18.03.07
"Precisamos de grandes cópulas douradas"
Em janeiro, o primeiro lançamento dos Doors fez aniversário: é quarentão já, o álbum The Doors, e Jim Morrison teria 63 anos se não tivesse morrido em 71, afogado em seus excessos. Estivesse vivo e talvez fosse um Zé Celso de Los Angeles, organizando happenings orgiásticos nos acostamentos das highways. Ou não: partiria para a África, rumo ao destino de seu ídolo Rimbaud, em busca de uma nova identidade. Prefiro não imaginá-lo reunindo os antigos colegas de banda, tentando recriar uma experiência impossível de ser repetida.
Impossível porque Jim e a imagem que fizeram dele só poderiam ter o impacto que tiveram naquela segunda metade dos anos 60. Era a revolução comportamental, sexual, musical; bacantes batiam às portas da classe média americana, chamando seus filhos para um bronze ao sol do Verão do Amor. Hippies nas sarjetas, catando piolhos, desbundados de todos os cantos encarando a estrada para o desconhecido, esta obsessão morrisoniana que se repete nas letras de “End of The Night” e “The End”, deste primeiro disco, de 1967. “Queremos o mundo e queremos agora!”, ele exigiria no disco posterior, Strange Days, na jazzística “When The Music is Over”. Seu convite ao sexo, sua atuação explosiva e teatral no palco e a negação à autoridade respondiam aos anseios de toda uma geração. Era a entrega que se materializava num cantor de rock, o meio que era a mensagem naqueles anos de Hendrix, Cream e Dylan.
Impossível a repetição desse impacto agora, porque os anos 60 se moviam sobre uma vontade de rompimento que hoje só existe como negação, não como revolução. Não acreditamos mais que podemos ser o que quisermos; romper limites é perigoso, já diziam os aidéticos anos 80 e suas avalanches de realidade. Não levamos adiante os cânticos do Rei Lagarto: “Vamos reinventar os deuses, todos os mitos (...) Precisamos de grandes cópulas douradas”.
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The Doors, de 67, não é meu disco preferido da banda. Por um lado, tem canções imortais e perfeitas, como “Break on Through”, “Light My Fire”, “The Crystal Ship”, “Take It As It Comes” e “The End”. Mas também tem “I Looked At You”, certamente a pior canção dos Doors na fase Morrison. Depois fariam barbaridades piores, como “The Piano Bird”, do insosso Full Circle, mas essa é outra história. Ao disco de estréia, prefiro Morrison Hotel, álbum de transição da fase psicodélica para o hardblues de L.A. Woman, depois das incertezas de The Soft Parade.
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Comprei meu primeiro disco dos Doors graças a uma resenha da coletânea The Best Of The Doors, feita pelo crítico José Augusto Lemos, numa Bizz de 86. Ele começava o texto descrevendo o início de “Break On Through”, em que entram, passo a passo, a batida de jazz de John Densmore e a seqüência de baixo feita pelo órgão de Ray Manzarek, para então surgir a voz, que grita: “You know the day destroys the night, night divides the day. Tried to run. Tried to hide. Break on through to the other side”.
Muito tempo depois, o Lemos se tornou editor da Superinteressante, onde era chefe do meu amigo e xará, Alexandre Versignassi. Escrevi para o antigo crítico da Bizz, dizendo como aquela resenha tinha influenciado meu destino como fã de rock, e ele ficou emocionado. Afinal, a revista era de 86. Tinha o Matt Dylon na capa, era uma edição sobre os “novos” badboys.
Eu tinha 15 anos, e The Best Of The Doors foi meu segundo álbum de rock. O primeiro foi Under A Blood Red Sky, um ao vivo do U2. Antes, só trilha de novela (ok, eu sei... mas as trilhas eram melhores naquela época de vovó-menina).
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Não há nada mais embaraçoso para um antigo fã de Doors que ver um filme de Oliver Stone retratar seu cantor como um palhaço alienado, um desses drogados sem volta de São Tomé das Letras, recitando poemas a cada fala.
Foi meu rompimento definitivo com o diretor, que não lançou, posteriormente, um filme que me desse motivo para reconsiderar.
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Comentários:
Mas o Under A Blood Red Sky é algo que sempre fica na minha cabeça. Acho que quando penso em Rock, a primeira cena que me vem à cabeça é o Bono cantando Sunday Bloody Sunday, com a famosa introdução "this is not a rebel song". A capa é algo que eu gostaria muito de ter numa parede de casa.
abraços.
Por tudo isso, não dava para encarar um show dos Doors com o cantor do Cult dando pulinhos de Jim Morrison.
Ian, esse disco, para mim, ainda é um dos melhores do U2, um grande álbum ao vivo. De uma fase em que a banda era cheia de energia, com petardos como "New Year's Day". Mas gosto do trabalho posterior também, mais irônico, dialogando com a mídia, mas igualmente talentoso.
Inclusive já inventaram até nomes para o "estilo", como 'performer', e coisas do gênero. E não faltam bandas com posturas louconas, e totalmente artificiais.
A juventude é mesmo uma banda numa propaganda de refrigerantes, rssss E vá falar mal para a banda: ela te dá um soco na cara, rssss
ian astbury = muito melhor que jim morrison
Interessante. No post de 8 de março você fala que a mulher "se nem sempre sabe o quer, já sabe muito bem o que não lhe apraz". E aqui fala sobre "uma vontade de rompimento que hoje só existe como negação, não como revolução". Acho que estamos todos mais céticos, negativistas talvez, e sinto falta de uma esperança cor de rosa e salutarmente meio bêbada.
O Alê sabe tudo de música apesar de gostar de Doors.
Não pago as contas de nenhum deles, portanto "que se dane, pega eu" é o mínimo que deveria ouvir.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex