24.03.07
Confesso Que Bebi - Jaguar
Apreciar um pé-sujo não é coisa para qualquer paladar. Não falo de moças hippies, nem este texto é uma resenha mal começada sobre O Cheiro do Ralo, que ainda não vi, o filme em que o Selton Mello gosta de bunda e de ralo mesmo. Falo sobre os malfadados, os botecos, os botequins. Não, meu caro, nada a ver com o bar de bacana que abriu ontem, que imita o São Cristóvão, que imita o Pirajá, que por sua vez tem tudo a ver com o Original, de Moema. Esses bares são ótimos, e ouso dizer que o Pirajá é, entre os paulistanos, o de acepipes mais interessantes. Mas falo mesmo é sobre aquele tipo de bar no qual você não marcaria um primeiro encontro nem a confraternização da firma. Quem já viu ovo colorido sabe do que estou falando, embora seu superego talvez não permita ligar a imagem ao recinto.
Você se imagina comendo uma rabada com agrião num boteco? Nem eu, mas um dia chego lá.
Informado de que o Rio de Janeiro está anos-luz na frente de São Paulo em matéria de pés-sujos irresistíveis, embarquei na ponte-aérea, com namorada na mochila e tudo, disposto a conferir se, realmente, o Rio tem alguma vantagem sobre São Paulo que não seja a paisagem, a praia de Ipanema, a Bossa Nova, o Carnaval, a Confeitaria Colombo, os fins de tarde, o Paulinho da Viola, etc. Bom, nossos japoneses são bem melhores, disso não tenho dúvida.
Voltei nocauteado. Sampa pode ter os melhores botecos-chiques do Brasil, mas o Rio tem os melhores pés-sujos do mundo. E, por ironia do destino, um dos melhores faz homenagem a nós: A Paulistinha (Av. Gomes Freire, 27 – Centro). Foi lá que comi o melhor bolinho de bacalhau da viagem e onde descobri a sacanagem. Calma, coração puro, sacanagem é uma palavra do botequês carioca para explicar um espeto com pedaços de provolone, tomate, cebola, salaminho e pimentão. Invenção da Paulistinha.
Pois cansado de ouvir os relatos deste neófito deslumbrado com os botecos cariocas, meu amigo Pet, um malandro que já morou na Barra da Tijuca e tem o Flamengo como segundo time, me deu de presente de aniversário um verdadeiro curso universitário sobre os bares do Rio: Confesso Que Bebi – Memórias de Um Amnésico Alcoólico, escrito pelo humorista e botequeiro profissional Jaguar, aquele mesmo da turma do Pasquim.
Rapaz, como o velhinho bebe... E como conhece boteco... O livro é composto de capítulos curtos, cada um dedicado a um bar ou a um conjunto de bares. Tem bar chique também (como chamar o tradicional Bar Luiz ou o premiado Jobi de pés-sujos?). Mas o mais interessante é a descrição de locais pitorescos como o Bunda de Fora, que seria tão pequeno que, não sei quantos anos atrás, Leila Diniz teria comentado, sutil: “Porra, quando a gente bebe aqui, fica com a bunda de fora!”.
Os textos são todos saborosos, o livro perece uma versão breaca de Minhas Mulheres e Meus Homens, do Mario Prata. A diferença é que os homens do Jaguar são garçons ou donos de bar, e ele não come ninguém, enquanto o Prata diz ter comido um terço das personagens do seu livro. Bom, tem também o Hugo Carvana, o Tom Jobim (com suas estratégias para despistar chato em bar), Nelson Cavaquinho e João Ubaldo Ribeiro, agora ex-bebum.
Jaguar descreve, com muito bom humor, os cardápios, os personagens, a decoração e, claro, suas passagens pelas centenas de bares cariocas em que fez calo no cotovelo. Com ele, tive os seguintes ensinamentos:
1 - Cachaça da boa não dá amnésia alcoólica – Seu Osvaldo, dono da Casa da Cachaça (da Lapa), lembra até hoje o dia em que começou na casa, nos anos 60, embora tome uma garrafa de branquinha por dia.
