22.03.07
Sem Jack Kerouac
Procurando informações que confirmassem dados de memória para um texto sobre os 50 anos do livro On The Road para a próxima Revista Paisà, descubro que a Viking Press ainda vende 100 mil cópias do livro todos os anos.
Quantos garotos e meninas arrumando a mochila com meia-dúzia de trocados, lançando-se à estrada, pegando carona com caminhoneiros bem ou mal intencionados, em busca tão-somente da experiência de partir?... Verão a praia em alguns dias, ou semanas, e dormirão mal até que cheguem à última carona ou ao fim da força de vontade. Quantos americanos cruzando a fronteira com o México, dormindo no teto de automóveis em meio aos insetos, suportando um calor inacreditável e esperando pela noite em que tudo acontecerá?... Quantos guris saindo do Rio Grande do Sul de carona em direção às promessas paradisíacas do Nordeste, semanas e semanas antes que tudo se dê, antes do primeiro albergue ou da primeira transa?...
E se Kerouac não tivesse quebrado a perna quando era um expoente do futebol americano na Universidade de Columbia? Como seriam os beatniks, os hippies, os desbundados de todo lado se ele ficasse em seu canto, uma estrela local do esporte americano?
On The Road me pegou na veia. Entre os 15 e os 21 anos, li a edição da Brasiliense sobre os descaminhos de Sal Paradise e Dean Moriarty, pelo menos, umas 15 vezes.
* * *
A Viking Press promete, para o fim de 2007, lançar uma versão do livro da forma como Jack a entregou, ainda sem os longos cortes que os editores da época exigiram para lançá-lo. Paul Slovak, que é publisher da Viking, disse que essa versão tem um maior virtuosismo lingüístico e um tom “sexualmente frenético”.
Essa versão também trará os nomes verdadeiros dos amigos de Jack incluídos no livro.
* * *
Henry Miller (Trópico de Câncer), no prefácio de Os Subterrâneos, meu segundo no top de obras do Kerouac:
“Vivemos a era dos milagres. Foram-se os dias do sossega-leão; os tarados estão na pior; os ousados trapezistas quebraram as vértebras. Era de maravilhas, quando os cientistas, em cumplicidade com os sumos sacerdotes do Pentágono, ensinam de graça a técnica da destruição mútua, porém total. Progresso, pois sim! Faz disso um romance legível, se conseguir. Mas não me vem reclamar das misturas de vida com literatura direitinha e limpa – sem lixo radioativo. Que falem os poetas. Eles são beat mas não são os donos da bomba. Pode crer: não tem nada limpo, nada saudável, nada promissor nessa nossa era de maravilhas – só o cantá-la. E a última palavra provavelmente vai ser dos Kerouac da vida.”
Tradução de Cláudio Willer.
* * *
Não tenho a menor implicância com os Estados Unidos. Longe de mim, implicar com o país que nos deu Hemingway, Fitzgerald, o jazz e os Beach Boys, mas leia esse começo de poema do Allen Ginsberg, “Ecologia”, de A Queda da América, que reúne poesia escrita entre 65 e 71, e veja se não parece coisa de hoje em dia:
“Daqui a mil anos, se houver História
os Estados Unidos serão lembrados como um paisinho antipático
cheio de panacas, espinhenta rosa de estufa
cultivada por jardineiros covardes.”
* * *
No dia 12 de março, Jack Kerouac poderia estar enchendo o pulmão para o sopro de 85 velas se o futebol americano o tivesse afastado de uma incansável máquina de escrever, suas visões da estrada e tudo o que lhe aconteceu por causa dela. Mas acho que não.
Posts similares:
Walter Salles dirige mais
um filme nos EUA
Prosa bop - Jack Kerouac e o jazz
Medo de não escrever
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Hoje eu tava na faculdade - curso jornalismo na UFRN - e fui na biblioteca devolver alguns livros. Ñ resisti e procurei alguns livros pra levar. Qual eu encontro pra ler? On The Road, do beat Jack Kerouac. Estava aqui em casa, esperando minha tia sair do pc p q eu pudesse entrar na net. Enquanto esperava, lia as primeiras páginas do livro. Fascinante. Entrei na net e vejo esse blog dedicando esse post ao Kerouac. Q coincidência da porra!
Mas, ao fim da leitura, tente não vender todos os seus discos para sair em viagem mundo afora. Difícil resistir ao vírus da estrada depois de On The Road.
Abraço.
Mas minhas costas não estão ainda livres de peso, porque aquele seu PET SOUNDS em vinil comprado numa loja furreca de LA em 1987 que vc me emprestou...bem...errr...cof cof...então, sei que está em algum lugar.
Só posso agradecer muito pelas apresentações fundamentais. Valeu!
A edição da Brasiliense, traduzida pelo Eduardo Bueno, estimula mais que a versão de bolso que você encontra em qualquer banca. Mas, se for difícil achar... vale também.
Deixe seu comentário:

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex