11.03.07
É Tudo Verdade 2007
Foi divulgada a programação do festival de documentários “É Tudo Verdade 2007”, que começa no dia 22 de março em São Paulo (dia 23 no Rio). Serão apresentados 141 filmes, entre longas e curtas, incluindo uma retrospectiva das obras de não-ficção do cineasta polonês Krszystof Kieslowski (“Não Matarás”, “A Liberdade é Azul”), uma homenagem ao documentarista Linduarte Noronha e à escola documental paraibana dos anos 60.
Conheço pouco dos estilos e currículos dos diretores de documentários, de modo que escolho os filmes de acordo com meu interesse pelo tema. Às vezes caio do cavalo, mas mesmo os filmes de realização mais quadrada podem me cativar, dependendo do assunto e dos personagens envolvidos. Foi assim com “Meu Tempo é Hoje”, sobre Paulinho da Viola, e “Nelson Freire”, sobre o maior pianista do Brasil, documentários que esteticamente repetem a discrição de seus personagens principais, mas que acertam na sutileza dos pequenos gestos, na simplicidade de seus retratados, que vez por outra beiram a ingenuidade em seus cotidianos. São filmes que souberam fazer com que a imagem prestasse reverência à grandiosidade da música, sem forçar competição.
Além dos documentários do Kieslowski, pretendo, tanto quanto me for possível, engrossar as filas dos seguintes filmes (os resumos são da produção do festival):
Para Sempre (Forever, Heddy Honigmann, Holanda, 95’, 2006) – Um mergulho no cotidiano do mais mítico dos cemitérios de Paris, o Père Lachaise, onde se encontram os túmulos de Oscar Wilde, Simone Signoret e Marcel Proust, entre outros.
Três Camaradas (Drie Kamaraden, Masha Novikova, Holanda, 99’, 2006) –Três jovens chechenos, amantes dos Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd. Termina a URSS, começa o conflito na Chechênia. Numa década, duas guerras impactam tragicamente três destinos. Selecionado para o Sundance 2007.
Fabricando Polêmica (Manufacturing Dissent, Debbie Melnik, Canadá, 77’, 2007) – Um retrato das manhas e artimanhas de Michael Moore.
Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda (Andrucha Waddington, Brasil/RJ, 60’, 2006) – A face privada da cantora baiana, em cenas familiares e conversas com amigos.
Aruanda (Linduarte Noronha, Brasil, 21’, 1960) – Retrato de uma população remanescente de um antigo quilombo em Santana do Sabugi, na Serra do Telhado Paraíba. Mais de 70 anos após a abolição da escravatura, a população permanece isolada da vida sócio-econômica do país, sobrevivendo do artesanato de cerâmica, vendido nas feiras das imediações. A música reitera a estagnação deste modo de vida. O filme é considerado introdutor do Cinema Novo.
O Homem de Areia (Vladimir Carvalho, Brasil, 126’, 1981) – O escritor José Américo de Almeida, autor do célebre “A Bagaceira”, considerado fundador do romance social moderno brasileiro, é o foco deste documentário, que rememora os dias da Revolução de 30, a sua candidatura à presidência em 1937, sua memorável entrevista de 1945, que contribuiu para a queda de Getúlio Vargas e sua vida política à frente do governo paraibano e no ministério.
Você Vai Atuar Esta Noite? (Spelar Du Ikväll?, Are You Playing Tonight?, Torben Skjöt Jensen, Ulf Peter Hallberg, Suécia, 73’, 2006) – Neste filme-ensaio que combina documentário e ficção, o ator bergmaniano Erland Josephson, vítima de Mal de Parkinson, contempla a própria identidade e investiga a verdade oculta do teatro, contracenando com algumas das grandes atrizes suecas: Lena Endre, Maria Bonnevie e Stina Ekblad.
O Engenho de Zé Lins (Vladimir Carvalho, Brasil, 80’, 2006) – Perfil do escritor paraibano José Lins do Rego, que inter-relaciona sua vida e obra, enfocando desde os tempos de sua infância no ambiente que imortalizaria em seus romances do ciclo da cana-de-açúcar até a maturidade e glória literária. Para que as novas e futuras gerações descubram esta ilustre figura humana. E para que todos celebrem o homem solidário e afetivo, amigo fiel e amante apaixonado pelas simples coisas da vida e das gentes do povo, Zé Lins.
Salvando o Jazz (Saving Jazz, Leslie Woodhead, EUA, 58’, 2006) – O fotógrafo Herman Leonard, 83 anos, documentou a história do Jazz, reunindo fotos de mitos como Charlie Parker, Billie Holiday e Duke Ellington, que foram perdidas depois da passagem do furacão Katrina, em Nova Orleans, em 2005.
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba (Thomaz Farkas / Ricardo Dias, Brasil, 10’, 2006) – Em abril de 1954, Thomaz Farkas filmou, com uma câmera 16mm de corda, uma apresentação de Pixinguinha e o Pessoal da Velha Guarda, no parque do Ibirapuera em São Paulo, nos festejos do IV Centenário da cidade. Este material se perdeu e foi reencontrado 50 anos depois.
Em Direção a Mathilde (Vers Mathilde/ Towards Mathilde, Claire Denis, França, 60’, 2004) – História do encontro e do intercâmbio entre duas artes – o cinema e a dança – e de duas mulheres, a cineasta Claire Denis e a coreógrafa Mathilde Monnier.
Glenn Gould – Além do Tempo (Glenn Gould – Au-Delà du Temps/ Glenn Gould – Beyond the Time, Bruno Monsaingeon, França/Canadá, 106’, 2005) – Retrato de Glenn Gould, renomado músico canadense, famoso pelas gravações marcantes da obra de Johann Sebastian Bach. O filme procura definir a essência do artista e sua relação passional com o público.
Tintin e Eu (Tintin et Moi, Tintin and I, Anders Hogsbro Ostergaard, Dinamarca, 74’, 2004) – O personagem Tintim continua a fascinar os leitores mesmo depois de adultos. Em entrevista única, Hergé, seu criador, explica como as aventuras de Tintin estão profundamente conectadas às tensões e conflitos do século XX, assim como a sua própria vida. Projeção em homenagem ao centenário de Hergé.
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Na programação, há também documentários com os temas mais curiosos, para dizer o mínimo. Confira os resumos abaixo:
Super Amigos (Super Amigos, Arturo Perez Torres, México/ Canadá, 82’, 2007) – Cinco ex-lutadores de luta livre trocaram o ringue pelas ruas da Cidade do México, onde, mascarados, defendem causas nobres. Super Barrio, Super Gay, Ecologista Universal, Super Animal e Fray Tormenta não vacilam quando a questão é combater o crime, a corrupção, a homofobia, os abusos contra animais e a pobreza.
- Pergunto: E quem tem um cachorro bissexual que leva pedrada dos meninos da rua? Pede socorro ao Super Gay ou ao Super Animal?
Alguma Tristeza (Alguna Tristeza, Juan Alejandro Ramírez, Peru, 41’, 2006) – Investigação poética sobre as origens históricas de um suposto sentimento de inferioridade do Peru, a partir de uma fraude cometida contra sua seleção de futebol, roubada de sua vitória legítima, diante dos austríacos, na final da Olimpíada de 1936. Uma viagem de trem mostra um país dividido entre cidades superpovoadas e terras sem uso.
- Pergunto: O Peru chegou a uma final olímpica de futebol? E a derrota teria acabado com a moral do povo peruano? Então o que eles fizeram quando sua seleção entregou o jogo para os argentinos na Copa de 78? Suicídio em massa?
Acampamento de Jesus – (Jesus Camp, Heidi Ewing e Rachel Grady, EUA, 84’, 2006) – A diretora do acampamento de verão Kids on Fire, na Dakota do Norte, Becky Fischer, esforça-se para que não haja mau entendimento: Harry Potter é um inimigo de Deus condenado à morte no tempo do Antigo Testamento. Crianças ouvem atentamente o que ela diz e são criadas num movimento político que, segundo os líderes, pode ser determinante para as eleições nos Estados Unidos.
- Pergunto: Harry Potter é inimigo de Deus? Depois dá no que dá: matam o Kennedy, elegem o Bush, dão Oscar para o “Crash”...
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.