03.03.07
Mario Quintana - a máquina do tempo
Descobri uma máquina do tempo na estação Vila Madalena do metrô. Não está mais lá, mas juro que dei de cara com ela e sofri seus efeitos. Era uma exposição de fotos e poemas de Mario Quintana, um tipo diverso do conceito que temos de máquina do tempo. Porque, diferentemente da De Lorean de Michael J. Fox, não pretendia transportar seus ambiciosos usuários ao passado ou ao futuro, mas sim tornar vívida a percepção de que o tempo é relativo.
O metrô existe para encurtar distâncias, de modo figurado, claro, e assim permitir que ganhemos tempo em nossos deslocamentos pela cidade. É uma máquina de aceleração, faz com que eu saia da avenida Ricardo Jafet, entrando pela estação Imigrantes, quase na saída para as praias do litoral sul, e, como que por efeito de um milagre, reapareça em plena Heitor Penteado, zona oeste, em apenas 20 minutos.
No metrô, tudo é pressa e ansiedade. Queremos diminuir esses 20 minutos já impressionantes, queremos bater os recordes das viagens subterrâneas. Pois viajar de ônibus ou de metrô, a não ser que presos a uma leitura empolgante, é o mesmo que estar na fila do banco: um tempo morto, um intervalo do não-existir. Pior que isso, pois há o sofrer: os apertos, os empurrões, a falta de etiqueta, a agonia das plataformas-formigueiros das seis da tarde. Por isso, ainda que a finalidade de trajeto seja um passeio à toa pelas ruas do centro, corremos para entrar no vagão antes que as portas se fechem, entramos em latas de sardinha para não ter que esperar mais dois minutos pelo próximo trem, subimos apressados as escadas rolantes, que existem para que não sejamos obrigados a este esforço. Tudo é pressa e ansiedade no metrô, até que se dê de cara, inesperadamente, com as palavras de Quintana no caminho.
Parei certa vez, depois de tanto desprezá-las em prol de minha marcha apressada, e o tempo sofreu uma desaceleração nítida, como se um trem-bala se transformasse em Maria Fumaça, para que contemplássemos o entorno, a Serra da Mantiqueira, estranhando e finalmente assistindo criticamente à pressa dos que rodam os roletas da estação. Impossível não ler um de seus poemas e se esquecer da pressa, do horário, do cartão de ponto, e ler mais um, e mais um, e notar as diferenças entre o Quintana moço e o maduro... Com que idade teria escrito aquele poema? Quão experiente seria o poeta desse texto? E daquele? Reflexões tão contrárias ao corre-corre de quem só tem o chefe diante dos olhos.
* * *
A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela, amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)
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Parabéns pelo BLOG.
'Prost' (saúde)
O teu coração não me engana
Se eu fosse o Mario Quintana
você por mim passaria
ou passará, ou passarinha, sei lá
Um dia vou te encontrar
e no teu ninho escondido
na árvore de amor sortido
vou fazer você voar
Sandro Kretus
http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/1098646
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.