08.03.07
Mulherio
Há uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, em suas comédias da vida privada, que afirma que Deus, após ter criado os rios e mares, as matas e as montanhas, e daí ter passado aos animais, às aves e insetos, sentindo que algo faltava, pôs a cachola divina para funcionar, e caprichou tanto em sua nova criação que deu ao mundo a mulher *.
A mulher de Vinícius, a doce namorada, amiga e companheira, que segue o caminho do poeta, ainda que o trajeto lhe seja triste, deu lugar a todas as mulheres do mundo de Domingos de Oliveira, representadas em Leila Diniz. A ternura da moça do calçadão, perfeita em seu caminho do mar, está ali, mas agora há também a atitude, o desejo de conquista, o inconformismo, a liberdade de pensar e ser o que bem quiser.
Na quinta-feira da semana passada, Contardo Calligaris, em sua coluna na Folha de S. Paulo, colocou em questão nossa capacidade de mudança, lembrando que Emma Bovary teve o amor como operador moderno de sua transformação. Cito: “... sentia que ela era muito mais do que parecia pela rotina de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura”. Bovary seria uma exceção entre nós, que desejamos mudar o emprego, a vida amorosa, ir morar na praia e “dar um chute no patrão” (“Senhor F”, Os Mutantes), mas ousamos tão-somente trocar a cor do carro, o caminho para o trabalho, se tanto. “O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida”, conclui Calligaris.
Dessa incapacidade de mudar, minha impressão é de que as mulheres estão cada vez mais livres que os homens. Hoje há menos Bovarys, porque a mulher esclarecida é muito menos condescendente com o que não lhe satisfaz. Está irresistível em sua independência e felicidade, e, se nem sempre sabe o quer, já sabe muito bem o que não lhe apraz. Diferentemente de nós, meninos assustados e indecisos quanto ao próximo passo, enterrados no fundo de um sofá diante da TV, nossa nova companheira no silêncio de nós dois.
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* O diabo, esse farrista, para avacalhar com tudo o que Deus fizera, deu de mexer em Sua lata de lixo, juntou os restos que não prestavam da matéria-prima das moças, botou uma camisa do Corinthians aqui (esta afirmação já é minha), uma barriga de chope ali, e deu ao planeta o homem. Daí para os holocaustos, as pestes, a escravidão, o congresso brasileiro e as mesas redondas sobre futebol seria um passo.
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A Folha de quinta vale muito a pena. Além da coluna do Calligaris, tem as matérias sobre gastronomia, dicas de restaurantes bons e baratos, e a coluna da Nina Horta, sobre cozinha da infância, “comfort food” e outros assuntos deliciosos. Assinante UOL consegue ler tudo na Internet.
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Comentários:
Acho que a falta de conteúdo de qualidade na rede é generalizada, haja vista o espaço dedicado aos "reality shows" nas páginas principais dos grandes portais. Mais triste é concluir que é a própria demanda por porcaria que gera tanto lixo, assim como já acontece na TV aberta.
Grande beijo
Confortável o template. Parabéns, já bato ponto todos os dias.
obs 1 (comentário anterior) - os casamentos terminam em sua maioria por iniciativa das mulheres sim, e também pela capacidade conclusiva dos homens; pequena porcentagem não é a dos casamentos que terminam por iniciativa masculina e sim a de separações litigiosas. Se ela diz "você não presta e não quero mais", ele diz "ótimo, enfim paz".
Abraço grande.
A namorada pergunta: "Meu bem, o que você quer de aniversário?"; ele responde: "Sossego".
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex