Deus não existe.
Cuiabá, quarta-feira, 12h44. Os termômetros apontam temperatura local de 37C, mas a sensação térmica é de 54 senegaleses graus. O horário de almoço e a proximidade com o Natal faz com que as vagas em estacionamentos de shopping sejam ainda mais raras e disputadas. A imagem de um carro aparentemente vazio acender as luzes traseiras e a de ré torna-se uma miragem ou delírio causado pelo clima.
Eu delirei na tarde de ontem.
Foi na melhor vaga do mundo. Nem o presidente da administradora do shopping ou um idoso veterano herói de guerra tem uma vaga reservada tão prestigiada. Era uma vaga possivelmente adquirida por alguém que chegou antes do shopping abrir. Ou melhor, por quem abriu o shopping. Eram duas mulheres. Aí começa o drama.
Freei bruscamente logo após vê-las rodear o carro. Ambas estavam bem vestidas, óculos escuros, sacolas de grife e salto alto. A carona posicionou-se a poucos centímetro da porta do carona. A motorista, com o celular em punho e um extravagante chapéu, aprontou-se como motorista do carro. E eu, num carro preto, quente e sem ar-condicionado-, aguardava a saída do carro para estacionar e, enfim, fugir daquele infernal sol do meio dia.
A motorista parou em frente ao carro.
Ainda com o celular, abriu a bolsa. Procurou a chave.
Mexeu a bolsa. Aparentemente não achava a chave.
Colocou a bolsa em cima do carro.
A amiga veio ajudar.
Ambas tiraram vários objetos da bolsa.
Nada da chave.
A amiga lembrou que a chave estava com ela.
Mexeu a bolsa. Chacoalhou a bolsa. Achou a chave.
A amiga voltou para o lado do carona dando pulinhos.
A motorista desligou o celular.
Entrou no carro.
Fechou a porta.
Lembrou que esqueceu a bolsa em cima do carro.
Abriu a porta e saiu do carro.
Pegou a bolsa e voltou para o carro.
Ambas riram.
Eu suava. Muito.
Ela deu a partida.
Pegou a bolsa para procurar o som do carro.
Mexeu a bolsa.
Mexeu mais a bolsa.
Tirou coisas da bolsa.
Lembrou que o som estava no porta-luvas.
Colocou o som.
Procurou uma estação. Lembrou que não sabia programar as rádios. Pegou um CD no porta-luvas.
Engatou a ré.
As luzes acenderam.
O carro morreu.
Ligou o carro novamente.
Morreu mais uma vez.
Ambas riram.
Eu, no carro, estava a poucos minutos de sofrer uma crise de desidratação.
Ligou o carro.
Engatou a ré.
Andou cerca de 30cm.
Parou o carro.
Deu seta.
Andou mais 10 cm.
Parou o carro.
Parou o mundo.
Parou a putaquepariu.
A luz de ré apagou.
Engatou a primeira.
Voltou para o pequeno pedaço de vaga que havia deixado.
Sairam do carro.
Voltaram para o shopping.

(...)
Se Deus existe, ontem ele riu da minha cara.

¹ Arte: Jesus Manero.
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Comentários:
Tem dias que também me sinto num reality show ou em uma "pegadinha do malandro"
Olho por todos os laos na esperança de ver uma camêra e nem me importaria de que toda a estratosfera risse da minha cara vendo na tv ou no youtube minha cara de desespero diante dessas situações, desde que o final fosse feliz.
Estamos no Show de Truman! Só pode!
eu não!!
imagine eu andando à pé ou de buzão..
Fé de menos..
Eu matava as duas.!!!!
Eu sei como é sofrer com carro sem ar condicionado!!!
é F....
porra ri muito veio
asuhsauhdusahdusahdusahdusahdusahduah que sacanagem
E ainda coloca Deus no meio?
Sim!
Podia ter uma mulher do lado dando palpites.
kkkkkkkkkk
É, nem todo mundo tem tanta sorte.
n sou muuuuuuuuuito de ir a igreja católica.. mas vou de vez enquanto..
mas, eu acredito em Deus, posso até não acreditar taaanto em religiões.. (assunto de religiao gera mt discussao)
mas eu creio q se Ele fez isso com você, foi por algum motivo, procure ver o lado bom da situação(tem q existir algum)... ou então Ele apenas estava 'testando' sua paciência.. rs
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