2 – “Meia-trava” é uma parada no bar para tomar umas e jogar conversa fora. A parte da conversa não é obrigatória.
3 – Para tirar carteirinha de botequeiro carioca, além de ser bom de copo, é preciso encarar petiscos “de responsa”: coxa de frango ensopado, fígado de galinha, moela, carne assada, sanduíche de fritada e rollmops.
4 – Nos botecos do Rio, tem feijoada às sextas.
5 – Botequeiro que é botequeiro bebe em pé, com o cotovelo criando calo no balcão. Essa eu já sabia por experiência própria no Léo, da Rua Aurora.
6 – Preciso conhecer os bares de Vila Isabel: O Bar do Costa e o Petisco da Vila.
Há capítulos em que o carioquíssimo Jaguar dá uma trela para seus colegas de São Paulo, apontando aqueles que seriam, na sua opinião, os melhores bares daqui. Fala, então, do Frangó, do Jacaré, do Pirajá (o consulado do Rio em São Paulo) e do Sujinho (também Bisteca de Ouro, também Bar das Putas, na Consolação).
Aconselho-o a, na próxima visita, conhecer o Bar do Luiz Nozoie, no Jardim da Saúde. É o melhor pé-sujo de Sampa. Seu Luiz, um japa que toca o negócio desde 1962, agora acompanhado dos filhos, conserva as cervejas trincando numa antiga geladeira de sorvete e oferece uma seleção de frutos do mar que ele mesmo pesca toda segunda-feira no Guarujá: espetinho de peixe espada, camarão, polvo e lula ao vinagrete, muslitos, além de pastéis sequinhos de carne, queijo ou camarão. Há um longo balcão com as iguarias, que é o lugar em que você deve fazer os pedidos, mesmo se estiver sentado à mesa mais distante. Mas o bar é pequeno, não vai ser problema levantar toda hora. A não ser que você já tenha bebido mais de três batidas de amendoim, a melhor da cidade. Aí a tua mulher que te agüente.
Bar do Luiz Nozoie – Av. do Cursino, 1210.
Posts similares:
BOTECO É BOTECO
Querem acabar com os botecos!!
Simples... mas irresistíveis
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
O mais triste para mim, nesse sentido, é um na Vila Madalena que tem, inclusive, um painel gigante com uma foto de copacabana... ai, ai...
Já que você falou do Mario Prata, há uma passagem no livro que mostra bem o que os 2 autores têm em comum. Indo com mais alguns casais para uma orgia gastronômica em Portugal - "O Francisco guiava, portanto não bebia. O resto não guiava."
Ju.
De qualquer forma, esses elementos decorativos tornaram homogêneos todos os ambientes desses bares, e aí por sua vez o atendimento tende a se parecer, sem falar na oferta de quitutes que sempre navega por aquela atmosfera de gastronomia, criatividade e "nisso ninguém pensou", mas que sempre se repete e fica redundante dentro da tarefa de alimentar, ainda que pésujamente, mas sempre com qualidade. Se você vai em quatro deles seguidamente, uma semana depois não lembra mais qual é qual, porque é...tudo igual.
Mas não tocamos ainda na questão do preço praticado pelos "botequins", que cobram por uma cerveja quase o dobro do que é cobrado num verdadeiro pé-sujo inviabilizando totalmente a "meia-trava".
Afastam deles, com isso, o Sr. Ernesto, o Jassa, e simbolicamente, o Jaguar.
Mas tudo isso é balela diante da incumbência maior do estabelecimento que servir cerveja gelada, e isso, esses botecos de bacana, fazem bem, e por isso estão sempre cheios. Só pode.
Quanto aos retratos do Tom Jobim e do Vinícius, não seriam necessários se o pessoal mediano entendesse que eles, os reis do eufemismo, queriam mesmo dizer: "olha aquela gostosa, que puta gostosa, que vem e que passa a caminho do mar, tomara que caia e fique de quatro aqui na minha frente......"
Mas carioca é assim.
Ficava (fica?) no Largo do Belém e em frente a um ponto de ônibus dos mais concorridos.
O boteco tinha nos fundos umas mesas de bilhar, creio que umas 6, algumas das quais com o pano verde já, digamos, maduro, naquele tom marron-bosta...
Mas ficava aberto 24 horas, 7 dias por semana (verdadeiramente, um 7 x 24, disponibilidade máxima!!).
O Jacaré, um senhor já passado dos 60 (na época) tinha como característica um ótimo mal humor, sempre expresso por belas palavras de ordem ditas gentilmente aos funcionáros em tom superior a 80 decibés, como "_ Porra, Mané, pega aquela bosta de pão, caraio !", ou "_ Negrão, caraio, o doutor aí no balcão está há meia hora esperando o sanduíche dele, caraio!".
Como Vocês podem perceber ele viviam com o "caraio" na boca, mas o fato é que as coisas funcionavam bem e todos eram bem atendidos.
Eu sempre comia em pé no balcão e não recomendaria jamais Você sentar numa das 6 ou 7 mesinhas existentes, pois ao acomodar seu cotovelo na "toalha" de plástico, ela grudava e era difícil de sair.
Também não recomendaria Você ir ao salão dos fundos, aquele das mesas de bilhar, pois bastava Você olhar a quantidade de tacos lascados ou quebrados para imaginar que alí era um ambiente meio inóspito para a saúde.
Os frequentadores variavam de bebuns e vagabundos de praxe a doutores e empresários. Artistas volta-e-meia pintavam por lá. Um amigo meu jurou ter visto a Luana Piovani quando ela ainda era uma garotinha novinha e educadadinha chegar lá com uma super-micro-saia após sair de uma balada.
Outros comentaram ter pedido autógrafos para cantores da moda, da época, e para alguns artistas de novelas da Globo que hoje ninguém mais sabe quem são.
Eu namorava uma super-gata no Tatuapé e na volta da casa dela, no início da madrugada, parava lá para comer um maravilhoso churrasquinho grelhado (o Jacaré pegava a carne de um barril, curtidas no molho com cebolas, imagino, há dias...) e jogava numa chapa sempre quente. Derrubava um óleo 40 devidamente reaproveitado e servia no pãozinho francês também esquentado na mesma grelha, aproveitando o óleo e o gosto das fritadas anteriores. Uma delícia !!
Servia com umas azeitonas pretas enormes, com um tempêro também especial, curtida numa enorme botija de cerâmica em cima do balcão (creio que eventualmente esta botija era alvo de um raid de insetos variados...).
E eu sempre pedia uma latinha de cerveja e jamais um copo, pois eles eram sempre melados...
Como o, digamos assim, bar, ficava no ponto final de uma linha de ônibus, você pode imaginar a galera que dele descia, um verdadeiro sub-sub-estrato social em sua melhor acepção.
Mas eu próprio constatei mais de uma vez senhores ou jovens senhores, com seu Rolex Blue Oister no pulso, terno e sapatos italianos, as vezes acompanhados por, digamos assim, "namoradas" deslumbrantes, descerem de uma Mercedes (BMW não, não sei por que, mas na época, anos 70 e 80, existiam poucas no Brasil e os novos ricos ou pessoas de sucesso do momento sempre preferiam Mercedes e não BMW, enfim, tem gosto prá tudo...).
De vez em quando tenho vontade de aparecer por lá, pelo menos para saber se ainda existe.
Saudades...
Paul
SP
Outra coisa: o Lo Spuntino tinha os garçons mais infelizes com a profissão de todos os tempos. Ficavam na rua chutando tampinha de garrafa um para o outro e, quando você ousava interromper a partida para pedir alguma coisa, eles faziam aquela cara de “que saco!”.
Vou incluir essa dica aí do bar Maciel em minha próxima viagem de exploração de pés-sujos no Rio. Valeu, Russo!
Agora, diz que o jacaré ainda existe. Eu conheci. Fantástico! Lembro vagamente de um lanche impagável e improvável, mistura inusitada que os mais de 15 anos passados não me deixam recordar. Vamos lá?
Abraço!
Deixe seu comentário:

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex