27.02.12
Evento gratuito sobre cinema digital
Amanhã, 28 de fevereiro, vai rolar um evento sobre cinema digital, na faixa. Confira abaixo:
Com o objetivo de promover reflexões acerca do cinema digital contemporâneo, adentrando em sua história, teorias e práticas, a Universidade Anhembi Morumbi realiza na próxima terça-feira, 28 de fevereiro, às 19h30, no câmpus Vila Olímpia, conferência que contará com a participação do especialista em ficção científica audiovisual Dr. Alfredo Suppia. O evento marca o início do ano letivo do Mestrado de Comunicação da instituição.
Professor de História e Teoria do Cinema no Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, Suppia é membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) e da Science Fiction Research Association (SFRA). Autor do livro A Metrópole Replicante: Construindo um diálogo entre Metropolis e Blade Runner, tem se envolvido em pesquisa e produzido artigos e capítulos sobre cinema de gênero, cinema de ficção científica, cinema digital, cinema latino-americano, cinema independente, adaptação, história e teoria do cinema e do audiovisual.
Os interessados em participar da conferência gratuita podem se inscrever pelo email mecomunicacao@anhembi.br
As vagas são limitadas.
17.02.12
Cópia Fiel é o melhor filme de 2011, segundo blogueiros
Cópia Fiel ganhou como melhor filme de 2011, segundo a Liga dos Blogues Cinematográficos. Escrevi sobre o filme ano passado, na Revista Beta.
É importante para a leitura desta crítica, saber que nunca fui fã do cinema de Abbas Kiarostami, que sempre considerei superestimado, nem do que se convencionou chamar de “filme iraniano”, de forma mais generalizada. O cinema espartano à Rossellini, com não-atores e que parte do zero para chegar à mise-en-scène, sempre me pareceu muito mais interessante com o original italiano do que com seus seguidores do Irã; para mim, nenhum deles conseguiu atingir a essência do cinema de Rossellini, a de criar o belo e expressar mais com recursos mínimos. Através das Oliveiras e Gosto de Cereja me aborreceram, me entediaram, me colocaram de pés atrás em relação aos filmes feitos nesse país; nada do deslumbramento que testemunhei entre tantos amigos, cinéfilos ou não. Quase dormi em Salve O Cinema, de Mohsen Makhmalbaf. Um suplício, esperar até o fim.
Daí me perguntar se ter gostado tanto de Cópia Fiel, o novo filme de Kiarostami, tem mais a ver com algo de novo no cinema desse diretor – e com o fato de ser seu primeiro filme produzido fora do Irã – ou com uma mudança de avaliação que é minha, de como via esse cinema em meados dos anos 90 e como o vejo agora.
Cópia Fiel é inventivo, inteligente e aberto à interpretação, coisa que raríssimos filmes de qualquer tempo conseguem ser. Elle (Juliette Binoche, melhor atriz em Cannes pelo papel) é a dona de um antiquário que leva o escritor James Miller (interpretado pelo cantor de ópera William Shimell) para um passeio pela Toscana, na Itália. O início deste passeio lembra dois filmes de Richard Linklater, Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, com um diálogo contínuo entre os dois personagens, repleto de tiradas inteligentes – aqui, mais intelectuais – e provocações. Fosse assim o filme inteiro, já seria um prazer. Mas há um ponto de virada na trama que dá ao filme uma grandeza surpreendente.
O tema principal dos diálogos entre os protagonistas é o do livro que James acaba de lançar, que questiona se uma cópia – no livro, referindo-se a obras de arte – não pode ter valor semelhante ao de seu original. E mais: se o que consideramos como original não é, em algum ponto, também reprodução de algo anterior. Mona Lisa não seria uma cópia da originalidade do sorriso de Gioconda? E o próprio sorriso famoso não seria uma imitação do que Da Vinci teria pedido à modelo?
A virada se dá quando, em um café, uma atendente italiana tem a impressão de que James e Elle seriam marido e mulher. Elle entra no jogo, assumindo diante da senhora que seria a esposa do escritor e, em seguida, sem combinação ou aviso, passa a se dirigir a James como se ele fosse realmente seu marido; um marido distante da família, pai e esposo ausente, talvez adúltero. James topa a brincadeira e substitui suas observações eruditas pela irritação, abstração e tédio do marido ausente.
A partir daí, o filme se torna um jogo, um jogo de espelhos que estende o ensaio sobre cópia e original para o relacionamento que vemos na tela. Elle e James dão tanta autenticidade a seus novos papéis na história que o espectador, a certo ponto, se pergunta: são, como parecia, dois quase desconhecidos a brincar de marido e mulher, ou se trata, ao contrário, de um casal distanciado que, no primeiro momento, mantinha uma conversa sem intimidade e que, aos poucos, se apresenta como é?
A dúvida, que só cabe ao espectador responder, é elemento-chave na trama, e que se beneficia das interpretações do par de atores. Enquanto William Shimell se mostra seguro ao demonstrar a arrogância do artista diante de uma mulher comum, Binoche é um espetáculo à parte. Em cada cena, em cada diálogo, a atriz – no papel de uma mulher imersa em sentimentos contraditórios – dá todo o calor de que um filme de arte, muitas vezes, parece sentir falta.
Cópia Fiel é um grande filme, imperdível. E que me fará, com certeza, voltar às produções anteriores de Abbas Kiarostami, ainda que para investigar se o errado era ele ou era eu.
* * *
Cópia Fiel (Copie Conforme)
Direção: Abbas Kiarostami
Com: Juliette Binoche (Elle) e William Shimell (James Miller).
Avaliação: EXTRAORDINÁRIO.
15.02.12
Cinema na Internet - Revista Interlúdio
Vale conferir uma nova revista eletrônica sobre cinema: Revista Interlúdio.
O projeto é do crítico Sérgio Alpendre, que foi meu sócio na extinta revista Paisà (que era impressa mesmo e bancada com os nossos próprios e limitados recursos).
Também escrevo lá, num cantinho chamado Soda Pop, que aborda temas diversos relacionados a comportamento, cultura, livros... o que der na telha e não for cinema e música, que têm seções específicas para eles.
Acesse: www.revistainterludio.com.br
E confira abaixo a apresentação do Sérgio sobre a nova revista:
A Revista Interlúdio surge no crepúsculo de 2011 como uma revitalização da extinta Paisà (2005-2008), desta vez exclusivamente em formato eletrônico.
Com proposta semelhante à da revista anterior, quatro editores e mais de vinte colaboradores, a revista propõe a diversidade de foco e um trabalho pautado pela crítica cinematográfica. O leitor que quiser ensaios mais profundos, encontrará aqui. O que preferir uma leitura mais leve, também a terá.
A seção CINEMA obviamente é a principal. Nela temos subseções de periodicidades variadas: atualizações semanais para “Nos cinemas” e “DVD”, quinzenais ou mensais para “Festivais” e “Fotogramas”, bimestrais para “Dossiê”.
As atualizações da subseção “Nos cinemas” não serão vinculadas às estreias dos filmes. A intenção é dialogar com quem já viu o filme criticado, em vez de indicar o que deve ou não deve ser visto. Por isso, tais atualizações podem acontecer em qualquer dia da semana, não somente às sextas-feiras. O quadro de cotações responde pela pluralidade do gosto de nossa equipe, e terá atualização constante (que vai variar de acordo com os lançamentos e dossiês).
As seções MÚSICA e SODA POP respondem por nossos interesses diversos, com ou sem relação com o cinema, e terão periodicidades igualmente variadas (atualizações semanais, mensais ou bimestrais). É importante salientar que em MÚSICA o foco é o Classic Rock (bandas e artistas que lançaram o primeiro disco até 1992), com algumas pitadas de jazz, MPB e o que mais nos entusiasmar.
Sejam bem-vindos, caros leitores.
Os editores
21.03.11
O Discurso do Rei, de Tom Hooper
Melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva (1952) tem um argumento tão bem desenvolvido quanto seus números de dança: a adaptação – às vezes duríssima – dos atores do cinema mudo à chegada da voz às cenas. O Discurso do Rei, de Tom Hooper, olha para dificuldade parecida. Mas, em vez de atores, vemos gente da realeza britânica tendo de conviver com a novidade que eram as transmissões radiofônicas – década de 30. Antes, bastava a fotogenia e uma boa postura em público para que a noção de nobreza fosse preservada. A partir de então, precisavam que sua voz chegasse à casa das pessoas. De alguma forma, viravam atores também.
E que espécie de ator pode ser um gago? Ou pior, um rei gago? Dá para se pensar em personagem de filme do Monty Python.
Pois é para evitar que se torne essa memória risível que Bertie, ou Albert, ou rei George VI (Colin Firth) – pai da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II – busca ajuda profissional antes mesmo de se tornar rei, ainda como Duque de York. De especialista em especialista, fracasso em fracasso, chega a Lionel Logue (Geoffrey Rush), um fonoaudiólogo autodidata cheio de excentricidades. E o que há de mais engraçado e de mais sensível no filme está no conflito entre essas duas personalidades que, à primeira vista, não se encaixam: a informalidade provocativa e autoconfiante do terapeuta contra o distanciamento e a insegurança do monarca.
Como é regra no que chamamos de “filme de atores” – classificação que serve bem aqui –, a peça-chave são os diálogos. E eles funcionam. Dão bom humor à insistência paciente com que a rainha Elizabeth (Helena Bonham Carter) leva o marido a se tratar; sugerem um passado em que a gagueira de Bertie era tratada com escárnio e intolerância em sua própria família; dão química ao estranho casal formado pelo rei e seu terapeuta. Méritos de David Seidler, que, com carreira consolidada nos filmes feitos para TV – o que, em si, não é um problema – também foi roteirista do ótimo Tucker – Um Homem e Seu Sonho (1988), de Coppola.
Os takes longos do rosto de Bertie, angustiado na briga com os inícios falsos e as longas pausas de sua fala, é o que salva o filme de ser em tudo um feel-good movie, do tipo para se ver numa tarde de chuva, com um chocolate quente à mão. A angústia nessas cenas não é engraçada. Aliás, um dos maiores acertos de Hooper é evitar a facilidade de usar a gagueira do rei como muleta do que o filme tem de comédia. O problema de Bertie é o que responde pela parte dramática da história. O humor está na sua interação com o fonoaudiólogo.
Aí, sim, tudo é bonitinho demais, dos exercícios heterodoxos do tratamento à crescente aproximação entre os personagens – a princípio inconciliáveis –, que chega ao clímax quando o rei aceita Logue como um igual e, em sentido contrário, o terapeuta finalmente se dirige a George VI com submissão.
Lágrimas e risos programados tornam O Discurso do Rei um passatempo esquecível, apesar de bem feito, impedindo que vá além do bom filme de atores que é. O que de fato surpreende? A subtrama com o irmão mais velho de Bertie, o rei Edward VIII, que desiste do trono em favor do caçula para ficar com uma americana divorciada – um escândalo para a época e para o cargo. Guy Pearce está fantástico como o nobre playboy que quer ter vida de plebeu, e o aumento da participação desse drama paralelo, de renúncia e espírito romanesco, certamente deixaria o filme, senão melhor, menos óbvio.
* * *
O Discurso do Rei (The King’s Speech)
Direção: Tom Hooper
Com: Colin Firth (rei George VI), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helena Bonham Carter (rainha Elizabeth) e Guy Pearce (rei Edward VIII).
Avaliação: BONZINHO
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Crítica publicada originalmente na Revista Beta: www.revistabeta.com.br
Toda sexta-feira, a revista publica uma nova crítica minha.
12.03.11
O orgulho de Lowell - crítica do filme O Vencedor
O argumento, você já conhece. Filmes sobre boxe formam um gênero próprio no cinema, quase sempre centralizando a trama em um pobre coitado que, apesar de todas as adversidades e de ninguém dar nada por ele, vale-se de uma superação obstinada para chegar ao topo.
Se você analisar apenas por esse lado, O Vencedor não é lá muito diferente de Rocky, Um Lutador, Touro Indomável e Marcado pela Sarjeta – sem querer compará-lo à grandeza dessas obras. Mas, se o argumento não foge aos clichês, o filme de David O. Russell não se restringe a eles. Até porque, no fim das contas, o boxe é o que menos importa aqui.
Baseado numa história real, O Vencedor trata do drama de uma família disfuncional ao extremo, de afetos tortos, conflituosos, em que o personagem principal, o lutador Micky Ward (Mark Wahlberg), parece (ou deveria) ser o centro das atenções. É treinado por seu irmão mais velho, um ex-boxeador, agenciado pela própria mãe e acompanhado de perto pelas irmãs, um bando de louras barraqueiras que reprovam a nova namorada do rapaz (Amy Adams, ótima, fazendo o contraponto positivo à família).
Mas Micky vai lutar o filme inteiro para ser protagonista da própria vida, já que sua mãe e seu irmão querem os papeis principais desse enredo – por uma questão de hierarquia dos mais velhos, talvez, ou por causa do amor cego da mãe pelo primogênito.
E este irmão mais velho é que rendeu ao ator Christian Bale seu primeiro Oscar. Dicky, o personagem, é um anti-herói que trocou os ringues pelo vício em crack. O que só não fez com que caísse em desgraça com a família: para os Ward, Dicky ainda é o “orgulho de Lowell”, o boxeador que, uma vez, teria derrubado o campeão Sugar Ray Leonard – segundo a lenda que corre na cidade. O termo é ambíguo, irônico e ao mesmo tempo correto, porque, se Dicky não tem nada que inspire orgulho... ele é a cara de Lowell. A cidade natal do escritor Jack Kerouac, no estado de Massachusetts, hoje é berço de desempregados e gente de pouca esperança, que se vira como pode – o próprio Micky, além de pugilista, é pavimentador de rua.

Christian Bale, irreconhecível
Bale triunfa ao expressar toda a complexidade desse personagem de várias camadas. Seu Dicky é um pateta drogado, brincalhão e amoroso, um fracasso ambulante que vai minando as possibilidades do irmão – a quem ama de verdade – sem perceber. Mas é também um enigma. Há naquela figura triste um ex-boxeador de verdade, alguém que já obedeceu à disciplina do esporte e que, bem ou mal, chegou a enfrentar um campeão no ringue. A dúvida, que paira até sua saída da prisão, depois de uma tentativa mal-sucedida de extorsão, é se o crack teria conseguido destruir tudo o que resta do homem por trás do flagelo viciado que surge na tela.
Sua família aposta que não. É como se a carreira do irmão mais novo fosse apenas um passatempo até a improvável volta de Dicky aos ringues. Melissa Leo (de Rio Congelado) está perfeita como a matriarca perua e vagaba, mas superprotetora, que tem dificuldade em esconder a predileção pelo mais velho, fechando os olhos para os seus dramas – e até compactuando com eles.
Diferentemente do que manda o clichê do gênero, o clímax do filme não está na vitória redentora de Micky no ringue – embora O Vencedor não escape do seu “final Karatê Kid”. A reviravolta acontece quando a cidade e a família assistem, entre constrangidas e horrorizadas, a um documentário da HBO sobre a vida de Dicky, expondo seu vício em drogas e o farrapo humano em que o orgulho de Lowell se transformou. É quando o presente se impõe ao passado, e o coadjuvante de luxo, que até então se equilibrava entre a lenda e a anedota, se transforma em herói trágico.
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O Vencedor (The Fighter)
Direção: David O. Russell
Com: Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Melissa Leo (Alice Ward) e Amy Adams (Charlene Fleming)
Avaliação: BOM
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Crítica publicada originalmente na Revista Beta: www.revistabeta.com.br



Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex