21.03.11
O Discurso do Rei, de Tom Hooper
Melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva (1952) tem um argumento tão bem desenvolvido quanto seus números de dança: a adaptação – às vezes duríssima – dos atores do cinema mudo à chegada da voz às cenas. O Discurso do Rei, de Tom Hooper, olha para dificuldade parecida. Mas, em vez de atores, vemos gente da realeza britânica tendo de conviver com a novidade que eram as transmissões radiofônicas – década de 30. Antes, bastava a fotogenia e uma boa postura em público para que a noção de nobreza fosse preservada. A partir de então, precisavam que sua voz chegasse à casa das pessoas. De alguma forma, viravam atores também.
E que espécie de ator pode ser um gago? Ou pior, um rei gago? Dá para se pensar em personagem de filme do Monty Python.
Pois é para evitar que se torne essa memória risível que Bertie, ou Albert, ou rei George VI (Colin Firth) – pai da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II – busca ajuda profissional antes mesmo de se tornar rei, ainda como Duque de York. De especialista em especialista, fracasso em fracasso, chega a Lionel Logue (Geoffrey Rush), um fonoaudiólogo autodidata cheio de excentricidades. E o que há de mais engraçado e de mais sensível no filme está no conflito entre essas duas personalidades que, à primeira vista, não se encaixam: a informalidade provocativa e autoconfiante do terapeuta contra o distanciamento e a insegurança do monarca.
Como é regra no que chamamos de “filme de atores” – classificação que serve bem aqui –, a peça-chave são os diálogos. E eles funcionam. Dão bom humor à insistência paciente com que a rainha Elizabeth (Helena Bonham Carter) leva o marido a se tratar; sugerem um passado em que a gagueira de Bertie era tratada com escárnio e intolerância em sua própria família; dão química ao estranho casal formado pelo rei e seu terapeuta. Méritos de David Seidler, que, com carreira consolidada nos filmes feitos para TV – o que, em si, não é um problema – também foi roteirista do ótimo Tucker – Um Homem e Seu Sonho (1988), de Coppola.
Os takes longos do rosto de Bertie, angustiado na briga com os inícios falsos e as longas pausas de sua fala, é o que salva o filme de ser em tudo um feel-good movie, do tipo para se ver numa tarde de chuva, com um chocolate quente à mão. A angústia nessas cenas não é engraçada. Aliás, um dos maiores acertos de Hooper é evitar a facilidade de usar a gagueira do rei como muleta do que o filme tem de comédia. O problema de Bertie é o que responde pela parte dramática da história. O humor está na sua interação com o fonoaudiólogo.
Aí, sim, tudo é bonitinho demais, dos exercícios heterodoxos do tratamento à crescente aproximação entre os personagens – a princípio inconciliáveis –, que chega ao clímax quando o rei aceita Logue como um igual e, em sentido contrário, o terapeuta finalmente se dirige a George VI com submissão.
Lágrimas e risos programados tornam O Discurso do Rei um passatempo esquecível, apesar de bem feito, impedindo que vá além do bom filme de atores que é. O que de fato surpreende? A subtrama com o irmão mais velho de Bertie, o rei Edward VIII, que desiste do trono em favor do caçula para ficar com uma americana divorciada – um escândalo para a época e para o cargo. Guy Pearce está fantástico como o nobre playboy que quer ter vida de plebeu, e o aumento da participação desse drama paralelo, de renúncia e espírito romanesco, certamente deixaria o filme, senão melhor, menos óbvio.
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O Discurso do Rei (The King’s Speech)
Direção: Tom Hooper
Com: Colin Firth (rei George VI), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helena Bonham Carter (rainha Elizabeth) e Guy Pearce (rei Edward VIII).
Avaliação: BONZINHO
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Crítica publicada originalmente na Revista Beta: www.revistabeta.com.br
Toda sexta-feira, a revista publica uma nova crítica minha.
12.03.11
O orgulho de Lowell - crítica do filme O Vencedor
O argumento, você já conhece. Filmes sobre boxe formam um gênero próprio no cinema, quase sempre centralizando a trama em um pobre coitado que, apesar de todas as adversidades e de ninguém dar nada por ele, vale-se de uma superação obstinada para chegar ao topo.
Se você analisar apenas por esse lado, O Vencedor não é lá muito diferente de Rocky, Um Lutador, Touro Indomável e Marcado pela Sarjeta – sem querer compará-lo à grandeza dessas obras. Mas, se o argumento não foge aos clichês, o filme de David O. Russell não se restringe a eles. Até porque, no fim das contas, o boxe é o que menos importa aqui.
Baseado numa história real, O Vencedor trata do drama de uma família disfuncional ao extremo, de afetos tortos, conflituosos, em que o personagem principal, o lutador Micky Ward (Mark Wahlberg), parece (ou deveria) ser o centro das atenções. É treinado por seu irmão mais velho, um ex-boxeador, agenciado pela própria mãe e acompanhado de perto pelas irmãs, um bando de louras barraqueiras que reprovam a nova namorada do rapaz (Amy Adams, ótima, fazendo o contraponto positivo à família).
Mas Micky vai lutar o filme inteiro para ser protagonista da própria vida, já que sua mãe e seu irmão querem os papeis principais desse enredo – por uma questão de hierarquia dos mais velhos, talvez, ou por causa do amor cego da mãe pelo primogênito.
E este irmão mais velho é que rendeu ao ator Christian Bale seu primeiro Oscar. Dicky, o personagem, é um anti-herói que trocou os ringues pelo vício em crack. O que só não fez com que caísse em desgraça com a família: para os Ward, Dicky ainda é o “orgulho de Lowell”, o boxeador que, uma vez, teria derrubado o campeão Sugar Ray Leonard – segundo a lenda que corre na cidade. O termo é ambíguo, irônico e ao mesmo tempo correto, porque, se Dicky não tem nada que inspire orgulho... ele é a cara de Lowell. A cidade natal do escritor Jack Kerouac, no estado de Massachusetts, hoje é berço de desempregados e gente de pouca esperança, que se vira como pode – o próprio Micky, além de pugilista, é pavimentador de rua.

Christian Bale, irreconhecível
Bale triunfa ao expressar toda a complexidade desse personagem de várias camadas. Seu Dicky é um pateta drogado, brincalhão e amoroso, um fracasso ambulante que vai minando as possibilidades do irmão – a quem ama de verdade – sem perceber. Mas é também um enigma. Há naquela figura triste um ex-boxeador de verdade, alguém que já obedeceu à disciplina do esporte e que, bem ou mal, chegou a enfrentar um campeão no ringue. A dúvida, que paira até sua saída da prisão, depois de uma tentativa mal-sucedida de extorsão, é se o crack teria conseguido destruir tudo o que resta do homem por trás do flagelo viciado que surge na tela.
Sua família aposta que não. É como se a carreira do irmão mais novo fosse apenas um passatempo até a improvável volta de Dicky aos ringues. Melissa Leo (de Rio Congelado) está perfeita como a matriarca perua e vagaba, mas superprotetora, que tem dificuldade em esconder a predileção pelo mais velho, fechando os olhos para os seus dramas – e até compactuando com eles.
Diferentemente do que manda o clichê do gênero, o clímax do filme não está na vitória redentora de Micky no ringue – embora O Vencedor não escape do seu “final Karatê Kid”. A reviravolta acontece quando a cidade e a família assistem, entre constrangidas e horrorizadas, a um documentário da HBO sobre a vida de Dicky, expondo seu vício em drogas e o farrapo humano em que o orgulho de Lowell se transformou. É quando o presente se impõe ao passado, e o coadjuvante de luxo, que até então se equilibrava entre a lenda e a anedota, se transforma em herói trágico.
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O Vencedor (The Fighter)
Direção: David O. Russell
Com: Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Melissa Leo (Alice Ward) e Amy Adams (Charlene Fleming)
Avaliação: BOM
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Crítica publicada originalmente na Revista Beta: www.revistabeta.com.br
17.02.11
Curso de cinema japonês
O crítico de cinema Sérgio Alpendre, meu ex-sócio na Revista Paisà e que atualmente fala sobre filmes no Guia da Folha, vai realizar um curso sobre cinema japonês entre abril e junho, sempre às quintas-feiras. Confira a programação.
PANORAMA DO CINEMA JAPONÊS
Dividido em três módulos, o curso fornece um panorama desse cinema riquíssimo e muito elogiado, mas pouco visto e discutido que é o cinema japonês, com base na análise das obras de alguns de seus principais diretores. Todas as aulas terão um filme base, de preferência inédito em DVD no Brasil, que será exibido na íntegra, e uma análise da carreira do diretor enfocado, com trechos de alguns de seus filmes mais importantes.
O módulo I abordará os mestres, desde o mais ligado a uma tradição contemplativa da cultura e da narrativa japonesa (Ozu) até o mais ocidentalizado (Kurosawa), passando pelos mestres no retrato das mulheres nipônicas (Mizoguchi e Naruse).
O módulo II analisará o cinema moderno japonês (que foi chamado de nouvelle vague japonesa), um cinema iconoclasta, de estéticas radicais e de algum escândalo, como por exemplo, Nagisa Oshima, o cineasta dessa geração mais famoso no ocidente em razão de seu Império dos Sentidos, além de Imamura, Teshigahara, Suzuki, Shinoda e Yoshida.
O módulo III buscará compreender os cineastas contemporâneos, as diferenças estéticas entre eles; a opção pelo cinema fantástico em Kiyoshi Kurosawa e a violência estetizada de autores como Takeshi Kitano e Takashi Miike.
MÓDULO 1 – OS MESTRES
(dia 07/04)
1) Kenji Mizoguchi: a força de um olhar.
-filme base: Senhorita Oyu (1951)
(dia 14/04)
2) Akira Kurosawa e o flerte com o ocidente.
-filme base: Trono Manchado de Sangue (1954)
(dia 21/04)
3) Mikio Naruse e a mulher japonesa.
-filme base: Mamãe (1952)
(dia 28/04)
4) Yasujiro Ozu e a poesia do cotidiano
-filme base: Flor do Equinócio (1958)
MÓDULO 2 - A NOUVELLE VAGUE JAPONESA
(dia 05/05)
1) Nagisa Oshima e a ousadia conceitual
filme base: Verão Japonês: Duplo Suicídio (1967)
(dia 12/05)
2) Shohei Imamura e a marca da crueldade
filme base: Todos Porcos (1961)
(dia 19/05)
3) Seijun Suzuki e a ousadia formal
filme base: A Marca do Assassino (1967)
(dia 26/05)
4) Hiroshi Teshigahara: a parceria com o escritor Kobo Abe + comentários sobre filmes de Masahiro Shinoda e Yoshishige Yoshida
filme base: A Mulher das Dunas (1964)
MÓDULO 3 - O CINEMA JAPONÊS NOS ÚLTIMOS 20 ANOS
(dia 02/06)
1) Takeshi Kitano: a versatilidade
filme base: Sonatine (1993)
(dia 09/06)
2) Kiyoshi Kurosawa: o verdadeiro novo mestre do Terror
filme base: Cure (1997)
(dia 16/06)
3) Hirokazu Kore-eda: a rarefação e a dor
filme base: Depois da Vida (1998) ou Maborosi (1995)
(dia 23/06)
4) Takashi Miike: entre a sugestão e a ultra violência
filme base: Audition (1999)
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O curso tem um total de doze aulas, de três horas e meia cada.
Toda quinta-feira a partir de abril, às 19h30.
OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:
1) Haverá uma pequena apostila para cada aula, com informações sobre o contexto dos filmes e o trabalho dos diretores.
2) Em caso de feriado na quinta-feira, será definido, entre professor e aluno, se a aula vai ser mantida ou remanejada para outro dia.
Professor:
Sérgio Alpendre é crítico de cinema e jornalista. Escreve para a Folha de SP (guia de livros, discos, filmes), Portal UOL e outros veículos. Foi criador e editor da Paisà, editor da revista da Programadora Brasil, redator-chefe da Contracampo, redator do Cineclick e colaborador da Bravo e da MOVIE. É curador das mostras Retrospectiva do Cinema Paulista e Tarkovski e seus Herdeiros. Ministra cursos de cinema e oficinas de crítica por todo o Brasil.
QUANTO:
R$ 400,00 (com desconto especial para quem já tiver feito o mesmo curso no passado).
- ou R$ 350,00 para pagamento antecipado (até 30 dias antes do início das aulas)
Ou R$ 180,00 por cada módulo (valor antecipado: R$ 150,00)
* mínimo de 10 alunos, máximo de 30 alunos.
ONDE:
Rua Aureliano Coutinho, 278 - conj. 32
Higienópolis - São Paulo
Fone: 3825-8141 / 7414-3534
email: sealpendre@gmail.com
11.01.11
Belas Artes diz adeus em grande estilo
Um dos cinemas de rua mais amados de São Paulo vai fechar as portas. Ok, não adianta espernear, porque parece que não tem mais jeito. A não ser que uma empresa boazinha e amiga do cinema surja nas próximas horas para reverter o que parece irreversível. Mas não acredito em empresas boazinhas.
Pelo menos, o Belas Artes sai de cena em grande estilo. Com uma retrospectiva de grandes filmes que fizeram parte de sua história, além de outros clássicos. Como são 68 anos de vida, o que não falta é filme bom nessa despedida.
Confira abaixo a programação.
Ah, parece que o espaço - onde tanta gente já se emocionou, riu, ficou mais inteligente - vai virar uma loja. Perfeito. Tudo a ver com a época.
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O Bandido da Luz Vermelha, atração do dia 20
De 14 a 27 de janeiro, os Sucessos do Belas Artes serão exibidos às 18h30, e os Clássicos Cult, às 21h.
Haverá uma sessão extra no dia 25/01 às 16h com exibição de "A Guerra dos Botões" (França,1962; de Yves Robert)
Os ingressos da retrospectiva tem valor de R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia entrada).
Segue abaixo a programação atualizada da RETROSPECTIVA:
Dia 14
- 18h30 “Meu Tio” (França, 1958; de Jacques Tati)
- 21h “O Encouraçado Potemkin” (Rússia, 1925; de Serguei Eisenstein)
15
- 18h30 “Morte em Veneza” (Itália, 1971; de Luchino Visconti)
- 21h “A Regra do Jogo” (França, 1939; de Jean Renoir)
16
- 18h30 “Paixão Selvagem” (França, 1976; de Serge Gainsbourg)
- 21h “Amores Expressos” (China, 1994; de Wong Kar-wai)
17
- 18h30 "Sargento Getúlio" (Brasil, 1983; Hermanno Penna)
- 21h “Segunda-Feira ao Sol” (Espanha, 2002; de Fernando León de Aranoa)
18
- 18h30 “O Ilusionista” (EUA/República Tcheca, 1976; de Neil Burger)
- 21h “Música e Fantasia” (Itália, 1976; de Bruno Bozzetto)
19
- 18h30 "Noites de Cabíria" (Itália, 1957; Federico Fellini)
- 21h “ Lúcia e o Sexo” (Espanha, 2001; de Julio Medem)
20
- 18h30 “ Cría Cuervos” (Espanha, 1976; de Carlos Saura)
- 21h “O Bandido da Luz Vermelha” (Brasil, 1968; de Rogério Sganzerla)
21
- 18h30 “As Bicicletas de Belleville” (França, 2003; de Sylvain Chomet)
- 21h “A Lei do Desejo” (Espanha, 1987; de Pedro Almodóvar)
22
- 18h30 “Pai Patrão” (Itália, 1977; de Paolo e Vittorio Taviani)
- 21h “Apocalypse Now” (EUA, 1979; de Francis Ford Coppola)
23
- 18h30 “Gritos e Sussurros” (Suécia, 1972; de Ingmar Bergman)
- 21h “O Passageiro – Profissão: Repórter” (Itália, 1975; de Michelangelo Antonioni)
24
- 18h30 “Possessão” (Alemanha/França, 1981; de Andrzej Zulawski)
- 21h “A Malvada” (EUA, 1950; de Joseph L. Mankiewicz)
25
- 16h “A Guerra dos Botões” (França, 1962; de Yves Robert)
- 18h30 “ Crônica do Amor Louco” (Itália, 1981; de Marco Ferreri)
- 21h "O Sétimo Selo´" (Suécia, 1957; de Ingmar Bergman
26
- 18h30 “Johnny Vai á Guerra” (EUA, 1971; de Dalton Trumbo)
- 21h “Vestida Para Matar” (EUA, 1980; de Brian de Palma)
27
- 18h30 “Z” (França, 1969; de Costa-Gravas)
- 21h “Quanto Mais Quente Melhor” (EUA, 1959; de Billy Wilder)
24.11.10
No show de Paul McCartney
Meu pai teve uma frustração na vida (deve ter tido outras, mas esta é batata): não assistiu a nenhuma das apresentações de Frank Sinatra no Brasil, uma no Maracanã, outra mais perto de nós, no hotel Maksoud Plaza. Faltou dinheiro, pique, não sei bem... Então, quando descobri que Paul McCartney (o meu Sinatra) faria shows no País, prometi a mim mesmo que esta frustração eu não teria no baú.
Ainda que o sistema de venda pela Internet dificultasse tudo ao máximo, consegui ingressos para o segundo show do beatle. Numa segunda-feira, que não parece ser a circunstância ideal para um show de rock. Mas, para ver o Paul, qualquer dia seria perfeito.
Mesmo o mais imperfeito dos dias. Chovia em São Paulo. E até quem não é daqui conhece de fama como fica o trânsito quando se junta pista molhada e hora do rush. Com mais de 60 mil pessoas indo na mesma direção, então...
Mas cheguei, aos trancos e barrancos, com a paciência por um fio, mas cedo o bastante para tomar horas de chuva antes que a banda dissesse olá. A cerveja era Antarctica (que só tomo em último caso), chovia no meu copo, a capa de chuva comprada na banca grudava nos braços e no pescoço, o caminho para o banheiro exigia empurrões, pisões e mil desculpas (as mulheres ainda enfrentavam fila).
Mas aconteceu. Com pouco mais de dez minutos de atraso (pontualidade britânica, se comparada aos shows de Marisa Monte, para ficar só em um exemplo nacional), começava a primeira felicidade verdadeira do dia: Paul entra no palco e começa com uma canção diferente da abertura da noite anterior: “Magical Mystery Tour”. Delírio, comoção, lágrimas, impulso de pular, cantar, ver mais de perto, e ainda a precoce vontade de que aquele show não terminasse nunca.
O Rica, à minha esquerda, passa grande parte do show visivelmente emocionado. Me abraça a todo momento e silenciosamente agradece pelas aulas de Beatles que recebeu de mim, ainda criança. A Ju, à direita, parece mais empolgada que eu, se isso é possível; canta, pula, filma e fotografa, tudo ao mesmo tempo. Penso que tenho sorte demais por ter os dois comigo ali, e na minha vida sempre.

Já molhados,
horas antes do show começar
“Here Today”, inspirada em Lennon, e “Something”, de George e para ele, emocionam até estátua. Ainda mais com as sequências de fotos de Harrison com Paul, exibidas nos telões.
O que me faz pensar na diferença de postura entre Lennon e McCartney. Muitas vezes, o primeiro fez referências a George como um artista medíocre, que não teria o mesmo reconhecimento sem os líderes da banda. McCartney, por sua vez, quando George morreu de câncer, em 2001, declarou emocionado numa entrevista: “Morreu meu irmão caçula.”
Também me custa imaginar Lennon fazendo uma homenagem a Paul em seus shows. Na “Up and Coming Tour”, Macca entoa “Give Peace a Chance” no meio de “A Day in The Life” (seria um dos melhores momentos do show sem essa emenda, que me remete à Yoko de pijama e sem tomar banho numa cama em Amsterdã).
Difícil apontar outros destaques em meio a um set list no qual, para mim, quase todas as canções são obras-primas. Senti falta de mais músicas dos seus álbuns recentes, como o fantástico Memory Almost Full. Mas que hit ele tiraria do repertório? “Let It Be”? Alguém chamaria a polícia e pediria o dinheiro de volta.
Aliás, me impressionou o quanto canções que já ouvi milhões de vezes ainda puderam me emocionar no show. Como “Yesterday”. Vieram-me à mente as cenas de Paul aos vinte e poucos anos, sozinho no palco com um violão, com um olhar ingênuo na direção do público inglês; sua canção de amor, tão singela e simples quanto cativante. A letra é o lamento de uma pessoa mais velha que aqueles vinte e poucos anos deixariam adivinhar. Alguém que já viveu a despreocupação da juventude para encarar os fatos da maturidade, mais especificamente do amor maduro. Ver Paul aos 68, voltando a um tema quase naïf, já um hino, deu uma gostosa sensação de permanência – e ao mesmo tempo de renovação –, coisa que se sente tanto no show do seu beatle preferido quanto no primeiro aniversário de um filho (no meu caso, de uma sobrinha querida).
Mas qualquer reflexão agridoce deu lugar à quase histeria que me acometeu na sequência apoteótica do final do show. Eu pagaria os 700 reais da pista vip só para ver os dois bis. O primeiro: “Day Tripper” (uma das melhores performances da banda), “Lady Madonna” e “Get Back”. O segundo começou com a já citada “Yesterday”. Precisa dizer mais? Precisa.
A segunda música do segundo bis (tudo programado, mas não menos impactante) foi a canção mais pesada da carreira dos Beatles: “Helter Skelter”, do Álbum Branco, uma de minhas preferidas e que é considerada precursora do heavy metal. Nesta hora, bati cabeça como se num show do Sepultura. Mas, no lugar dos irmãos Cavalera, havia um senhor de quase 70 anos, jogando a voz em tons que a maioria da molecada tem dificuldade de atingir. Em seguida, a despedida, numa sequência de “Sgt. Pepper’s” (“We’re Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band/ We hope you have enjoyed the show...”) e “The End”, a última música do ultimo disco dos Beatles (“And in the end/ The love you take/ Is equal to the love… you make”).
Na saída, um cenário de Rua 25 de Março em véspera de véspera de Natal. Milhares de pessoas caminhando à procura de uma condução. Ou nem isso, porque a condução, se ali houvesse, não sairia do lugar. Caminhamos uma hora e meia, com fome, cansaço muscular (de tantos pulos durante o show), vontade de ir ao banheiro, até chegar a um trecho do Morumbi em que fosse possível um automóvel se deslocar. Os táxis cobravam, no mínimo, 80 reais para andar um quarteirão que fosse. Foi difícil achar um honesto que cobrasse pelo taxímetro.
Jurei a mim mesmo que, outro show em estádio superlotado, só se o Paul voltasse. Mas nada – nem a ingresso.com, nem a chuva, nem a cerveja ruim, nem os taxistas espertalhões – conseguiu tirar de mim a alegria de pensar que, ainda que eu não escreva um livro, tenha um filho ou plante uma árvore, a morte já não me pega desprevenido.
* * *
Apesar da comparação desfavorável a John Lennon que fiz no texto acima, acho-o um gênio da música pop, e que era melhor que Paul na primeira fase dos Beatles. Seria incomparável, não fosse o outro sobrenome que assinava suas canções.
* * *
Perfeito, o comentário do crítico André Barcinski, em seu blog da Folha: “Achei um crime Macca juntar ‘A Day in The Life’ com ‘Give Peace a Chance’. É como tomar uma taça de Veuve Cliquot seguida de um shot de álcool Zulu.”






Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex