21.03.07
A herança de Robert Bresson
Todas as vezes em que comento com alguém sobre a vontade de sair de São Paulo, respirar outros ares (certamente mais puros), logo a pessoa desconfia: “mas você conseguiria ficar sem os cinemas de Sampa?”. Juro que não sei, hoje acho que não conseguiria, embora tenha a esperança de me desapegar. Mas o certo é que aqui, se temos todos os motivos para reclamar do trânsito, dos bandidos e da polícia, dos escapamentos, do barulho do vizinho, não nos falta cinema. E quando digo cinema não me refiro apenas ao número de salas, mas também à diversidade do que podemos assistir.
Toda semana tem uma mostra diferente em São Paulo, algumas mais tímidas e breves, umas tantas a apontar curiosidades, outras mais representativas de artistas de grande poder de invenção e renovação. É o caso de mostras como as de Eric Rohmer na Cinemateca e de John Cassavetes no Cinesesc. Agora chegou a hora do francês Robert Bresson.
Guru de gente como Godard e seus colegas de Nouvelle Vague, Bresson deixou um legado de filmes econômicos, de um estilo muito pessoal e espartano. Trabalhava com não-atores e pouquíssimos elementos para extrair o que de mais puro pode haver no cinema. Um alquimista às avessas, como o descreveria François Truffaut: “sua peneira filtra o ouro para recolher a areia”.
Truffaut também diria que Bresson era um gênio condenado a não fazer escola. Pois é exatamente esse pensamento que uma mostra no Centro Cultural Banco do Brasil pretende negar.
Bresson e O Cinema Contemporâneo, que estará em cartaz de 4 a 22 de abril, tem o objetivo de investigar a influência do cineasta francês sobre realizadores contemporâneos, como Tsai Ming-liang, Aki Kaurismaki e os irmãos Dardenne.
Para quem é fã de Bresson, é uma boa oportunidade para rever seus filmes e observar seus reflexos em longas como A Criança, dos Dardenne, O Homem Sem Passado, de Kaurismaki, Plataforma, de Jia Zhang-Ke, O Rio, de Tsai Ming-liang, e Tiresia, de Bertrand Bonello.
Para os neófitos, chance imperdível de conhecer as grandes realizações do francês: As Damas do Bois de Bolougne, O Processo de Joana D’Arc, Pickpocket, Diário de Um Padre, Mouchette, A Virgem Possuída e A Grande Testemunha.
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O ingresso no CCBB custa só 4 reais. Estudante paga 2.
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Bresson também deixou para a posteridade suas anotações: aforismos sobre a especificidade da linguagem do cinema, que tinha como uma arte original, que deveria comunicar independentemente dos recursos de outras artes.
Em suas Notas do Cinematógrafo (Editora Iluminuras), uma coletânea de escritos, Bresson traduz seus paradigmas da criação e revela o que imagina ser imperativo no pensamento de um artista de cinema.
As aulas do mestre:
“O verdadeiro do cinematógrafo não pode ser o verdadeiro do teatro, nem o verdadeiro do romance, nem o verdadeiro da pintura.”
“Seu filme não está totalmente feito. Ele se faz pouco a pouco sob o olhar. Imagens e sons em estado de espera e de reserva.”
“Quando o público está pronto para sentir antes de entender, quantos filmes lhe mostram e lhe explicam tudo!”
“Tenha certeza de ter esgotado tudo o que se comunica pela imobilidade e pelo silêncio.”
“As idéias, escondê-las, mas de maneira que sejam encontradas. A mais importante será a mais escondida.”
“Não corra atrás de poesia. Ela penetra sozinha pelas articulações.”
“O olho (em geral) superficial, o ouvido profundo e inventivo. O apito de uma locomotiva imprime em nós a visão de toda uma estação de trem.”
“Um ator extrai de si o que não está realmente dentro dele. Ilusionista.”
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex