27.03.07

Permalink Categorias: Cinema   Portuguese (BR)

Scoop - O Cheiro do Ralo - Letra e Música

Ficar muito tempo sem ir ao cinema não é comigo. Parece sempre que está faltando alguma coisa, como se eu saísse de casa sem a carteira ou com as calças do avesso. Paro na rua e me pergunto por que tenho me sentido estranho. Aí passo na frente do Espaço Unibanco e entendo. Há cinco filmes em cartaz, e eu não vi nenhum. Em dois anos, não me lembrava de ter acontecido, mas tive que trabalhar quase todas as noites nas duas últimas semanas e, com a seqüência de lançamentos interessantes, peguei-me com aquela sensação estranha. As calças estavam no lugar. Os sapatos eram do mesmo par. Algo precisava ser feito.

Sexta-feira: Scoop, de Woody Allen.

c-scoop_r

Simpático como O Escorpião de Jade, só um pouco menos engraçado. Todo ano tem filme novo do diretor, mas parece que Allen se esforça cada vez menos. Com a exceção de Ponto Final, esta versão bem-sucedida de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, combinada com uma sugestão sobre o impacto do acaso em nossas vidas.
Mas vale ir ao cinema para assistir a Scoop? Claro que sim, e já é até clichê afirmar que um Allen apenas razoável é ainda melhor que 99% das comédias contemporâneas. Sua graça como ator também contribui muito, e talvez tenha sido este o elemento que faltava para tornar Melinda e Melinda mais aceitável.
Em Scoop, Allen é um mágico de segunda que ajuda a personagem de Scarlett Johansson, uma estudante de jornalismo, a investigar se o milionário bonitão interpretado por Hugh Jackman é o assassino do tarô, como afirma o fantasma de um repórter. O argumento é ótimo, e Allen está muito bem no papel que assumiu depois de velho, o de um sarcástico atrapalhado, diferente do amante neurótico e desajeitado de antes. Mas Scarlett não ajuda. É linda e de boca fechada nos prende o olhar, mas não convence no papel da falastrona insegura que alguns atores de Allen assumem como a imitá-lo (a exemplo de Kenneth Branagh e, mais recentemente, Will Ferrell). Precisa expressar uma ingenuidade que a encenação pede, na homenagem que Allen faz a duplas como Spencer Tracy e Katharine Hepburn, mas parece amadora em suas expressões forçadas.
Saí do cinema rindo, e o filme saiu da minha cabeça em coisa de dez minutos.

Domingo – O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia

c-cheirodoralo_r

Não é tudo isso que a imprensa tem dito, mas é um filme bom, com grande atuação de Selton Mello. Chama a atenção, a incerteza do diretor em manter a odiosa misantropia de seu personagem ou fazer com que jogue para a torcida, embalado pelo carisma do ator principal. Pois ainda que nos revoltemos contra a indiferença, o individualismo e o abuso de poder de Lourenço, um negociante que compra bens de gente desesperada a preço de banana, também nos identificamos com sua solidão, pois não é preciso muito para concordar com a afirmação de Sartre sobre do que o inferno é formado. O ralo como representação de um estado moral e de uma forma de ver a vida, às vezes, no filme, insiste demais na expressão de uma idéia que salta aos olhos.
O maior acerto de Dhalia está na forma bem concebida como revela o fetichismo na adoração de Lourenço pela perfeição das formas de uma bunda e na singularidade de uma perna mecânica. Amuletos semelhantes refletem os olhos do diretor, nos cenários de uma Mooca estilizada, na garrafa de Pepsi-Cola do boteco e nas roupas com motivos havaianos.
Não vemos, ao longo do filme, Lourenço se desfazer de nada. O estoque está repleto de armas, caixinhas de música, relógios e soldados de chumbo. As formas inanimadas são os melhores companheiros de Lourenço, na caixa de bonecos em que vive, onde só o abrir de portas para os excluídos o perturba. A última frase em off de Selton Mello, antes que a tela escureça, parece dizer que, enfim, Lourenço deixava o inferno para trás (é claro que não vou adiantar o fim do filme).

Ainda domingo – Letra e Música, de Marc Lawrence

lyric

Se Scoop foi o Allen mediano dos últimos tempos e O Cheiro do Ralo foi um pouco menos do que eu esperava (embora bom, insisto), Letra e Música foi o filme que realmente me surpreendeu neste final de semana. Não porque revolucione o formato de comédia romântica, porque está longe disso, mas por um conjunto de acertos que eu não esperava nesse filme do diretor de Miss Simpatia, que julgava completamente despretensioso.
Em primeiro lugar, já achava que nunca assistiria a uma comédia com Drew Barrymore que me agradasse. Não que ela seja o ponto alto desse filme. Seus maiores trunfos não estão na química de seu par romântico, mas no comentário irônico e ao mesmo tempo simpático sobre o estrelato pop dos anos 80, na descrição do que acontece com quem fica para trás e na atuação de Hugh Grant. Ele dá um passo além, ao interpretar o segundo músico mais talentoso de um fenômeno popular de vinte anos atrás, que viu seu parceiro de banda deslanchar uma carreira-solo, enquanto a ele restaram shows em parques de diversões para quarentonas saudosistas.
O clipe de sua antiga banda, que abre o filme, parece mesmo ter sido feito pelos diretores dos vídeos do Duran Duran ou do A-Ha. Foi difícil parar de rir durante essa introdução, assim como nos mini-shows do músico feito por Hugh Grant ao longo do filme. E é o ator mesmo que interpreta, e bem, as canções de seu personagem.
Agrada sobretudo a escolha do diretor em, apesar de basear o filme na constrangedora redenção de um artista decadente, não violentá-lo, demonstrando que as babas pop dos 80 também eram irresistíveis em seu poder de sedução e, ainda hoje, permanecem como uma lembrança não sem encanto.
Esse mesmo olhar sereno é apontado para a cover de Christina Aguilera interpretada por Haley Bennett. Sim, ela é superficial e tem a cabeça na lua, confunde espiritualidade com Sodoma e Gomorra, mas é uma profissional consciente da persona que precisa mostrar para o bom andamento dos negócios. “Meu público quer dançar”, ela insiste, e tem razão. Sua platéia de adolescentes lascivas dos anos 2000, no fundo, não quer nada muito diferente do que os fãs do RPM queriam, na década que, hoje, todo mundo jura abominar.

* * *

Letra e Música me fez imaginar onde estaria hoje Andrew Ridgeley, metade do Wham!, que tinha nos outros 50% um tal de George Michael. Pesquisei: tentou uma carreira de piloto de corridas em Mônaco, onde se esborrachou umas tantas vezes, e casou com a ex-Bananarama (outra banda deliciosamente pop) Keren Woodward. Hoje é dono de um restaurante.

andrew_ridgeley

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink


Posts similares:
scoop - o grande furo
Woody Allen, o mágico decadente
vicky cristina barcelona

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: karen Email · http://www.orkut.com/

EU ASSISTI ESSE FILME LETRA E MUSICA E EU ADOREI E AMEI E GOSTARIA DE ASSISTIR DE NOVO COM MEUS AMIGOS!

PermalinkPermalink 27.06.07 @ 15:23



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

Busca

Categorias

Resumo deste blog XML

Clique aqui para ver essa página no formato RSS/XML O que é RSS?

powered by
b2evolution