15.03.07
O universo burocrata (1)
Do que eu vejo na copa da empresa, na hora do almoço...
O relógio da copa aponta que passa das duas da tarde, e dona Rose conversa animada com o filho, Clériston, por telefone, enquanto tenta acomodar a tampa de um vidro de bolachas salgadas. Ela acaba de preparar um inusitado almoço para o diretor, fazendo sanduíches de bolachas salgadas com requeijão, e outros de bolachas do tipo maisena com uma margarina de segunda classe, das molengas. “Ele está de dieta”, explica a dedicada copeira aos que estranham o amontoado de bolachas besuntadas no prato amarelo da empresa.
Seu Edu, que acaba de tomar seu gole de água das duas, não segura o riso enquanto sussurra ao ouvido de Luís, mecânico, sua companhia nas happy-hours de sexta, noite de espetinhos e skol gelada. Os dois esperam que Rose desligue o telefone para que um diálogo em tom mais alto se inicie.
Seu Edu – “Luís, é verdade que o filho da Rose não gosta do nome dele?”
Luís – “Nem me fale, Edu, o coitado nasceu Clériston. Dizem que a Rose colocou esse nome por causa de uma marca de sanfona que tinha lá na Bahia.”
Seu Edu, já gargalhando alto – “É verdade isso, Rose? Clériston é nome de marca de sanfona?”
Dona Rose não tira os olhos do amontoado de bolachas besuntadas, tentando criar uma forma geométrica que dê equilíbrio e ordem às calorias do diretor. Mas o olhar carrancudo não disfarça que sentiu o golpe.
- Vocês dois são é umas pestes. Não tem nome mais bonito do que Clériston nesse mundo. Não tem, não.
Quase ajoelhado de tanto rir, seu Edu insiste na pergunta:
- Mas é nome de sanfona, Rose?
Ela sai apressada, equilibrando a pirâmide de carboidratos e gorduras trans.
- Ah, me deixe em paz, que eu furo os olhos dos dois.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex