01.03.07
O céu de Martin
E já que esta é a grande semana de Martin Scorsese, voltemos a ele.
No começo do ano passado, a primeira edição em banca da Revista Paisà incluía uma seção especial com os dez melhores filmes de 2005 (ano em que foram lançados no Brasil), segundo 16 críticos de cinema. E o “Aviador” foi o número 1 da minha relação, assim como da lista do crítico Paulo Santos Lima, enquanto tinha outras colocações nas listas de mais cinco votantes. Na classificação geral, ficou na nona colocação. O primeiro foi “Marcas da Violência”, do Cronenberg, terceiro da minha lista.
Apesar de ser a desejada volta de Scorsese aos filmes de crime organizado, “Os Infiltrados” não tem a riqueza de nuances de “O Aviador”, seu mergulho nas idiossincrasias dos perturbados, sua câmera perscrutando a infelicidade auto-imposta. O filme na época foi mal entendido por parte da crítica, que o julgava como a tentativa do diretor de ganhar um Oscar. Besteira.
Não achei então, e não acho agora, que Scorsese estivesse com a cabeça no prêmio ao conceber e rodar este filme sobre a vida do magnata freak Howard Hughes, como não achei que o fizesse ao dirigir este bom filme policial, que é “Os Infiltrados”. Se ganhou agora e foi preterido antes, só as circunstâncias e a cabeça dos “acadêmicos de Hollywood” explicam. Desta vez, com exceção de “Cartas de Iwo Jima”, a concorrência era muito fraca, a pesou, como bem apontou o crítico e blogueiro Chico F., um momento “conjunto da obra” da Academia, em que receberam o prêmio pessoas que, apesar de não terem apresentado o melhor de seus desempenhos, foram escolhidos pelos serviços prestados ao cinema.
Concordo, não foi só o Morricone. Exemplo maior se deu na premiação do ator Alan Arkin, por seu pequeno papel no despretensioso e carismático “Pequena Miss Sunshine”. Senti pena de Eddie Murphy, que dificilmente terá outra chance tão forte de uma premiação, assim como havia sentido de Bill Murray, que ficou evidentemente arrasado quando não ganhou por “Encontros e Desencontros”.
E “O Aviador” ainda tem Leonardo DiCaprio em seu melhor momento como ator, ao interpretar um personagem da complexidade de Hughes, que tinha um lado caipira, um lado sofisticado, podia ser prepotente e frágil, intrépido e assustado, afogado em suas manias.
Este é o texto que fiz sobre “O Aviador” para a matéria sobre os melhores de 2005. Pequena homenagem a um grande filme de um dos maiores realizadores do cinema.
A determinação de voar mais alto que qualquer um, de criar a maior aeronave jamais sonhada, de fazer o filme mais caro de todos os tempos, de conquistar o impossível... O outro lado de uma perturbação incessante, uma loucura, vozes que se embaralham (limpeza, pureza, isolamento) e que só entram em uníssono a bordo de um avião tão rápido quanto a vida.
“O Aviador” explora a riqueza de um personagem que flerta com a humanidade, mas a teme e rejeita, porque se acredita único, como suas proezas deveriam provar. Nas mãos de um Scorsese em momento de grandeza, este personagem rende passagens como a em que Howard Hughes aceita a atriz Katharine Hepburn como alma gêmea (“Aren’t we a fine pair os misfits?”, definiria ela), outra extraterrestre pura em meio à gente falante, que se toca e troca bactérias. A singela declaração de amor de um homem que tem fobia de contaminação: permitir que ela beba leite no gargalo de sua própria garrafa.
Numa das melhores interpretações de Leonardo DiCaprio, senão a melhor, Hughes faz companhia a Jake LaMotta entre os personagens de Scorsese que tinham o céu diante de si, mas o inferno em cada célula.
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Comentários:
O AVIADOR escancara o SCORCESE amante do Cinema. É uma das MELHORES DECLARAÇÕES de amor.
O que fiquei curioso é que ouvi muitas outras histórias do HUGHES, umas bem cabeludas, de que ele sacaneeou meio mundo... conhece algum bom livro a respeito?
Abraços, Alê.
Ian, nunca me caiu nas mãos um livro sobre o Hughes. Se você descobrir um bacana, avise aos vizinhos de portal.
Grande abraço.
Valeu, Thiago. Apareça sempre.
Sergião, é mais ou menos isso, a própria forma como Scorsese os retrabalha já faz com que escapem da percepção congelada do público que citei. Não são os clichês que eles esperam.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex