperança que as pessoas teimam em querer ter.
Acolheu-o, deu um rango pro cara, umas roupas melhores e abrigo. Porém depois de uns dias ainda não via evolução. E pra falar a verdade acho que nem esperava ver. Sr. Gordin ontinuava com aquele aspecto mezzo acelga/ mezzo menino de 2 anos com QI inferior à média. Até que o César descolou uma guitarra e Lanny acordou. Pá. Primeiros acordes esquisitos, e em pouquíssimo tempo já estava falando, escalando do poço com o instrumento fazendo parte de si, como é a bola com Pelé e o carro com Schummacher e a prencha de surf comigo. Uma muleta pra recuperação do Lanny.

Loucura, né? Estranho é se não fosse com ele.
Grande Lanny, que deu umas raquetadas em todas as magrinhas do Tropicalismo. Grande César que descolou essa santa guitarra, e teve iniciativa. Merece inclusive um brinde.

obs - O César descolou um CD-R com esse show do Teta. Precisamos ouvir derretendo a cuca. Uhhh.



PermalinkPermalink 04.04.07 @ 17:30



Comentário de: Carol Email

Ah, o Teta, sempre, sempre, sempre, na noite em que o Lanny arrepiava até os meus ossinhos com seus encantos sonoros. Menino travesso, virtuose, amante daquela que levava nos braços, o Lanny me faz lembrar que a vida é doce e amarga, e por isso mesmo é preciso musicar.
Obrigada por me lembrar de momentos tão suaves e inspiradores.
Beijo

PermalinkPermalink 04.04.07 @ 20:50



Comentário de: Alexandre Carvalho dos Santos Email · http://www.interney.net/blogs/rolleiflex/

Caro sargento Mad Dog, Jack Kerouac jogava futebol americano pela Universidade de Columbia. Aliás, ele entrou na universidade graças a uma bolsa dada aos jogadores com muito potencial. Era o caso dele. Depois que ferrou o joelho, acabou sendo espulso de Columbia por causa de suas freqüentes festinhas por lá.

Quanto à tradução, essa 3.0 tem umas modernidades que não me agradaram. A versão “datada” tem mais o espírito daqueles anos beatniks. Mas, meu filho, pelo preço da edição de bolso, vale a pena, né? Se você ler em inglês, tenho a versão original e posso te emprestar. A da Brasiliense, infelizmente, está num cofre de que perdi a combinação.

Abração.

PermalinkPermalink 05.04.07 @ 10:56



Comentário de: Alexandre Carvalho dos Santos Email · http://www.interney.net/blogs/rolleiflex/

Opa, Bé. Precisamos ouvir esse CD-R... Muito bacana, essa história. Merecia um post só para ela. Quando fui ao show, a Ju levantou a bola de que a Priscila e o César poderiam pintar por lá. Mas não os vimos. A descrição que você fez do Lanny bate exatamente com a impressão que tivemos, naquele primeiro contato no Teta. Taí um exemplo verídico de homem salvo pela arte.

Carol, quando der, vamos marcar um Teta, os quatro. Sempre que vou lá, saio com um sorriso de orelha a orelha. Apesar das ótimas (e generosas) caipirinhas servidas, o motivo é a boa música e o ambiente mesmo.

PermalinkPermalink 05.04.07 @ 11:03



Comentário de: Luiz Paulo F.C. Braga Email

Grande LANNY, MARAVILHOSO GUITARRISTA !

responsável por meu trabalho com música !
Gênio da GUITARRA !
TEATRO RUTH ESCOBAR - SP anos 60 !
TEATRO TEREZA RAQUEL - Rio de Janeiro.

Loucura psicodélica !
Um grande abraço,
lp.

PermalinkPermalink 23.04.07 @ 11:27



Comentário de: Gabriel

com todo o respeito, "medalhinha" é a "tradução intersemiótica" do autor do texto. o comentário foi preconceituoso e antiético.

PermalinkPermalink 08.04.08 @ 02:46



Comentário de: Edson Lima

Alexandre, vai rolar uma Festa-Show de aniversário do Lanny é na próxima sexta-feira, dia 28, no CCPC Centro de Cultura Popular Consolação, na Rua da Consolação, 1901. Seria legal contar com sua presença para festejar com o Lanny. Se puder divulgar no Blog e repassar aos amigos, agradeço. Tomara que possa comparecer. Abs. Edson Lima - 3746 6938 / 9586 5577.

Projeto Maravilhas Contemporâneas organiza a Festa-Show de Aniversário de 57 anos de Lanny Gordin, o lendário guitarrista brasileiro.

Lanny toca acompanhado da banda Madder Trio (Maurício Madder na bateria, Márcio Mutalupi no baixo e Antônio Valdetaro na guitarra). O evento será realizado no CCPC (Centro de Cultura Popular Consolação). O repertório vai de leituras das clássicas gravacões em que Lanny participou na década de 60 e 70, passando por standarts do jazz e composicões próprias.

Festa-Show de Aniversário de Lanny Gordin.
Dia 28/11/2008, sexta-feira, a partir das 22h. – Convite: R$ 15.
Local: C.C.P.C (Centro de Cultura Popular Consolação). Rua da Consolação, 1901 – Consolação - São Paulo. Estacionamento ao lado (Preço único R$10).
Informações: 7574 9081/ 2894 7811(Emerson Negão) / emersonnegao@gmail.com
Assessoria de Imprensa: Edson Lima / 11 3746 6938 / imprensa@oautornapraca.com.br.
Realização: Projeto Maravilhas Contemporâneas / Produção: Emerson Negão.
Apoio: CCPC (Centro de Cultura Popular Consolação) e O Autor na Praça.

"Lanny é uma das mais profundas e ricas musicalidades do Brasil. Quem quiser aprender guitarra tem que ouvir Lanny Gordin." (Jards Macalé;).

"Influenciado pelos guitarristas Wes Montgomery, Joe Pass e Jimi Hendrix , mas também atento à grande música do mundo (de Bach a Luiz Gonzaga), Lanny Gordin é um primeiro-sem-segundo na guitarra brasileira." (Chico César).

"O Lanny é um grande músico. Lembro de ver ele sair tocando baixo, sem jamais ter estudado esse instrumento. Ele ainda não teve condições de botar para fora nem um terço da música que ele tem dentro dele. “Eu torço para que o Lanny fique cada vez melhor para poder fazer isso”. (Hermeto Pascoal).

FESTA-SHOW DE ANIVERSÁRIO DE LANNY GORDIN

O Projeto Maravilhas Contemporâneas em sua 1ª edição realizará a Festa-Show de Aniversário de Lanny Gordin, em comemoração aos 57 anos de vida do lendário guitarrista brasileiro. Filho de pai russo e mãe polonesa, Alexander Gordin nasceu em Xangai, na China. Aos 16 anos já tocava na boate paulistana de seu pai, a conhecida Stardust, com músicos como Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte. No fim dos anos 60 e inicio dos 70 participou das gravações de discos antológicos de grandes nomes da música brasileira como Brazilian Octopus (Fermata – 1969), Suely e os Kanticus (Ki Bacana e Esperanto - Philips, 1969), Gilberto Gil (Gilberto Gil, Philips – 1969 e Expresso 2222, Philips – 1972 ), Gal Costa (Gal Costa, Philips - 1969, Le Gal, Philips – 1970 e A Todo Vapor, Philips – 1971), Erasmo Carlos (Carlos Erasmo, Philips – 1971), Tim Maia (Chocolate e Paz, Polydor – 1971), Eduardo Araújo (Nem Sim Nem Não, EMI – 1968), Jards Macalé (Jards Macal'e, Philips – 1972), Caetano Veloso (Araçá Azul, Philips – 1972), Rita Lee (Build Up, Philips – 1972), Aguilar e a Banda Performática (Carioca Canibal e Tribo, Neon Phonográfica – 1982), entre outros. Depois do período em que ficou conhecido como o guitarrista da Tropicália, Lanny passou a década de 80 no anonimato, com raras aparições, até que em meados da década de 90 ele reaparece em trabalhos de "novos" artistas como Chico César (Aos Vivos, Velas – 1995 e Cuscuz Clã, MZA – 1996), Vange Milliet (Vange Milliet , Baratos Afins – 1995), Catalau (Catalau, Baratos Afins – 1999), Jards Macalé (O Que Faço é Música, Atração – 1998), Itamar Assumpção (Pretobrás, Atração – 1998), e outros. Finalmente, nos anos 2000 Lanny começa a gravar seus próprios trabalhos. Antes tarde! Graças `a atenção dada por Luiz Calanca, proprietário do selo Baratos Afins, responsável pelo registro de muitos talentos da cena musical independente, em 2001 saiu o CD Lanny Gordin (Solo)(Baratos Afins) e em 2004 mais dois CD's, Projeto Alfa vol. 1 e 2. Seu mais recente CD, Lanny Duos (Barraventoartes/Universal - 2007), conta com a participação de antigos parceiros como Jards Macalé, Gal Costa, Gil, Caetano Veloso e outros mais "recentes" na cena musical como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra, Max de Castro, Chico César, Adriana Calcanhoto, Junio Barreto, Fernanda Takai, Vanessa da Mata, Péricles Cavalcante, Rodrigo Amarante e Zeca Baleiro. Mais sobre Lanny:
www.baratosafins.com.br/lannyapresentacao.htm / http://www.myspace.com/lannygordin

Tudo num clima bastante descontraído, para comemorar os 57 anos deste mestre da guitarra no Brasil, santo-coringa na história da música brasileira. Imperdível!

A César o que é de César

PermalinkPermalink 27.11.08 @ 16:28




Oi Gente!
Bom, está interessante a historinha do Bé mas a verdade é que muita gente ajudou o Lanny quando a coisa ficou dificil. Alem de mim, o pessoal da banda Zumbaia, o pessoal do projeto Alfa, o Mario que foi a primeira pessoa que acolheu ele e que me telefonou, enfim, muita gente...
Aprendi muitissimo (e nao somente musica) tocando com ele por seis anos.
Estao disponiveis as gravaçoes que fizemos no Teta em 2003, é só clicar no link que aparece acima...
Espero que curtam!!!

PermalinkPermalink 13.02.09 @ 11:06



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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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